Cadê o menino que estava aqui?

O-lá!

Vou contar uma pequena história. Não vou citar nomes, mas talvez você conheça alguém muito parecido com o personagem principal.

Era uma vez uma família que amava profundamente seu filho. Como tantas outras, queria oferecer a ele as melhores oportunidades para aprender e se desenvolver.

Então chegou o primeiro dia de escola.

Pouco tempo depois, veio o primeiro alerta:

— Seu filho não está aprendendo como esperado.

Preocupados, a família e a escola decidiram buscar ajuda. Vieram atendimentos, reforços, terapias, aulas extras e uma rotina cada vez mais cheia.

Pela manhã, escola.

À tarde, um atendimento.

Depois, outro.

À noite, tarefas, provas e estudos.

Quando finalmente o dia terminava, restava apenas o cansaço.

E assim os dias foram passando.

Até que alguém fez uma pergunta simples:

— E quando essa criança brinca?

Mas a resposta parecia sempre a mesma:

— Não há tempo.

Afinal, era preciso recuperar conteúdos, alcançar resultados, diminuir a diferença em relação aos colegas.

Sem perceber, todos estavam tão concentrados nas dificuldades daquela criança que quase não sobrava espaço para que ela simplesmente… fosse criança.

O tempo passou.

E, como acontece com todos nós, aquele menino cresceu.

Agora adulto, sabia dizer exatamente quais eram suas dificuldades. Afinal, durante muitos anos ouviu sobre aquilo que não conseguia fazer.

Mas, quando alguém perguntava quais eram seus talentos, seus interesses ou aquilo que fazia bem, a resposta era bem mais difícil.

Talvez porque tenha tido poucas oportunidades para descobrir.

Essa história é fictícia, mas a reflexão é muito real.

Quando uma criança apresenta dificuldades de aprendizagem, ela precisa, sim, de intervenções adequadas. Porém, também precisa continuar vivendo experiências fundamentais para o seu desenvolvimento: brincar, descansar, conviver com outras crianças, explorar, criar, imaginar e sentir prazer em aprender.

O brincar não é um prêmio que vem depois da aprendizagem. Ele faz parte da aprendizagem.

Como profissionais da educação, também temos uma responsabilidade importante. Além de orientar as famílias sobre situações de descaso, precisamos conversar quando percebemos que a criança está sobrecarregada. Em alguns momentos, pode ser mais ético reorganizar prioridades do que simplesmente acrescentar mais um atendimento à agenda.

Cada criança tem seu próprio ritmo, suas necessidades e sua história. Nosso papel é ajudá-la a aprender sem que, nesse caminho, ela perca a oportunidade de viver a infância.

Aqui no site da Psicosol você encontra diversos jogos e brincadeiras que tornam esse processo mais leve, significativo e prazeroso. Muitos deles são gratuitos, como o Dominó de Atenção, uma proposta lúdica que estimula habilidades cognitivas enquanto preserva aquilo que toda criança precisa: o prazer de brincar.

Um abraço,

Sol

Solange Moll

Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Formação em Avaliação Dinâmica do Potencial de Aprendizagem e em PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) pelo CDCP (Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná), Centro de Treinamento Autorizado pelo Hadassah Wizo-Canada Reserach Institute e pelo ICELP – The Internacional Center for the Enhancement of Learning Potential, Jerusalém – Israel. Experiência em alfabetização e dificuldades de aprendizagem. Psicomotricista Relacional. Mãe Atípica. Apaixonada por desenvolver jogos e compartilhar com vocês.

Comentários

5 respostas para “Cadê o menino que estava aqui?”

  1. Avatar de Bruna Fernanda da Silva
    Bruna Fernanda da Silva

    Enquanto professora e mãe de um lindo garotinho autista, sei bem o quanto tão reflexão é verdadeira infelizmente, pois mesmo com meus conhecimentos, e de saber a importância da brincadeira, principalmente em grupo, para contribuir com seu processo de socialização, muitas vezes o vejo sobrecarregado com a rotina da escola, e no horário de contra turno: terapia ocupacional, psicóloga, fono, AEE e por aí vai….tudo o que faço é na intenção dele se “enquadrar” no padrão da normalidade e acabo por me esquecer que existe um ser em construção ali e tudo bem não ser como os outros, ninguém nasceu para ser igual afinal.

  2. Avatar de Veronica

    Linda reflexão! Fala exatamente do corre-corre dos pais desta geração, que tentam suprir seus filhos de tudo o que não tiveram acesso(ou até tiveram, também)para serem pessoas de resultados extraordinários. Mas não percebem que o que seus filhos mais precisam é da presença deles, do brincar com eles, de ouvi-los contando uma história antes de dormir, de ter tempo para-não-fazer-nada juntos, em família. Sempre me perguntam: “Por que seus netos gostam tanto de estar com você?” Respondo: Simplesmente porque eu dedico meu tempo para estar com eles, ouvindo-os. Parabéns pelo lindo trabalho!

  3. Avatar de lia veiga silva
    lia veiga silva

    excelente reflexão já roubar…tilhei….rsrss no meu face!!acredito no potencial de cada ser mesmo que fica submisso a tanta pressão da globalização! , Nós terapeutas tbm temos que dar tempo ao nosso próprio tempo, enquanto sujeito, que vai interferir no processo de aprendizagem e as x. nos esquecemos e lotamos a terapia de atividades sem fim!! cada minuto e precisos pra resgatar a crainca’que existe em cada um de nos

  4. Avatar de Isis Sampaio Moreira
    Isis Sampaio Moreira

    Gostei muito do artigo. Dá para percebermos o quanto corremos para lançar conteúdos e esquecemos que tudo tem seu momento: de ler, de brincar (porque nós adultos precisamos também de um momento de lazer), de estudar. Esse mundo globalizado de correria que passa e não volta mais.
    Bom demais para refletir sobre nossa atitude com os nossos pequeninos e ver que todos têm alguma habilidade para mostrar. Busquemos isso!
    Obrigada sempre.
    bjs
    Isis

    1. Avatar de Solange Moll

      Que linda a sua reflexão, Isis! Obrigada por deixar seu comentário.
      Beijao

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