Linguagem oral: a base para uma alfabetização de sucesso

O-lá!

As primeiras palavras de uma criança costumam emocionar toda a família. Primeiro vêm os sons, depois os balbucios, até que, quase sem percebermos, ela começa a nomear pessoas, fazer perguntas, contar histórias e expressar seus sentimentos.

A linguagem oral faz parte do desenvolvimento humano. Desde os primeiros meses de vida, a criança começa a construir sua comunicação por meio das interações com as pessoas ao seu redor. Ela observa, escuta, experimenta sons, balbucia e, pouco a pouco, atribui significado às palavras que ouve.

Embora exista uma predisposição biológica para a aquisição da linguagem, a qualidade das experiências vividas exerce um papel fundamental nesse processo. Conversas, histórias, músicas, brincadeiras e momentos de interação enriquecem o vocabulário, favorecem a compreensão e ampliam as possibilidades de comunicação da criança.

Esse desenvolvimento é especialmente importante porque a linguagem oral constitui uma das principais bases da alfabetização. Antes de compreender que as letras representam os sons da fala, a criança precisa desenvolver seu vocabulário, compreender o significado das palavras, construir frases e perceber as características da linguagem que utiliza diariamente.

Diferentemente da fala, que costuma ser adquirida naturalmente nas interações sociais, a leitura e a escrita dependem de um ensino intencional e sistemático. Quanto mais rica for a experiência da criança com a linguagem oral, mais recursos ela terá para compreender e aprender a linguagem escrita.

Como explica Piaget, a linguagem representa uma das manifestações mais elaboradas da função simbólica, permitindo que a criança organize o pensamento, represente a realidade e compartilhe suas ideias (ROTTA et al., 2006).

Quando é importante procurar ajuda?

Cada criança possui seu próprio ritmo de desenvolvimento, por isso pequenas diferenças entre uma e outra costumam ser esperadas.

Entretanto, quando existe uma demora significativa para falar, dificuldades persistentes para compreender o que é dito ou para se comunicar, vale a pena buscar uma avaliação profissional. O fonoaudiólogo é o especialista indicado para investigar o desenvolvimento da linguagem oral e verificar se há necessidade de intervenção.

Quanto mais cedo uma dificuldade é identificada, maiores costumam ser as possibilidades de favorecer o desenvolvimento da criança. Em muitos casos, o trabalho conjunto entre fonoaudiólogo, psicopedagogo, escola e família oferece um suporte ainda mais completo, especialmente quando a criança já iniciou o processo de alfabetização.

Como a linguagem oral se desenvolve?

Conhecer as principais etapas do desenvolvimento da linguagem ajuda pais e educadores a compreenderem o que costuma ser esperado em cada idade. É importante lembrar que esses marcos servem como referência, e pequenas variações podem acontecer sem que isso indique, necessariamente, um problema.

0 a 3 meses

Nessa fase, o bebê se comunica principalmente por meio do choro, de sons reflexos e de pequenas vocalizações. Também começa a reconhecer vozes familiares, especialmente a dos cuidadores, estabelecendo as primeiras bases para o desenvolvimento da linguagem.

4 a 6 meses

O bebê passa a prestar mais atenção aos sons da fala e começa a brincar com a própria voz. Surgem os primeiros balbucios, enquanto ele demonstra interesse quando alguém conversa com ele, respondendo com sons, expressões faciais e movimentos.

7 a 9 meses

Os balbucios tornam-se mais variados e repetitivos, como “bababa” e “dadada”. Também é comum que a criança utilize gestos, como apontar ou estender os braços, mostrando que já compreende que a comunicação acontece por diferentes formas, não apenas por palavras.

10 a 12 meses

As primeiras palavras costumam surgir nesse período, embora algumas crianças possam começar um pouco antes ou um pouco depois. Além disso, já compreendem ordens simples, reconhecem nomes de pessoas e objetos familiares e utilizam gestos para complementar sua comunicação.

12 a 18 meses

O vocabulário cresce rapidamente. A criança geralmente utiliza entre 10 e 50 palavras e começa a formar pequenas combinações, como “mamãe água” ou “mais pão”. Nessa fase, ela costuma compreender muito mais do que consegue expressar verbalmente.

Por volta dos 2 anos

O vocabulário aumenta significativamente, podendo chegar a centenas de palavras. As frases passam a ter duas ou três palavras e a criança consegue nomear pessoas, objetos e situações do cotidiano com mais facilidade.

Por volta dos 3 anos

As frases tornam-se mais completas e organizadas. A criança começa a utilizar elementos gramaticais, como artigos, preposições e plurais, tornando sua fala cada vez mais compreensível.

Por volta dos 4 anos

A fala costuma estar bastante clara para a maioria das pessoas. A criança consegue manter pequenas conversas, contar acontecimentos, fazer perguntas e expressar seus pensamentos com riqueza crescente de detalhes.

Importante: Esses marcos representam o desenvolvimento esperado para a maioria das crianças, mas pequenas variações podem ocorrer. Se houver dúvidas sobre o desenvolvimento da linguagem oral, procure um fonoaudiólogo para uma avaliação.

Como estimular a linguagem oral no dia a dia?

A boa notícia é que os melhores estímulos não exigem materiais sofisticados. Eles acontecem nas situações mais simples da rotina.

Converse bastante com a criança. Explique o que está fazendo, fale sobre o dia a dia e incentive que ela também conte suas experiências.

Leia histórias diariamente. A leitura amplia o vocabulário, desenvolve a compreensão da linguagem e desperta a imaginação.

Nomeie objetos, pessoas e ações. Enquanto realiza atividades do cotidiano, aproveite para falar sobre o que está acontecendo. Esses momentos enriquecem naturalmente o vocabulário da criança.

Utilize sempre uma fala clara e correta. As crianças aprendem ouvindo bons modelos de linguagem.

Evite corrigir os erros de forma direta. Em vez disso, repita naturalmente a frase da maneira correta. Se a criança disser: “Eu peguei o cainho azul”, você pode responder: “Você pegou o carrinho azul? Que legal!”. Assim, ela escuta o modelo correto sem sentir que está sendo repreendida.

Faça perguntas abertas. Questões como “O que você mais gostou hoje?” ou “Como você fez isso?” incentivam respostas mais elaboradas e estimulam a organização do pensamento.

Brinque com palavras. Cantigas, parlendas, rimas, trava-línguas, histórias e brincadeiras de faz de conta são excelentes oportunidades para ampliar a linguagem oral de forma prazerosa.

Valorize todas as tentativas de comunicação. Quando a criança percebe que é ouvida, sente-se mais confiante para continuar falando, experimentando novas palavras e aprendendo.

Evite que o tempo de tela substitua as conversas. Nenhuma tecnologia consegue oferecer a riqueza das interações humanas para o desenvolvimento da linguagem.

Muito além de aprender a falar

Desenvolver a linguagem oral é muito mais do que ensinar uma criança a falar. É ajudá-la a organizar o pensamento, compreender o mundo, construir relações, expressar sentimentos e desenvolver habilidades que, mais tarde, servirão de base para a leitura e a escrita.

Quando uma criança conversa, escuta histórias, canta, brinca com rimas, com trava-línguas, amplia seu vocabulário e aprende a expressar suas ideias, ela está fortalecendo competências fundamentais para a alfabetização. Não por acaso, muitas dificuldades encontradas durante esse processo têm suas raízes em experiências insuficientes com a linguagem oral nos primeiros anos de vida.

A alfabetização não começa quando a criança recebe um lápis e um caderno. Ela começa muito antes, nas conversas durante as refeições, nas histórias antes de dormir, nas músicas, nas brincadeiras e em todos os momentos em que alguém dedica tempo para conversar, ouvir e interagir com ela.

Cada palavra compartilhada hoje ajuda a construir o leitor e o escritor de amanhã.


Referência

ROTTA, Newra Tellechea et al. Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Solange Moll

Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Formação em Avaliação Dinâmica do Potencial de Aprendizagem e em PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) pelo CDCP (Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná), Centro de Treinamento Autorizado pelo Hadassah Wizo-Canada Reserach Institute e pelo ICELP – The Internacional Center for the Enhancement of Learning Potential, Jerusalém – Israel. Experiência em alfabetização e dificuldades de aprendizagem. Psicomotricista Relacional. Mãe Atípica. Apaixonada por desenvolver jogos e compartilhar com vocês.

Comentários

6 respostas para “Linguagem oral: a base para uma alfabetização de sucesso”

  1. Avatar de Ester Litvin
    Ester Litvin

    qual a ordem no desenvolvimento da linguagem: balbucio, paleio, vocalização?

  2. Avatar de Luciani
    Luciani

    Amo ser profissional da educação e as atividades propostas aqui são fantásticas.

  3. Avatar de Tereza
    Tereza

    Solange, boa noite!!!
    Estou terminando a minha pós em Psicopedagogia e vejo o quanto ainda tenho que aprender….. fico encantada com o seu blog….. quanta material criativo e principalmente feito com produtos reciclados.

    Obrigada por dividir um pouco da sua experiência…

    Grande abraço!!!

    Tereza Sanches

    1. Avatar de Solange Moll
      Solange Moll

      Obrigada pela visita Tereza! Volte sempre!!!

  4. Avatar de Marlene Taborga

    Gostei!Etapas da Aquisiçao da Linguagem. Parabens!

    1. Avatar de Solange Moll
      Solange Moll

      Obrigada, Marlene! 🙂

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