Por Psic. Ursula Marianne Simons

A fase pré-escolar deve servir ao desenvolvimento do raciocínio lógico e não ao ensino de conteúdos formais. Falhas na estruturação lógica podem ser causadoras de distúrbios na aprendizagem do cálculo, uma vez que a matemática não consegue ser edificada sobre um raciocínio pré-lógico.

Embora os dois hemisférios cerebrais trabalhem de maneira conjunta e complementar, existem diferenças no que se refere ao processamento dos vários tipos de estímulos.

4Até os sete anos o desenvolvimento cerebral se dá primordialmente em funções de hemisfério direito. Quando falamos em funções cerebrais, não nos referimos a regiões estanques, pois a cada ação há muitas áreas envolvidas, mas estamos falando em predomínio.

Segundo Lúria, a motivação possibilita a ampliação das estruturas de aprendizagem. Assim, quanto mais motivada a criança estiver, maior será seu potencial de aprendizagem.

Entretanto, para estar motivada, a criança precisa ser respeitada. É preciso conhecer sua estrutura cognitiva e estimulá-la de acordo com o que pode aprender e não simplesmente defrontá-la com conteúdos escolhidos aleatoriamente. Nessa fase, os estímulos precisam ser coloridos, concretos, palpáveis.

20A criança não pode aprender qualquer coisa que o adulto decida que deve aprender num determinado momento. É preciso que ela esteja madura para essa aprendizagem. A criança precisa explorar materiais e construir sua aprendizagem.

Na primeira infância, isto significa envolver principalmente as funções de hemisfério direito do cérebro

A maturidade não pode ser provocada. Ela depende da formação de mielina no cérebro e isto necessita de tempo.

A matemática faz uso de:

  • Grandezas;
  • Quantidades;
  • Comparações;
  • Contextos;

São funções primordialmente de hemisfério direito.

Para desenvolver o raciocínio, é importante que a criança jogue bastante, pois sua linguagem é o brincar. Brincar não é perda de tempo, é ganho, pois possibilitará que a criança:

  • Interaja com regras;
  • Se socialize;
  • Aprenda a perder, portanto, descentrar;
  • Desenvolva resistência à frustração necessária para enfrentar as dificuldades normais da aprendizagem;
  • Construa estratégias, que auxiliam na elaboração da Lógica.

Vamos entender o que é analisar uma informação primordialmente pelas funções de hemisfério direito ou esquerdo.

Por exemplo: QUANTOS INTEIROS SÃO 5/2?

A maioria das pessoas sente-se impactada e incapacitada de responder, pois na ausência de material concreto, visual, foram exigidas principalmente funções de hemisfério esquerdo, para interpretar os símbolos.

Repetindo a pergunta, provocando as funções figurativas, de hemisfério direito:

QUANTAS MAÇÃS INTEIRAS FORMAM CINCO METADES?

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A questão é a mesma, mas a maioria conseguirá responder sem problemas.

O mesmo se dá com a criança. Ser perguntarmos a ela, qual é o número maior:

3 ou 5?

Ela poderá responder: Nenhum, pois  3 e 5 tem o mesmo tamanho. Com a nossa forma adulta de pensar, é fácil interpretar os símbolos apresentados. Entretanto, para a criança, são só símbolos e ainda não lhe significam nada.

Mas, vejamos a diferença, se usarmos as réguas numéricas:

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Os símbolos são interpretados pelas funções de hemisfério esquerdo, mas o tamanho das réguas numéricas e as cores são interpretadas a partir de funções de hemisfério direito. Estes dados a criança consegue interpretar. Se aos poucos colocamos os símbolos em paralelo, isto passa a lhe fazer sentido.

Vejamos outro exemplo. Quem não lembra da dificuldade, quando criança, em compreender os símbolos de < (menor que) e > (maior que).

Mais uma vez traduziremos os sinais para as funções de hemisfério direito, comparando as réguas numéricas. Ficará fácil observar que, onde o ângulo está fechado, será preciso encaixar a régua menor e onde o ângulo está aberto, terá de ser encaixada a régua maior.

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Isto, para a criança, não é difícil de compreender, pois mais uma vez ela está sendo respeitada na linguagem que consegue compreender.

Comparemos a forma árida como costumamos tentar ensinar-lhe o que sabemos:

3 < 5

A criança até os 6-7 anos ainda tem um raciocínio pré-lógico

Sua compreensão é idiossincrática, isto é, ela parte de seus próprios pontos de vista para explicar o mundo a sua volta. Ainda não percebe o ponto de vista dos outros.

Por exemplo:

1)

6

Se dissermos a uma criança que temos aqui dois bolos de chocolate, cada um com quatro velas. No primeiro bolo as velas estão no meio, no segundo estão nos cantos. Em seguida perguntamos onde terá mais chocolate, se cobrirmos ambos os bolos com cobertura de chocolate. A criança pré-lógica será regida pela percepção visual e dirá que no bolo da direita tem mais cobertura de chocolate, porque visualmente é esta impressão que dá. Ela não é capaz de fazer a compensação pelo raciocínio, percebendo que se a superfície do bolo é a mesma e das velas também, não faz diferença a posição das velas.

2)

7

Apresentando-lhe dois copos com suco e questionando se têm a mesma quantidade de suco, a criança dirá que sim. Entretanto, se transvazarmos o líquido para um copo mais alto e mais estreito, a criança pré-lógica terá certeza que a quantidade de líquido aumentou. Mesmo argumentando que não colocamos nem tiramos líquido, não consegue perceber a identidade da substância.

3)

8

 

Oferecendo a uma criança de raciocínio pré-lógico uma nota de cinco reais e a outra cinco notas de um real, será difícil convencê-las que ambas têm a mesma quantia. A criança que recebeu as notas de um real estará certa que recebeu mais e a que recebeu a nota de cinco reais se sentirá prejudicada.

Até os seis anos esse tipo de raciocínio é normal, entretanto, não desaparece sozinho. É preciso que a criança seja estimulada para que pense logicamente. Podemos encontrar crianças com 8, 10, 12 anos, que ainda tropeçam nesse engano visual.

Vejamos a conseqüência que este tipo de raciocínio terá sobre a lógica numérica:

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Se solicitamos à criança que coloque uma ficha azul sob cada ficha vermelha, ela é capaz de fazê-lo e perceber que tanto as azuis quanto as vermelhas têm a mesma quantidade.

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Entretanto, separando-se as fichas azuis, passa a acreditar que agora têm mais fichas azuis que vermelhas, mesmo contando-as e verificando que continuam sendo cinco.

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Se juntarmos as fichas azuis, acredita que têm menos fichas azuis que vermelhas.

A falha lógica provocada pelo engano visual interfere no desenvolvimento da lógica numérica.

Entretanto, para que as crianças possam aprender a matemática de forma flexível e articulada, é preciso que tenham atingido o nível lógico. Quando não conseguem atingir esta estrutura, são impedidas de flexibilizar o raciocínio matemático. Se houver uma defasagem de mais de quatro anos, aproximadamente, dificilmente a criança ainda passa para a estrutura seguinte, o que acarretará uma discalculia funcional, por falhas de estimulação.

O raciocínio lógico-matemático precisa ser construído antes da entrada do número, através de atividades de classificação, seriação, seqüências lógicas, correspondência biunívoca, inclusão e intersecção de classes, etc, sempre com atividades lúdicas e material concreto.

A lógica numérica só se constrói com números baixos. É preciso levar a criança a operar muitas e muitas vezes, para que desenvolva uma linguagem matemática, que possa dar suporte aos raciocínios posteriores.

Não se deve apressar inicialmente a entrada de conteúdos matemáticos. A base pode ser comparada à fundação de um prédio. Precisa ser edificada com todo cuidado e levando-se o tempo que for necessário. Só depois será levantada a estrutura que posteriormente sustentará as paredes. O raciocínio lógico matemático precisa ser edificado da mesma forma, com muito cuidado e sem pressa, para que possa sustentar futuramente os raciocínios mais complexos. Por isso precisamos nos deter longamente nos cálculos até 10.

Observemos a diferença entre:

1 – 2 -3 -4 – 5 – 6 – 7 – 8 – 9 – 10

e:

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A primeira forma apresenta apenas símbolos, que ainda são sem sentido para a criança, pois precisam ser edificados primeiramente. A segunda forma, constituída pelas réguas numéricas, respeita a forma de funcionar da criança, permitindo-lhe que através das cores e das dimensões faça a construção da idéia de número.

As réguas numéricas têm sua origem na Alemanha. Foram trazidas por nós para o Brasil. O projeto foi desenvolvido aqui por uma empresa e rapidamente se espalhou por todos os lugares. Entretanto, poucas pessoas sabem explorar as réguas numéricas como é preciso.

O que permite à criança construir o cálculo mental, é a percepção da formação do número através das cores: 3, 6 e 9 são amarelas, assim a criança percebe que 3 + 3 = 6 e que 3 + 3 + 3 = 9; 4 e 8 são vermelhas; 5 e 10 são verdes;1 e 2 são azuis. Assim, ao invés de trabalhar com símbolos vazios, eles têm representação.

Escolas tendem a trabalhar a matemática através de símbolos e fórmulas. Ativam quase só as funções de hemisfério esquerdo, a área dos símbolos. Se isto já causa grande dificuldade às crianças em geral, para a criança com distúrbios na aprendizagem da matemática torna a aprendizagem praticamente impossível.

Por exemplo:

3 +____    = 10

ISTO CORRESPONDE À SITUAÇÃO SEGUINTE:

3 + X = 10

No ensino tradicional ensina-se uma série de regras:

  • Isola a incógnita
  • Passa o termo para o outro lado do sinal de igual
  • Inverte-se o sinal

Observe-se o que significa dar a informação vazia.

Com as réguas numéricas, esta situação pode ser trabalhada concretamente, sem dificuldade.

 

3 + x = 10

13

 

A lacuna aponta para o resultado. Inserindo a régua faltante, a criança descobre o resultado, que é 7.

 

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Com material concreto a criança poderá desenvolver a capacidade de interpretar sentenças matemáticas. Por isso desde o início será estimulada a resolver situações do tipo:

1

Com as réguas numéricas isto é uma tarefa simples, pois estamos trabalhando sempre com as grandezas concretas.

Logo é preciso passar para situações-problema, sempre fazendo uso das réguas numéricas.

Por exemplo:

João tinha 2 bolinhas de gude, comprou 3, ficou com ____

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Jogou uma partida com André e perdeu 1. Agora tem ____

2

Através das réguas numéricas a criança é capaz de fazer uma imagem mental das grandezas numéricas, o que lhe possibilitará realizar cálculos mentais e desenvolver autonomia de raciocínio.

Se a criança apenas operar com símbolos, 5 – 1 = ela não terá como perceber figurativamente a operação e a única estratégia que lhe resta é contar nos dedos, um a um. Isto não lhe permite desenvolver idéias de grandeza e ela ficará presa a essa forma de operar.

Precisamos entender a forma de raciocinar da criança, para possibilitar-lhe atingir um raciocínio flexível.

O sucesso em relação à aprendizagem da matemática depende de uma boa construção lógica na primeira infância.

Se esta existe, basta trabalhar de forma estruturada, com material concreto. O conteúdo matemático será facilmente construído.

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A autora é Psicóloga Psicopedagoga. Mestre em Psicologia Clínica.  Especialista em Psicomotricidade Ramain Thier. E Método Panlexia um programa de Redução de Dislexia na Linguagem portuguesa. Autora do livro Blocos Lógicos – 150 Exercícios para Flexibilizar o Raciocínio.

Se você tem interesse na aquisição das réguas numéricas procure por Ludice no facebook. https://www.facebook.com/Ludice-359570084158439/

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REFERÊNCIAS

García, Jesus Nicasio. Manual de Dificuldades de Aprendizagem: linguagem, leitura, escrita e matemática / Jesus Nicasio García; trad. Jussara Haubert Rodrigues. – Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

Rohde, Luis Augusto. Princípios e Práticas em Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade / Luis Augusto Rohde e Paulo Mattos…(et al.). Porto Alegre : Artmed, 2003.

Bassedas, Eulália. Intervenção educativa e diagnóstico psicopedagógico / Eulália Bassedaas, Teresa Huguet, Maite Marrodán, Marta Oliván, Mireia Planas, Montserrat Rossell, Manoel Seguer e Maria Vilella; trad. Beatriz Affonso Neves. – 3 ed. – Porto Alegre : Artes Médicas, 1996.

Especialista em Psicopedagogia Clinica e Institucional. Formação em Avaliação Dinâmica do Potencial de Aprendizagem e em PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) pelo CDCP (Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná) Centro de Treinamento Autorizado pelo Hadassah Wizo-Canada Reserach Institute e pelo ICELP - The Internacional Center for the Enhancement of Learning Potential, Jerusalém - Israel. Experiência em alfabetização e dificuldades de aprendizagem. Autora do e-book: "Mamãe, deixe-me crescer" e idealizadora da Revista Psicosol. Ama ler e tem levado bem a sério a sua brincadeira de escrever.

4 comentários em “Estratégias de intervenção educativa na matemática

  1. Lucimara Santos ZANDONÁ on said:

    Gostei do artigo. Muito interessante. Valeu muito para meu entendimento. Obrigada.

  2. Jesilda A. Santos on said:

    Sensacional!!Amei. Obrigada.

  3. inez aparecida de moura lima luiz silva on said:

    Adorei! Sempre trabalho com o concreto. É isso mesmo.

  4. Telma Neide on said:

    Muito obrigado pela sua atenção!
    Muito dinâmico…

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