Categoria: Artigos

  • Escrita sem espaços: a criança está escrevendo as palavras tudo junto, o que fazer?

    Escrita sem espaços: a criança está escrevendo as palavras tudo junto, o que fazer?

    A segmentação de palavras diz respeito à compreensão de que a escrita não é uma sequência contínua de letras ou sons, mas sim uma organização estruturada em unidades linguísticas chamadas palavras, separadas por espaços.

    Quando a criança escreve alfabeticamente, mas frases sem segmentação,  como em produções do tipo “osapopulounalagoa”, não estamos diante de um erro ortográfico. Esse tipo de escrita revela um modo específico de compreender a linguagem escrita, ainda em construção, no qual os limites entre as palavras não estão plenamente estabilizados.

    Segundo Jaime Luiz Zorzi (1998, p. 60):

    Na escrita alfabética, a separação das palavras por meio de espaços em branco implica o conhecimento convencional da grafia das mesmas e também de alguma noção do que possa ser uma palavra.

    Ou seja, segmentar palavras não é apenas uma habilidade mecânica, mas envolve um conhecimento linguístico e conceitual sobre o que é uma palavra e como ela se organiza na escrita.

    Possíveis causas da dificuldade na segmentação

    A dificuldade em separar palavras geralmente resulta da interação entre diferentes aspectos do desenvolvimento linguístico e cognitivo:

    1. Construção inicial do conceito de palavra
    A criança pode ainda não ter consolidado a ideia de palavra como unidade linguística estável, tanto na fala quanto na escrita.

    2. Foco predominante na relação som–letra
    Em fases iniciais da alfabetização, a atenção costuma estar voltada para a decodificação e a correspondência fonema–grafema, o que pode reduzir a atenção à organização global da frase.

    3. Dificuldade de percepção das pausas na linguagem oral
    Quando a criança não percebe com clareza as fronteiras rítmicas e prosódicas da fala, tende a não transferir essa segmentação para a escrita.

    4. Pouca mediação na leitura de textos escritos
    A ausência de leitura compartilhada com apontamento e discussão sobre a estrutura do texto pode dificultar a construção da noção de espaços entre palavras.

    5. Sobrecarga cognitiva na escrita inicial
    Durante a alfabetização inicial, grande parte dos recursos cognitivos é utilizada na codificação, o que pode comprometer a atenção à organização sintática da frase.

    Implicações pedagógicas

    A escrita sem segmentação não deve ser interpretada como descuido ou desatenção, mas como expressão de um estágio do desenvolvimento da escrita. Isso implica que a intervenção precisa ser intencional, sistemática e baseada em experiências que favoreçam a construção da noção de palavra como unidade.

    Trabalhar segmentação, portanto, não é apenas “corrigir espaços”, mas favorecer a compreensão de que a escrita representa a linguagem de forma organizada, convencional e compartilhável socialmente.

    Plano de intervenção pedagógica

    1. Consolidação da noção de palavra na oralidade

    Antes da escrita, é importante fortalecer a percepção de palavra como unidade:

    • segmentação oral de frases. O adulto fala uma frase e pede para criança bater uma palma após cada palavra pronunciada;
    • contagem de palavras em enunciados curtos;
    • ampliação gradual da complexidade das frases;
    • exploração de pausas naturais da fala.

    2. Mediação da leitura com foco na estrutura do texto

    A leitura compartilhada é um espaço privilegiado para a construção da segmentação:

    • Leitura em grupo, com cada criança apontando palavra por palavra no próprio texto. Em alguns momentos, pare a leitura e solicite que todos verifiquem se estão na mesma palavra, comparando com os colegas;
    • atenção explícita aos espaços entre palavras;
    • comparação entre frases corretamente segmentadas e versões sem espaços;
    • releitura com foco na organização gráfica.

    3. Escrita com apoio de estruturas externas

    Para reduzir a carga cognitiva e favorecer a reflexão sobre a organização da frase:

    • montagem de frases com palavras móveis;
    • reorganização de frases embaralhadas;
    • ditado com apoio visual de referência;
    • reescrita orientada de produções da própria criança.

    4. Progressão didática

    O trabalho deve avançar de forma gradual:

    • manipulação concreta de palavras;
    • organização de frases com apoio visual;
    • leitura estruturada com segmentação evidente;
    • escrita guiada;
    • escrita espontânea com revisão mediada.

    5. Recursos lúdicos como apoio à aprendizagem

    O uso de jogos favorece a repetição com significado, elemento essencial para a consolidação dessa habilidade.

    👉 Arquivo “Separe as Palavras” – Psicosol

    O jogo Separe as Palavras (PDF gratuito) propõe uma atividade de análise da escrita que envolve um desafio central da alfabetização: a segmentação de palavras.

    A proposta consiste em apresentar títulos de histórias infantis conhecidas do universo infantil, porém escritos de forma aglutinada, sem separação entre as palavras. Por exemplo: “João e o Pé de Feijão” pode aparecer como “joaoeopedefeijão”.

    O desafio da criança é identificar a estrutura do título, reconhecer as palavras que o compõem e reescrevê-lo convencionalmente, colocando cada palavra em um quadro da página.

    Essa proposta exige que a criança mobilize simultaneamente conhecimentos sobre leitura, reconhecimento lexical e organização da linguagem escrita, indo além da simples decodificação.

    Do ponto de vista pedagógico, trata-se de uma atividade que favorece a reflexão sobre o sistema de escrita, especialmente no que se refere à noção de palavra como unidade gráfica.

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    Considerações finais

    A segmentação de palavras é uma habilidade que se constrói progressivamente e está diretamente relacionada à compreensão da linguagem escrita como sistema convencional.

    Quando a criança compreende que a escrita não é um fluxo contínuo, mas uma organização em palavras separadas por espaços com função linguística, ela avança significativamente em sua autonomia como leitora e escritora.

    Referência Bibliográfica

    ZORZI, Jaime Luiz. Aprender a escrever: a apropriação do sistema ortográfico. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

  • Seu aluno lê, mas não compreende? O que pode estar acontecendo

    Seu aluno lê, mas não compreende? O que pode estar acontecendo

    Você já se deparou com um aluno que lê o texto em voz alta, aparentemente com fluência, mas quando você pergunta sobre o que leu, ele não consegue explicar ou responde de forma muito vaga?

    Esse é um cenário que costuma gerar uma dúvida importante: se ele lê corretamente, por que não compreende?

    Em muitos casos, essa situação não indica falta de capacidade, mas sim que a leitura ainda não se consolidou como um processo de construção de sentido.

    Neste texto, você vai entender o que pode estar acontecendo com esse aluno e como isso se relaciona com o desenvolvimento da leitura.

    Ler em voz alta é o mesmo que compreender?

    Nem sempre.

    Algumas crianças conseguem decodificar palavras com precisão, reconhecendo letras e sílabas, e até apresentam uma leitura fluente do ponto de vista sonoro. No entanto, isso não garante compreensão.

    Segundo Solé (1998), a leitura é um processo ativo de construção de sentido, que envolve a interação entre o leitor, o texto e seus conhecimentos prévios. Ou seja, ler não é apenas “falar o texto em voz alta”, mas atribuir significado ao que está sendo lido.

    Quando essa construção não acontece, temos uma leitura mecânica: a criança lê, mas não elabora mentalmente o conteúdo.

    O que pode estar acontecendo com esse aluno?

    Quando o aluno lê, mas não compreende, algumas hipóteses precisam ser consideradas:

    • ele pode estar ainda muito focado na decodificação;
    • pode não ter automatizado suficientemente o reconhecimento das palavras;
    • pode ter dificuldades de vocabulário;
    • ou pode não estar utilizando estratégias de compreensão.

    A compreensão depende da eficiência da leitura de palavras. Quando a decodificação ainda exige muito esforço cognitivo, a memória de trabalho fica sobrecarregada e sobra pouco “espaço mental” para compreender o texto.

    Isso ajuda a entender um ponto importante: às vezes o aluno até lê corretamente, mas ainda está gastando tanta energia para decodificar que não consegue pensar sobre o que leu.

    Decodificar não é o mesmo que compreender

    Para compreender um texto, a criança precisa ir além de reconhecer palavras.

    Ela precisa:

    • manter as informações na memória;
    • relacionar ideias;
    • fazer inferências;
    • ativar conhecimentos prévios;
    • construir uma representação mental do texto.

    A compreensão ocorre quando o leitor consegue integrar as informações do texto com seus conhecimentos anteriores, formando uma rede de sentido coerente.

    Quando essa integração não acontece, a leitura fica fragmentada, a criança até entende partes, mas não o todo.

    E o papel da escola nisso tudo?

    Vygotsky (1934/2001) já destacava que a linguagem escrita é uma função psicológica superior, que não se desenvolve de forma espontânea, mas por meio da mediação.

    Isso significa que compreender textos não é algo que “simplesmente acontece” quando a criança aprende a ler palavras.

    É preciso ensino intencional, com orientação do professor, perguntas guiadas, discussões sobre o texto e estratégias que ajudem a criança a pensar sobre o que leu.

    Quando a leitura se torna apenas “oralização”?

    É importante observar quando a leitura do aluno se resume a uma sequência de palavras faladas, sem construção de sentido.

    Alguns sinais comuns:

    • a criança lê corretamente, mas não sabe recontar o texto;
    • não consegue responder perguntas simples sobre o conteúdo;
    • depende sempre do professor para explicar o texto;
    • não faz inferências básicas.

    Nesses casos, o problema não está apenas na leitura em si, mas na ausência de estratégias de compreensão.

    O papel do vocabulário e dos conhecimentos prévios

    Outro fator importante é o vocabulário. Se a criança não conhece muitas palavras do texto, dificilmente conseguirá compreendê-lo.

    Além disso, a compreensão depende do que ela já sabe sobre o tema. Por isso, dois alunos podem ler o mesmo texto e ter compreensões completamente diferentes, dependendo de suas experiências anteriores.

    Como ajudar o aluno a avançar na compreensão?

    O trabalho com compreensão precisa ser intencional.

    Algumas estratégias importantes:

    • antes da leitura, ativar conhecimentos prévios sobre o tema;
    • durante a leitura, fazer pausas para perguntas simples;
    • pedir que a criança reconte o texto com suas palavras;
    • trabalhar com imagens e associações;
    • ensinar a localizar informações no texto.

    O objetivo não é apenas que o aluno leia, mas que pense sobre o que lê.

    Uma proposta de intervenção: leitura com mediação ativa

    Uma forma simples de intervir é começar explorando textos curtos e transformar a leitura em um processo guiado.

    Por exemplo:

    • o professor lê um trecho junto com o aluno;
    • faz perguntas durante a leitura (“o que você acha que vai acontecer agora?”);
    • pede previsões;
    • e, ao final, solicita que a criança reconte a história.

    Esse tipo de mediação ajuda a criança a sair da leitura mecânica e começar a construir sentido.´

    Um exemplo de jogo com texto curto é o Verdade?.

    Nesse jogo, a criança lê um pequeno texto e, em seguida, sorteia uma carta com uma afirmação relacionada ao conteúdo. A tarefa é analisar a informação e decidir se ela é verdadeira ou falsa, com base no que foi lido.

    Esse movimento é importante porque desloca o foco da leitura mecânica para a compreensão ativa, já que o aluno precisa interpretar o texto, recuperar informações relevantes e comparar o que foi afirmado com o conteúdo lido para tomar uma decisão.

    Esse tipo de atividade é especialmente interessante para crianças que já conseguem decodificar com certa fluência, mas ainda apresentam dificuldades de compreensão. Nesses casos, o jogo funciona como uma intervenção intermediária, pois exige que o aluno volte ao texto mentalmente, selecione informações e construa uma justificativa para sua resposta.

    Além disso, o professor pode atuar como mediador, ajudando a criança a localizar trechos do texto, esclarecer vocabulário e justificar sua decisão com base em evidências textuais. Esse apoio é fundamental para que a atividade não se reduza a um simples “chute”, mas se transforme em um exercício de leitura com sentido.

    Esse tipo de atividade favorece o desenvolvimento da leitura com sentido, pois a criança deixa de apenas “ler em voz alta” e passa a usar a leitura como ferramenta para pensar, confrontar informações e validar hipóteses a partir do texto.

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    Considerações finais

    Quando um aluno lê, mas não compreende, não estamos diante de um “não leitor”, mas de alguém em processo de desenvolvimento da leitura.

    Na maioria das vezes, ele já avançou na decodificação, mas ainda precisa desenvolver estratégias de compreensão e ampliar sua capacidade de construir sentido.

    Como aponta Morais (2013), a decodificação é condição necessária, mas não suficiente para a leitura competente.

    O papel do professor é justamente fazer essa ponte entre ler palavras e compreender textos.

    Referências Bibliográficas

    MORAIS, José. A arte de ler. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

    SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. Porto Alegre: Artmed, 1998.

    VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. (obra original publicada em 1934)

  • Seu aluno inverte a ordem das letras nas palavras ao escrever? Entenda o que pode estar acontecendo

    Seu aluno inverte a ordem das letras nas palavras ao escrever? Entenda o que pode estar acontecendo

    Você já encontrou no caderno de um aluno “prota” no lugar de “porta”, ou “parto” em vez de “prato”, e ficou pensando o motivo desta troca?

    Em alguns casos, a palavra resultante não existe na língua. Em outros, forma uma palavra existente, o que pode inclusive alterar o sentido de uma frase ou texto.

    Esse tipo de escrita pode gerar preocupação, principalmente quando você percebe que seu aluno já escreve alfabeticamente, mas ainda apresenta trocas na ordem das letras dentro das palavras.

    O que isso revela sobre o processo de aprendizagem?

    Na maioria das vezes, esse tipo de produção não indica um problema, mas sim um momento do desenvolvimento da escrita. A criança ainda está construindo uma habilidade essencial: a organização da sequência dos sons dentro das palavras.

    Neste texto, você vai entender por que isso acontece, quando é esperado, quando merece atenção e como ajudar o aluno a avançar.

    O que significa inverter a ordem das letras?

    Quando falamos em inversão da ordem das letras, estamos nos referindo a situações em que a criança utiliza as letras corretas da palavra, mas altera sua posição.

    Veja alguns exemplos:

    • SEecola → EScola
    • RAco → ARco
    • NAta → ANta
    • PROta → PORta

    Em todos esses casos, a criança não escreve de forma aleatória. Ela está muito próxima da escrita convencional, mas ainda apresenta dificuldades na organização da sequência das letras.

    Esse ponto é importante: há construção de conhecimento acontecendo.

    Por que isso acontece?

    Para escrever corretamente uma palavra, a criança precisa realizar várias operações ao mesmo tempo:

    • perceber os sons da fala;
    • identificar quais sons compõem a palavra;
    • manter esses sons na ordem correta;
    • relacionar cada som a uma letra;
    • organizar tudo isso na escrita.

    Para um adulto, esse processo é automático. Para a criança em processo de alfabetização, ainda não.

    Quando ela escreve “secola” em vez de “escola”, ou “prota” em vez de “porta”, geralmente conseguiu identificar os sons da palavra, mas ainda tem dificuldade em manter a sequência exata deles durante o registro escrito.

    Aqui entra uma questão central: qual som aparece primeiro e qual aparece depois na palavra.

    Esse tipo de dificuldade aparece com frequência em estruturas como as / sa, an / na, ar / ra, quando a criança ainda está organizando a posição dos sons dentro da palavra.

    O papel da consciência fonológica

    A habilidade de perceber e refletir sobre os sons da fala é chamada de consciência fonológica.

    Ela envolve perceber que:

    • palavras podem ser divididas em partes menores;
    • essas partes podem ser sílabas;
    • e, mais adiante, em fonemas (os menores sons da fala).

    Essa habilidade não surge pronta. Ela se desenvolve ao longo da alfabetização.
    Pesquisas na área mostram que quanto mais desenvolvida a consciência fonológica, mais fácil se torna compreender o princípio alfabético, isto é, a ideia de que as letras representam os sons da fala.

    Autoras como Emilia Ferreiro e Ana Teberosky mostram que a criança constrói a escrita por hipóteses sucessivas, testando, errando e reorganizando seus conhecimentos.

    Magda Soares destaca que a alfabetização envolve compreender progressivamente como a escrita representa a fala em diferentes níveis de complexidade. Nesse sentido, ela afirma:

    A criança precisa, antes de tudo, perceber que a escrita representa a fala, e em seguida identificar os detalhes de como a escrita representa a fala. (SOARES, 2016, p. 125)

    O erro como parte do aprendizado

    Em vez de olhar apenas para o erro, é importante observar o que a criança já conseguiu fazer.

    Quando escreve “braco” em vez de “barco”, por exemplo, ela:

    • identificou praticamente todos os sons da palavra;
    • utilizou letras adequadas para representá-los;
    • compreendeu que precisava registrar toda a palavra.

    O desafio está na organização da sequência.

    Isso mostra que ela já avançou bastante no processo de alfabetização.

    É normal a criança inverter a ordem das letras?

    Nos primeiros anos de alfabetização, sim.

    Esse tipo de escrita é comum quando a criança ainda está consolidando:

    • a relação entre fala e escrita;
    • a segmentação da fala em sons menores;
    • a organização sequencial dos sons dentro da palavra.

    Portanto, não é um erro isolado que indique, por si só, uma dificuldade grave.

    Quando esse erro merece atenção?

    Apesar de ser comum, é importante observar a evolução do aluno.

    Vale atenção quando:

    • o erro persiste por muito tempo, sem evolução;
    • há dificuldades importantes também na leitura;
    • a criança não avança mesmo com intervenções pedagógicas;
    • há prejuízo significativo na escrita de palavras simples.

    Nesses casos, pode ser necessário investigar o processo de aprendizagem com apoio especializado.

    Como ajudar o aluno?

    O foco da intervenção deve ser ajudar a criança a perceber e organizar melhor a sequência dos sons das palavras.

    Algumas estratégias importantes:

    • falar palavras lentamente, destacando os sons;
    • pedir para a criança repetir segmentando oralmente;
    • trabalhar comparação entre palavras;
    • propor jogos de consciência fonêmica;
    • oferecer atividades de leitura e escrita significativas.

    O objetivo não é apenas corrigir, mas ajudar a criança a compreender como a palavra é construída.

    Uma proposta de intervenção: jogo Confrontos

    Uma forma de apoiar esse processo é utilizar atividades que direcionem a atenção da criança para a estrutura sonora das palavras.

    No jogo Confrontos, a criança escolhe uma carta e fala o nome da figura.

    O professor pode participar repetindo a palavra e destacando os sons iniciais e finais, por exemplo:

    /tambooooorrrr/

    Essa mediação ajuda a criança a perceber com mais clareza a estrutura sonora da palavra e a sequência em que esses sons aparecem.

    Após essa etapa oral, pode-se solicitar que a criança escreva a palavra.

    Esse momento é importante porque permite que ela relacione os sons percebidos com as letras correspondentes, fortalecendo o princípio alfabético.

    Se as cartas forem plastificadas ou protegidas com papel contact, a criança pode escrever diretamente nelas com caneta para quadro branco e depois apagar, tornando a atividade reutilizável.

    Clique no link abaixo para adquirir os arquivo PDF com o jogo.

    Considerações finais

    A inversão da ordem das letras nas palavras, como em “secola” no lugar de “escola”, não deve ser vista apenas como erro.

    Na maioria das vezes, ela revela um processo ativo de construção do conhecimento.

    A criança está tentando compreender como a escrita representa a fala e, nesse caminho, reorganiza suas hipóteses até chegar à forma convencional.

    O papel do professor é interpretar essas produções e planejar intervenções que favoreçam esse avanço.

    Referências Bibliográficas

    FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da Língua Escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999.
    SOARES, Magda. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Contexto, 2016.

  • Estimulação cognitiva na infância: o que é e por que é tão importante para a aprendizagem?

    Estimulação cognitiva na infância: o que é e por que é tão importante para a aprendizagem?

    O-lá!

    É comum ouvirmos que o cérebro da criança é como uma “esponja”, capaz de absorver tudo o que acontece ao seu redor. Embora essa comparação ajude a ilustrar a grande capacidade de aprendizagem da infância, ela não explica como esse processo realmente acontece.

    A criança não aprende de forma passiva. Ela observa, experimenta, compara, levanta hipóteses, testa possibilidades e constrói conhecimentos a partir das interações que estabelece com o ambiente e com as pessoas.

    Como destaca Celso Antunes (2003), o desenvolvimento ocorre em uma relação constante entre a criança e o meio em que vive.

    O ambiente e a educação fluem do mundo externo para a criança e da criança para seu mundo. (ANTUNES, 2003, p. 16)

    Isso significa que aprender não é apenas receber informações. A aprendizagem acontece quando a criança participa ativamente das experiências, atribui significado ao que vivencia e estabelece novas relações entre os conhecimentos já construídos e aqueles que está descobrindo.

    Desde muito cedo, essa construção pode ser observada em situações simples do cotidiano: explorar diferentes texturas, investigar um inseto, experimentar novos alimentos, brincar com objetos ou descobrir o significado das palavras. Cada uma dessas experiências contribui para o desenvolvimento das habilidades cognitivas.

    O que é estimulação cognitiva?

    A estimulação cognitiva consiste em oferecer experiências e desafios que favoreçam o desenvolvimento de diferentes habilidades mentais, como:

    • atenção;
    • concentração;
    • memória;
    • linguagem;
    • raciocínio lógico;
    • resolução de problemas;
    • flexibilidade de pensamento;
    • planejamento e outras funções executivas.

    Essas habilidades são fundamentais para que a criança consiga aprender de forma cada vez mais autônoma, tanto na alfabetização quanto nas demais áreas do conhecimento.

    O papel dos jogos no desenvolvimento cognitivo

    Os jogos são excelentes recursos para estimular essas habilidades, pois apresentam desafios que exigem que a criança observe, compare, faça escolhas, planeje estratégias, controle impulsos e tome decisões.

    Além disso, o envolvimento emocional proporcionado pelo brincar aumenta a motivação para aprender, favorecendo a participação ativa da criança durante a atividade.

    Nesse sentido, Vygotsky (1979) destaca a importância do brincar para o desenvolvimento infantil:

    […] a criança aprende muito ao brincar. O que aparentemente ela faz apenas para distrair-se ou gastar energia é, na realidade, uma importante ferramenta para o seu desenvolvimento cognitivo, emocional, social e psicológico.” (VYGOTSKY, 1979, p. 45)

    Jogos para estimular diferentes habilidades cognitivas

    Na Psicosol, diversos jogos foram desenvolvidos justamente com esse objetivo. Alguns exemplos são:

    • Dominó Esperto – trabalha atenção, concentração e percepção visual.
    • Memorize a Organização – estimula memória, percepção e estratégias de organização.
    • Peleja Lógica – desenvolve raciocínio lógico e resolução de problemas.
    • Qual é a Única – favorece velocidade de processamento, atenção e discriminação visual.
    • Fraseando – incentiva criatividade, linguagem e organização do pensamento.

    Cada jogo pode contribuir para o desenvolvimento de diferentes habilidades cognitivas de forma lúdica, tornando o processo de aprendizagem mais significativo e motivador.

    Considerações finais

    A estimulação cognitiva não consiste em antecipar conteúdos ou sobrecarregar a criança com atividades. Seu objetivo é oferecer experiências desafiadoras, adequadas à faixa etária, que despertem a curiosidade, promovam o pensamento e favoreçam o desenvolvimento global.

    Quando brinca, investiga e resolve desafios, a criança não está apenas se divertindo: ela está construindo conhecimentos que servirão de base para aprendizagens cada vez mais complexas.

    Referências

    ANTUNES, Celso. Jogos para a estimulação das múltiplas inteligências. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2003.

    VYGOTSKY, L. S. Do ato ao pensamento. Lisboa: Morais, 1979.

  • Consciência fonológica: por que ela é tão importante na alfabetização?

    Consciência fonológica: por que ela é tão importante na alfabetização?

    O que é consciência fonológica?

    Você já percebeu como algumas crianças conseguem aprender a ler e escrever com mais facilidade, enquanto outras parecem encontrar muitos obstáculos pelo caminho? Embora diversos fatores influenciem esse processo, existe uma habilidade que desempenha um papel essencial na alfabetização: a consciência fonológica.

    De forma simples, podemos defini-la como a capacidade de perceber, refletir e manipular conscientemente os sons da fala. É quando a criança passa a perceber que as palavras podem ser divididas em partes menores, como sílabas e fonemas, e que esses sons podem ser comparados, separados, unidos e transformados.

    É importante destacar que essa é uma habilidade relacionada à linguagem oral. A escrita depende de ensino sistemático, mas a consciência sobre os sons da fala começa a ser construída desde muito cedo, por meio das interações, das conversas, das músicas, das cantigas e das brincadeiras com a linguagem. Durante a alfabetização, essa habilidade passa a desempenhar um papel decisivo, pois ajuda a criança a compreender como a fala se relaciona com a escrita.

    Por que ela é tão importante?

    A consciência fonológica é fundamental para qualquer pessoa em processo de alfabetização, seja criança, adolescente ou adulto. Antes de compreender como a escrita funciona, o aprendiz precisa perceber como as palavras são organizadas sonoramente.

    Diversas pesquisas demonstram essa importância. Um estudo realizado por Alessandra G. S. Capovilla e Fernando C. Capovilla (2000) verificou que crianças que participaram de atividades voltadas ao desenvolvimento da consciência fonológica apresentaram melhor desempenho na alfabetização quando comparadas àquelas que não receberam esse tipo de intervenção.

    Os diferentes níveis da consciência fonológica

    A consciência fonológica não é uma habilidade única. Ela é composta por diferentes níveis de complexidade, entre eles:

    • Consciência de rimas;
    • Consciência de aliterações;
    • Consciência silábica;
    • Consciência fonêmica.

    Algumas dessas habilidades costumam surgir naturalmente por meio das experiências com a linguagem oral, especialmente as relacionadas às rimas e às sílabas. Já a consciência fonêmica, que consiste em perceber e manipular os menores sons das palavras, os fonemas, normalmente exige ensino sistemático e intencional.

    Ela costuma ser um dos últimos níveis a se desenvolver e está diretamente relacionada à compreensão do princípio alfabético.

    A relação entre fonemas e grafemas

    À medida que a criança desenvolve a consciência fonológica, torna-se possível compreender que os sons da fala são representados pelas letras.

    Esse conhecimento das correspondências entre fonemas (sons) e grafemas (letras) é indispensável para a aprendizagem da leitura e da escrita.

    Como afirmam Capovilla e Capovilla (2007, p. xvi):

    A consciência fonológica e o conhecimento das correspondências entre grafemas e fonemas estão para a alfabetização assim como as vitaminas e sais minerais estão para a saúde.

    Da mesma forma, Magda Soares (2016, p. 124) destaca:

    Para aprender a ler e escrever é necessário que o aprendiz volte sua atenção para os sons da fala, e tome consciência das relações entre eles e a sua representação gráfica.

    Como estimular a consciência fonológica?

    Todo ambiente alfabetizador deve oferecer oportunidades para que a criança observe, compare, identifique e manipule os sons das palavras.

    Jogos, parlendas, cantigas, trava-línguas, adivinhas e outras atividades lúdicas são excelentes recursos para esse desenvolvimento, pois tornam a aprendizagem mais significativa e prazerosa.

    Aqui na Psicosol você encontrará diversos jogos criados com esse objetivo

    Considerações finais

    Compreender como a consciência fonológica se desenvolve permite ao professor planejar intervenções mais intencionais e eficazes durante a alfabetização.

    Quando essa habilidade é estimulada de maneira sistemática, a criança constrói bases mais sólidas para compreender o funcionamento do sistema de escrita e avança com mais segurança na leitura e na produção escrita.

    Espero que este texto tenha contribuído para ampliar sua compreensão sobre esse tema tão importante.

    Um forte abraço!

    Referências Bibliográficas

    CAPOVILLA, Alessandra Gotuzo Seabra; CAPOVILLA, Fernando César. Problemas de leitura e escrita: como identificar, prevenir e remediar numa abordagem fônica. 5. ed. São Paulo: Memnon, 2007.

    CAPOVILLA, Alessandra Gotuzo Seabra; CAPOVILLA, Fernando César. Efeitos do treino de consciência fonológica em crianças com baixo nível socioeconômico. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, 2000.

    SARGIANI, Renan (org.). Alfabetização baseada em evidências: da ciência à sala de aula. Porto Alegre: Penso, 2022.

    SOARES, Magda. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Contexto, 2016.

    Aqui no site eu compartilho vários jogos que podem contribuir no desenvolvimento da consciência fonológica. Um exemplo é o jogo Revele a palavra (som inicial). Clique no link abaixo para mais detalhes.

     

  • TDAH, quem tu és?

    TDAH, quem tu és?

    “Não sossega, é impulsivo, não presta atenção, está sempre metido em confusão.”

    “Se fosse meu filho, eu mostrava quem manda. Isso é falta de limite.”

    “Não sabemos mais o que fazer.”

    Esses são relatos frequentes de professores, familiares e cuidadores que convivem com crianças com TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade.

    O que geralmente aparece, em primeiro plano, é o comportamento. Mas, quando olhamos com mais cuidado, percebemos que estamos diante de algo mais complexo: uma forma específica de funcionamento neuropsicológico que impacta atenção, impulsividade e autorregulação emocional.

    E isso atravessa diferentes espaços da vida da criança e não apenas a escola, mas também a convivência familiar, social e afetiva.

    O que é o TDAH?

    O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento amplamente estudado na literatura científica. Ele se caracteriza, principalmente, por dificuldades persistentes relacionadas à atenção, hiperatividade e impulsividade, em intensidade acima do esperado para a faixa etária e contexto da criança.

    Do ponto de vista neurobiológico, pesquisas indicam alterações no funcionamento de circuitos cerebrais ligados às funções executivas, especialmente na região do córtex pré-frontal,  área responsável pelo planejamento, controle inibitório, organização do pensamento e regulação do comportamento.

    Também há evidências da participação de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, que influenciam diretamente os sistemas de motivação, recompensa e atenção sustentada.

    Outro aspecto importante é a predisposição genética, frequentemente observada em histórico familiar semelhante.

    No entanto, é fundamental compreender: o diagnóstico não se baseia apenas em comportamento isolado, mas em um conjunto consistente de sinais, ao longo do tempo e em diferentes contextos.

    Comportamento não é diagnóstico

    Um dos pontos mais importantes — e frequentemente negligenciados — é a diferença entre comportamento e transtorno.

    Nem toda criança agitada, dispersa ou desorganizada apresenta TDAH. A infância, por si só, já é um período marcado por impulsividade, curiosidade intensa, variações atencionais e busca por movimento.

    Além disso, o comportamento infantil é profundamente influenciado por fatores emocionais, relacionais e pedagógicos.

    Uma criança pode apresentar desatenção, por exemplo, quando:

    • não compreende o que está sendo ensinado;
    • está em um ambiente pouco estimulante ou excessivamente exigente;
    • vive situações de estresse emocional;
    • não encontra sentido na atividade proposta;
    • ou ainda está tentando comunicar, de forma indireta, uma dificuldade de adaptação.

    Por isso, o diagnóstico exige cuidado, tempo e avaliação especializada. Rotular precocemente pode reduzir uma criança a uma explicação única para algo que, muitas vezes, é multifatorial.

    O risco do rótulo e o lugar do olhar adulto

    Quando uma criança passa a ser definida apenas por seu comportamento “o desatento”, “o bagunceiro”, “o impossível”, … algo importante se perde: a possibilidade de compreensão.

    O rótulo, ainda que muitas vezes nasça da exaustão, tende a congelar a criança em uma identidade fixa, enquanto ela está em pleno processo de desenvolvimento.

    Em atendimentos clínicos e educacionais, não é raro ouvir expressões que revelam sofrimento por trás do comportamento. Um adolescente certa vez me disse:

    “Já que eu não sou o melhor, então vou ser o pior.”

    Essa frase escancara algo essencial: muitos comportamentos desafiadores não são apenas “falta de controle”, mas formas distorcidas de pertencimento, visibilidade e reconhecimento.

    Toda criança precisa ocupar um lugar no olhar do outro. Quando esse lugar não é construído de forma positiva, ela pode buscá-lo de maneiras disfuncionais.

    Aprendizagem, desenvolvimento e descompasso

    Outro ponto fundamental é compreender que o processo de aprendizagem não ocorre de maneira uniforme.

    Crianças apresentam ritmos diferentes de desenvolvimento cognitivo, emocional e atencional. Quando há um descompasso contínuo entre o que é exigido e o que a criança consegue realizar naquele momento, é comum surgirem reações como:

    • desmotivação;
    • agitação;
    • recusa de atividades;
    • comportamentos de oposição;
    • ou dispersão constante.

    Essas respostas não devem ser interpretadas automaticamente como desinteresse ou indisciplina, mas como sinais de que algo precisa ser ajustado na mediação pedagógica.

    A aprendizagem acontece na relação entre desafio e possibilidade. Quando essa equação se rompe, o comportamento muitas vezes fala mais alto do que a linguagem verbal.

    Caminhos possíveis na prática educativa e familiar

    Apesar da complexidade do tema, existem estratégias que podem contribuir significativamente para o desenvolvimento e a convivência com crianças com ou sem TDAH.

    • Intervenções mais focadas e progressivas

    Trabalhar uma orientação por vez ajuda a criança a organizar melhor sua ação e reduz sobrecarga cognitiva.

    • Correções individualizadas

    Evitar exposição pública preserva a autoestima e favorece a construção de vínculo e confiança.

    • Coerência entre discurso e prática

    A criança aprende muito mais pelo que observa do que pelo que escuta. O comportamento do adulto é uma referência constante de autorregulação.

    • Limites claros, mas possíveis de cumprir

    Promessas e ameaças sem sustentação enfraquecem a previsibilidade do ambiente, elemento essencial para a segurança emocional.

    • Reconhecimento real e específico

    Elogios genéricos têm pouco impacto. O reconhecimento verdadeiro ajuda a criança a construir consciência de suas competências.

    • Ajustes na expectativa e no contexto

    Nem sempre a mudança está na criança. Muitas vezes, está na forma como o ambiente está organizado para recebê-la.

    • Apoio quando necessário

    Reconhecer limites e buscar ajuda especializada é parte do cuidado — não um sinal de incapacidade.

    Considerações finais

    Falar sobre TDAH é falar sobre ciência, mas também sobre olhar humano. É compreender que, entre o comportamento visível e a causa invisível, existe sempre uma história em construção.

    Antes de qualquer rótulo, existe uma criança em desenvolvimento tentando, do seu jeito, se organizar no mundo.

    Se este texto contribuiu de alguma forma para a reflexão, será um prazer saber sua opinião.

    Um forte abraço.

    Obras consultadas

    BEYER, Hugo Otto. O fazer psicopedagógico: a abordagem de Reuven Feuerstein a partir de Piaget e Vygotsky. Porto Alegre: Mediação, 1996.

    FERNÁNDEZ, Alicia. Os idiomas do aprendente. Porto Alegre: Artmed, 2001.

    MATTOS, Paulo. No mundo da lua. São Paulo: Casa Leitura Médica, 2008.

    SILVA, Ana Beatriz B. Mentes inquietas. Rio de Janeiro: Napades, 2003.

    Sugestão prática

    No site, compartilho jogos que podem contribuir para o desenvolvimento da atenção, percepção, autorregulação e funções executivas de forma lúdica. Muitos são gratuitos.

    Um abraço,

    Sol

  • Diagnóstico: Dislexia. E agora?

    Diagnóstico: Dislexia. E agora?

    Para compreender a dislexia e suas manifestações, é importante, antes, entender de forma resumida como o cérebro realiza o processo de leitura e escrita.

    Como o cérebro lê e escreve palavras

    As principais áreas envolvidas na linguagem estão localizadas, em sua maioria, no hemisfério esquerdo do cérebro. Entre elas, destacam-se:

    • Área de Broca: relacionada à produção da linguagem, incluindo a organização motora da fala e da escrita.
    • Área de Wernicke: relacionada à compreensão da linguagem e à decodificação do que lemos e ouvimos.

    Essas áreas trabalham em conjunto para que a leitura e a escrita aconteçam de forma eficiente.

    As duas vias da leitura: fonológica e lexical

    O cérebro utiliza dois caminhos principais para ler e escrever palavras:

    Via fonológica

    É a via mais utilizada no início da alfabetização. Também entra em ação quando nos deparamos com palavras novas, que ainda não reconhecemos automaticamente.

    Nela, a leitura acontece por meio da correspondência entre letras e sons.

    Via lexical

    Essa via se fortalece com a experiência leitora. Aqui, o cérebro reconhece a palavra como uma “imagem armazenada”, permitindo uma leitura mais rápida e automática.

    É como se tivéssemos um “banco de palavras conhecidas” na memória.

    Leitor fluente

    Um leitor fluente utiliza as duas vias:

    • a fonológica, diante de palavras novas;
    • a lexical, diante de palavras já conhecidas.

    Um exemplo simples

    Leia a palavra abaixo:

    estearamidopropil

    Agora leia:

    primeiramente

    Se você não tem familiaridade com a primeira palavra, provavelmente a leitura foi mais lenta, pois exigiu decodificação (via fonológica). Já a segunda palavra tende a ser lida com mais fluidez, pois já faz parte do repertório lexical da maioria dos leitores.

    O que acontece na dislexia

    A dislexia é um transtorno específico da aprendizagem de origem neurobiológica, que pode impactar o funcionamento de uma ou ambas as vias de leitura (fonológica e lexical).

    Segundo Rotta et al. (2006), algumas manifestações podem incluir:

    • leitura e escrita com baixa precisão ou difícil compreensão;
    • confusões entre letras com orientação espacial semelhante (p/q, b/d);
    • confusões entre sons parecidos (b/p, d/t, g/c);
    • inversões de sílabas ou palavras;
    • substituições por palavras de estrutura semelhante;
    • omissões ou acréscimos de letras e sílabas;
    • repetições durante a leitura ou escrita;
    • segmentação incorreta de palavras;
    • dificuldade de compreensão do texto lido.

    Atenção: nem todo erro é dislexia

    É importante considerar que muitos desses comportamentos podem aparecer naturalmente no início do processo de alfabetização.

    A diferença central está na persistência das dificuldades ao longo do tempo, mesmo após oportunidades consistentes de aprendizagem.

    Em geral, a dislexia se caracteriza quando essas dificuldades permanecem além do período esperado de consolidação da leitura e escrita, podendo se estender por anos escolares.

    Diagnóstico: um processo cuidadoso

    A avaliação da dislexia é multidisciplinar e baseada na exclusão de outras causas.

    Envolve profissionais como:

    • psicopedagogo;
    • fonoaudiólogo;
    • neuropsicólogo;
    • neurologista;
    • psicólogo.

    Não existe um único teste que determine o diagnóstico. O que se faz é uma investigação ampla do desenvolvimento e do percurso de aprendizagem da criança.

    Também é considerado importante que a criança tenha passado por um período consistente de alfabetização antes da conclusão diagnóstica.

    Intervenção e caminhos possíveis

    A intervenção na dislexia deve ser estruturada, contínua e baseada em estratégias que favoreçam o desenvolvimento das habilidades envolvidas na leitura e escrita.

    Entre os principais focos de trabalho, destaca-se a estimulação da consciência fonológica, que envolve a capacidade de perceber, refletir e manipular os sons da fala. Esse é um dos pilares fundamentais para o avanço na alfabetização.

    Além disso, outras habilidades importantes podem ser trabalhadas de forma integrada, como:

    Essas intervenções podem ser realizadas de maneira sistemática, respeitando o ritmo de aprendizagem de cada criança e utilizando recursos lúdicos e significativos.

    Quanto mais precoce for a intervenção, maiores tendem a ser os ganhos no desenvolvimento.

    E depois do diagnóstico?

    A dislexia não tem “cura”, mas isso não significa ausência de possibilidades.

    Com intervenção adequada, acompanhamento contínuo e estratégias bem direcionadas, muitas dificuldades podem ser significativamente reduzidas.

    A criança (ou adulto) com dislexia não é limitada em sua capacidade intelectual. Ao contrário: muitas vezes desenvolve estratégias próprias para lidar com suas dificuldades e pode alcançar autonomia e sucesso acadêmico e profissional.

    Um olhar que vai além do diagnóstico

    Mais do que focar na dificuldade, é essencial olhar para a pessoa como um todo.

    Não se atende “um disléxico”, mas uma criança, um adolescente ou um adulto com sua história, potencialidades e formas próprias de aprender.

    Uma história que nos convida à reflexão

    Para encerrar, compartilho um trecho relatado por Ronald D. Davis, ambientado em 1949:

    O relógio na sala de aula marca o tempo lentamente: tic… tac… tic… tac…

    O menino sofre em silêncio, tentando se manter invisível, enquanto carrega o peso de não conseguir acompanhar o ritmo da sala.

    Entre medo, vergonha e incompreensão, ele apenas pede: “Por favor… que isso acabe logo.”

    No final, ele diz algo que revela muito mais do que um erro:
    “Eu pedi para Deus não me fazer sentar no canto nunca mais.”

    (DAVIS, Ronald D., O dom da dislexia)

    Quero acreditar que situações como essa não façam mais parte da realidade escolar atual. Ainda assim, sabemos que o sentimento de incapacidade pode nascer de muitas formas e nem sempre precisa de palavras duras. Às vezes, um olhar já é suficiente.

    Referências Bibliográficas

    ROTTA, N. T. et al. Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2006.

    MOOJEN, S. M. P. A escrita ortográfica na escola e na clínica: teoria, avaliação e tratamento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

    DAVIS, R. D. O dom da dislexia. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

  • Como ajudar seu filho nas tarefas escolares e estimular sua autonomia

    Como ajudar seu filho nas tarefas escolares e estimular sua autonomia

    O-lá!

    Acompanhar as tarefas escolares é uma das formas mais eficazes de apoiar a aprendizagem das crianças, principalmente nos primeiros anos de escolarização. No entanto, ajudar não significa dar as respostas ou fazer a atividade no lugar da criança.

    O papel da família é criar condições para que ela desenvolva autonomia, confiança e o hábito de estudar. Pequenas atitudes no dia a dia podem fazer uma grande diferença nesse processo.

    A seguir, compartilho algumas orientações baseadas na prática como psicopedagoga e também na experiência como mãe.

    1. Organize um ambiente adequado para os estudos

    Sempre que possível, reserve um espaço tranquilo, bem iluminado, ventilado e com poucos estímulos que possam desviar a atenção da criança.

    Sobre a mesa, deixe apenas os materiais necessários para a atividade. Um ambiente organizado favorece a concentração e reduz as distrações.

    Algumas crianças se sentem mais seguras quando têm por perto um brinquedo de que gostam muito. Se isso ajudar, faça um combinado: o brinquedo pode permanecer ali, mas o foco daquele momento deve ser a realização da tarefa.

    2. Crie uma rotina de estudos

    Ter um horário definido para estudar ajuda a transformar o estudo em hábito.

    Sempre que possível, combine esse horário com a criança. Quando ela participa dessa decisão, tende a aceitar melhor a rotina. Evite escolher justamente o momento em que ela costuma brincar ou realizar alguma atividade de que gosta muito.

    Depois de concluir as tarefas enviadas pela escola, vale a pena reservar alguns minutos para revisar conteúdos, ler um livro ou pesquisar um assunto de interesse.

    É importante que a criança compreenda que estudar não serve apenas para tirar boas notas nas provas, mas para aprender continuamente. Como consequência, quando as avaliações chegarem, ela estará muito mais preparada.

    No início, é comum que haja reclamações ou resistência. Com o tempo, porém, a rotina se torna natural e tudo costuma ficar mais fácil.

    3. Anote as dúvidas

    Nem sempre a criança compreenderá todo o conteúdo na primeira explicação, e isso faz parte do processo de aprendizagem.

    Quando surgir uma dúvida, incentive-a a pesquisar, conversar com você ou anotá-la para perguntar ao professor na aula seguinte.

    Fazer perguntas demonstra interesse em aprender, e a maioria dos professores valoriza essa postura.

    4. Ajude apenas o necessário

    Um dos erros mais comuns é tentar facilitar demais a tarefa.

    Em vez de fornecer a resposta, faça perguntas que ajudem a criança a pensar. Se ela errar um problema de matemática, por exemplo, procure entender qual foi o raciocínio utilizado antes de explicar o conteúdo novamente.

    Da mesma forma, quando a atividade for produzir um texto, permita que ela escreva com os conhecimentos que possui naquele momento. Valorize o esforço e as ideias apresentadas antes de fazer sugestões de melhoria.

    É enfrentando desafios compatíveis com seu nível de desenvolvimento que a criança amplia suas aprendizagens.

    5. Mantenha a calma nos momentos difíceis

    Nem todos os dias serão tranquilos.

    Se você perceber que está ficando irritado ou impaciente, faça uma pequena pausa. Levante, tome um copo de água e retome a atividade alguns minutos depois.

    A forma como o adulto reage diante das dificuldades ensina muito mais do que qualquer explicação. Um ambiente acolhedor favorece a aprendizagem, enquanto momentos de tensão costumam gerar insegurança e desmotivação.

    6. Flexibilidade também faz parte da rotina

    Ter uma rotina não significa que ela nunca poderá ser modificada.

    Se surgir uma oportunidade especial, como um passeio, uma visita ou um encontro com amigos, é perfeitamente possível reorganizar o horário de estudos.

    O importante é que essas situações sejam exceções. Depois, a rotina deve ser retomada normalmente.

    7. Incentive a autonomia

    À medida que a criança cresce e ganha confiança, procure diminuir sua participação nas tarefas.

    Explique que você estará disponível caso ela precise de ajuda, mas permita que tente resolver as atividades sozinha.

    Certa vez, uma mãe me perguntou:

    — Sol, por que meu filho não quer mais que eu faça as tarefas com ele?

    Respondi com outra pergunta:

    — E por que você ainda quer fazer?

    Quando a criança passa a desejar realizar suas atividades sozinha, isso geralmente é um sinal de que está desenvolvendo autonomia — exatamente um dos objetivos que buscamos.

    Ao final da rotina de estudos, aproveite para organizar junto com ela a mochila do dia seguinte. Esse pequeno hábito reduz esquecimentos e ajuda a desenvolver responsabilidade.

    Aprender também pode ser divertido

    A rotina de estudos não precisa se resumir aos deveres enviados pela escola. Jogos educativos também podem ser excelentes aliados para fortalecer habilidades importantes de forma leve e prazerosa.

    Aqui na Psicosol você encontra diversos jogos que estimulam a alfabetização, a leitura, a escrita e o raciocínio de maneira divertida.

    Espero que este conteúdo tenha sido útil para você. ❤️

    Acompanhar as tarefas escolares dos nossos filhos é muito importante para contribuir no processo de aprendizagem deles. Especialmente, nos primeiros anos. 

     

  • Autismo: Desafios e Reflexões em Meio ao Aumento de Casos

    Autismo: Desafios e Reflexões em Meio ao Aumento de Casos

    O-lá!

    Até bem pouco tempo, raramente se ouvia falar em autismo, não é mesmo? Isso porque era considerada uma disfunção muito rara. No entanto, estudos recentes divulgados em 2023 indicam um aumento significativo no número de casos, com uma ocorrência a cada 36 crianças. Surge a dúvida: será que houve um aumento real de casos, ou os estudos sobre autismo e diagnósticos mais acessíveis estão alcançando a população até então desassistida? Este é um dos pontos que vamos explorar neste texto.

    Contextualizando Estatísticas:

    As estatísticas mencionadas anteriormente provêm do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), órgão de saúde dos Estados Unidos. Vale notar que esses dados geralmente são divulgados com pelo menos três anos de atraso em relação ao período de coleta, ou seja, este estudo é de 2020.

    É importante salientar que, mesmo sem dados estatísticos específicos para a população brasileira, é viável utilizar as estatísticas do CDC como ponto de referência para compreender o que está acontecendo em nosso país.

    Explorando o Aumento de Casos:

    Alguns podem sugerir que enfrentamos uma epidemia ou que o autismo “virou moda”. No entanto, o aumento no número de casos pode ser explicado quando estudos evidenciam que o autismo sempre fez parte da nossa sociedade, mas anteriormente era erroneamente confundido com outras condições, como a esquizofrenia.

    Além disso, a escassez de informações era um fator contribuinte para a subnotificação de casos. Atualmente, pais, profissionais da saúde e educadores estão consideravelmente mais bem informados, embora seja importante ressaltar que isso não implica que as informações disponíveis sejam totalmente abrangentes.

    Complexidade Genética e Diagnóstico:

    A causa do autismo ainda não está clara. Conforme Gadia (2007, p. 426) observa: “Hoje se sabe que o autismo é um transtorno genético complexo que ainda deve ser mais esclarecido.”

    O autismo é um espectro de um distúrbio, e a avaliação é multidisciplinar. Não é possível, por exemplo, diagnosticá-lo por meio de exames laboratoriais. O primeiro profissional que pode auxiliar a família é o pediatra, ao ouvir dos pais, entre outras queixas, que o filho tem pouco contato visual, está apresentando atraso no desenvolvimento da fala, não responde quando seu nome é chamado, prefere brincar sozinho (às vezes até fica junto de outras crianças, mas não interage com elas), apresenta movimentos repetitivos, estereotipados (como balançar e girar os dedos, agitar as mãos ou a cabeça), tem reações perceptíveis a sons, luzes, toques e até texturas de roupas e alimentos (que, inclusive, pode dificultar a troca do leite pelos primeiros alimentos sólidos).

    Além disso, a criança pode apresentar rituais fixos, dificuldade em lidar com quebras de rotina e imprevistos, propensão a enfileirar objetos e um interesse persistente e intenso em um tema ou objeto específico. Esse interesse pode perdurar por períodos prolongados, variando de anos, meses a semanas, antes de ser substituído por outro tema ou objeto.

    Diversidade no Espectro Autista:

    Vale salientar que a presença de alguns desses comportamentos em uma criança não implica necessariamente autismo. Além disso, esses comportamentos não são universais em todos os indivíduos autistas e podem existir outros não mencionados. Respeitar a singularidade de cada criança autista é crucial, dada a diversidade do espectro, com comportamentos variando amplamente entre pessoas. Por exemplo, meu filho é autista, mas não exibia o comportamento de enfileirar objetos na infância. Assim, destaco a importância de uma avaliação multidisciplinar criteriosa. Diagnósticos rápidos… eu desconfiaria!

    Importância da Intervenção Precoce:

    É fundamental buscar a expertise de profissionais especializados no campo do autismo, como neuropediatras, fonoaudiólogos, neuropsicólogos e psicopedagogos, entre outros, a fim de iniciar precocemente intervenções essenciais. Ressalto a importância de selecionar profissionais que tenham dedicado tempo e esforço ao estudo específico do autismo.

    Embora alguns especialistas possam ser excelentes em suas áreas, aqueles que não se dedicam especificamente ao autismo podem enfrentar desafios no diagnóstico e na implementação de intervenções, comprometendo assim o processo essencial para o desenvolvimento pleno das crianças. Além disso, é imperativo que esses profissionais também demonstrem sensibilidade e empatia, pois essas qualidades desempenham um papel fundamental no estabelecimento de vínculo e no suporte efetivo às necessidades das crianças autistas.

    Variedade de Abordagens e Respeito à Singularidade:

    A ciência ABA tem sido amplamente divulgada como a única capaz de trazer resultados positivos, gerando opiniões divididas entre aqueles que a apoiam e os que a contestam.

    Como psicomotricista relacional, defendo que essa abordagem também é excelente e sugiro verificar se há profissionais desta área em sua cidade.

    De qualquer modo, em minha modesta opinião, é essencial investigar o histórico do profissional encarregado de atender a criança, buscando referências confiáveis. Independentemente da escolha da abordagem, é preciso adaptar a intervenção para atender às necessidades individuais de cada criança. Como ressaltado por Sacks (1997, p. 251): “O abstrato, o categórico, não é do interesse da pessoa autista – o concreto, o particular, o singular é tudo.”

    Perspectivas Positivas e Compreensão:

    É essencial refletir sobre a propensão humana em buscar falhas, mesmo quando há inúmeras possibilidades a serem descobertas. Grinker (2010, p. 296), antropólogo e pai de uma criança autista, destaca essa complexidade ao afirmar: “[…] com frequência é difícil compreendermos que o que precisamos tornar visível não é a escuridão, mas a luz.”

    Por isso, não devemos temer o diagnóstico e nem romantizar. Lidar com a verdade é, de fato, a melhor maneira de encontrar meios para enfrentar os desafios.

    No processo de avaliação do progresso, torna-se crucial evitar comparações diretas entre crianças, pois isso pode destacar apenas suas deficiências. Contudo, ao optarmos por analisar o desenvolvimento de uma criança em relação a si mesma, abrimos as portas para a descoberta de um vasto mundo de possibilidades.

    Encerro este texto com uma citação de Grinker (2010, p. 212), que, para mim, mãe atípica, carrega grande significado: “Em uma família onde o autismo está presente, as expectativas são diferentes, os acontecimentos têm significados distintos e há até mesmo um tipo de felicidade diferente.”

    REFERÊNCIAS:

    BARNETT, Kristine. Brilhante: a inspiradora história de uma mãe e seu filho autista. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

    GADIA, Carlos.  Aprendizagem e autismo. In: ROTTA, Newra Tellechea; et al. Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2006.

    GRINKER, Roy Richard. Autismo: um mundo obscuro e conturbado.  São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.

    ROBISON, John Elder. Olhe nos meus olhos: minha vida com a Síndrome de Asperger. São Paulo: Larousse, 2008.

    SACKS, Oliver. O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. 13. reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

    TENENTE, Luiza. 1 a cada 36 crianças tem autismo, diz CDC; entenda por que número de casos aumentou tanto nas últimas décadas. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2023/04/02/1-a-cada-36-criancas-tem-autismo-diz-cdc-entenda-por-que-numero-de-casos-aumentou-tanto-nas-ultimas-decadas.ghtml. Acesso em: 31/10/2023.

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    Observação: Este texto foi revisado e atualizado em maio de 2025 para refletir informações mais recentes.

  • Linguagem oral: a base para uma alfabetização de sucesso

    Linguagem oral: a base para uma alfabetização de sucesso

    O-lá!

    As primeiras palavras de uma criança costumam emocionar toda a família. Primeiro vêm os sons, depois os balbucios, até que, quase sem percebermos, ela começa a nomear pessoas, fazer perguntas, contar histórias e expressar seus sentimentos.

    A linguagem oral faz parte do desenvolvimento humano. Desde os primeiros meses de vida, a criança começa a construir sua comunicação por meio das interações com as pessoas ao seu redor. Ela observa, escuta, experimenta sons, balbucia e, pouco a pouco, atribui significado às palavras que ouve.

    Embora exista uma predisposição biológica para a aquisição da linguagem, a qualidade das experiências vividas exerce um papel fundamental nesse processo. Conversas, histórias, músicas, brincadeiras e momentos de interação enriquecem o vocabulário, favorecem a compreensão e ampliam as possibilidades de comunicação da criança.

    Esse desenvolvimento é especialmente importante porque a linguagem oral constitui uma das principais bases da alfabetização. Antes de compreender que as letras representam os sons da fala, a criança precisa desenvolver seu vocabulário, compreender o significado das palavras, construir frases e perceber as características da linguagem que utiliza diariamente.

    Diferentemente da fala, que costuma ser adquirida naturalmente nas interações sociais, a leitura e a escrita dependem de um ensino intencional e sistemático. Quanto mais rica for a experiência da criança com a linguagem oral, mais recursos ela terá para compreender e aprender a linguagem escrita.

    Como explica Piaget, a linguagem representa uma das manifestações mais elaboradas da função simbólica, permitindo que a criança organize o pensamento, represente a realidade e compartilhe suas ideias (ROTTA et al., 2006).

    Quando é importante procurar ajuda?

    Cada criança possui seu próprio ritmo de desenvolvimento, por isso pequenas diferenças entre uma e outra costumam ser esperadas.

    Entretanto, quando existe uma demora significativa para falar, dificuldades persistentes para compreender o que é dito ou para se comunicar, vale a pena buscar uma avaliação profissional. O fonoaudiólogo é o especialista indicado para investigar o desenvolvimento da linguagem oral e verificar se há necessidade de intervenção.

    Quanto mais cedo uma dificuldade é identificada, maiores costumam ser as possibilidades de favorecer o desenvolvimento da criança. Em muitos casos, o trabalho conjunto entre fonoaudiólogo, psicopedagogo, escola e família oferece um suporte ainda mais completo, especialmente quando a criança já iniciou o processo de alfabetização.

    Como a linguagem oral se desenvolve?

    Conhecer as principais etapas do desenvolvimento da linguagem ajuda pais e educadores a compreenderem o que costuma ser esperado em cada idade. É importante lembrar que esses marcos servem como referência, e pequenas variações podem acontecer sem que isso indique, necessariamente, um problema.

    0 a 3 meses

    Nessa fase, o bebê se comunica principalmente por meio do choro, de sons reflexos e de pequenas vocalizações. Também começa a reconhecer vozes familiares, especialmente a dos cuidadores, estabelecendo as primeiras bases para o desenvolvimento da linguagem.

    4 a 6 meses

    O bebê passa a prestar mais atenção aos sons da fala e começa a brincar com a própria voz. Surgem os primeiros balbucios, enquanto ele demonstra interesse quando alguém conversa com ele, respondendo com sons, expressões faciais e movimentos.

    7 a 9 meses

    Os balbucios tornam-se mais variados e repetitivos, como “bababa” e “dadada”. Também é comum que a criança utilize gestos, como apontar ou estender os braços, mostrando que já compreende que a comunicação acontece por diferentes formas, não apenas por palavras.

    10 a 12 meses

    As primeiras palavras costumam surgir nesse período, embora algumas crianças possam começar um pouco antes ou um pouco depois. Além disso, já compreendem ordens simples, reconhecem nomes de pessoas e objetos familiares e utilizam gestos para complementar sua comunicação.

    12 a 18 meses

    O vocabulário cresce rapidamente. A criança geralmente utiliza entre 10 e 50 palavras e começa a formar pequenas combinações, como “mamãe água” ou “mais pão”. Nessa fase, ela costuma compreender muito mais do que consegue expressar verbalmente.

    Por volta dos 2 anos

    O vocabulário aumenta significativamente, podendo chegar a centenas de palavras. As frases passam a ter duas ou três palavras e a criança consegue nomear pessoas, objetos e situações do cotidiano com mais facilidade.

    Por volta dos 3 anos

    As frases tornam-se mais completas e organizadas. A criança começa a utilizar elementos gramaticais, como artigos, preposições e plurais, tornando sua fala cada vez mais compreensível.

    Por volta dos 4 anos

    A fala costuma estar bastante clara para a maioria das pessoas. A criança consegue manter pequenas conversas, contar acontecimentos, fazer perguntas e expressar seus pensamentos com riqueza crescente de detalhes.

    Importante: Esses marcos representam o desenvolvimento esperado para a maioria das crianças, mas pequenas variações podem ocorrer. Se houver dúvidas sobre o desenvolvimento da linguagem oral, procure um fonoaudiólogo para uma avaliação.

    Como estimular a linguagem oral no dia a dia?

    A boa notícia é que os melhores estímulos não exigem materiais sofisticados. Eles acontecem nas situações mais simples da rotina.

    Converse bastante com a criança. Explique o que está fazendo, fale sobre o dia a dia e incentive que ela também conte suas experiências.

    Leia histórias diariamente. A leitura amplia o vocabulário, desenvolve a compreensão da linguagem e desperta a imaginação.

    Nomeie objetos, pessoas e ações. Enquanto realiza atividades do cotidiano, aproveite para falar sobre o que está acontecendo. Esses momentos enriquecem naturalmente o vocabulário da criança.

    Utilize sempre uma fala clara e correta. As crianças aprendem ouvindo bons modelos de linguagem.

    Evite corrigir os erros de forma direta. Em vez disso, repita naturalmente a frase da maneira correta. Se a criança disser: “Eu peguei o cainho azul”, você pode responder: “Você pegou o carrinho azul? Que legal!”. Assim, ela escuta o modelo correto sem sentir que está sendo repreendida.

    Faça perguntas abertas. Questões como “O que você mais gostou hoje?” ou “Como você fez isso?” incentivam respostas mais elaboradas e estimulam a organização do pensamento.

    Brinque com palavras. Cantigas, parlendas, rimas, trava-línguas, histórias e brincadeiras de faz de conta são excelentes oportunidades para ampliar a linguagem oral de forma prazerosa.

    Valorize todas as tentativas de comunicação. Quando a criança percebe que é ouvida, sente-se mais confiante para continuar falando, experimentando novas palavras e aprendendo.

    Evite que o tempo de tela substitua as conversas. Nenhuma tecnologia consegue oferecer a riqueza das interações humanas para o desenvolvimento da linguagem.

    Muito além de aprender a falar

    Desenvolver a linguagem oral é muito mais do que ensinar uma criança a falar. É ajudá-la a organizar o pensamento, compreender o mundo, construir relações, expressar sentimentos e desenvolver habilidades que, mais tarde, servirão de base para a leitura e a escrita.

    Quando uma criança conversa, escuta histórias, canta, brinca com rimas, com trava-línguas, amplia seu vocabulário e aprende a expressar suas ideias, ela está fortalecendo competências fundamentais para a alfabetização. Não por acaso, muitas dificuldades encontradas durante esse processo têm suas raízes em experiências insuficientes com a linguagem oral nos primeiros anos de vida.

    A alfabetização não começa quando a criança recebe um lápis e um caderno. Ela começa muito antes, nas conversas durante as refeições, nas histórias antes de dormir, nas músicas, nas brincadeiras e em todos os momentos em que alguém dedica tempo para conversar, ouvir e interagir com ela.

    Cada palavra compartilhada hoje ajuda a construir o leitor e o escritor de amanhã.


    Referência

    ROTTA, Newra Tellechea et al. Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2006.