Olá!
É muito comum eu receber pedidos de atividades para adolescentes que ainda não estão alfabetizados. E talvez você também já tenha se perguntado: como trabalhar a alfabetização sem fazer com que o adolescente se sinta realizando atividades de criança?
Ao longo da minha experiência, percebi que esse cuidado faz muita diferença.
Para começar, precisamos compreender que, assim como a criança, o adolescente também pensa sobre a escrita, formula hipóteses e constrói conhecimentos a partir das experiências que vivencia. O que muda é que precisamos considerar sua idade, seus interesses, sua história e, principalmente, sua maneira de se relacionar com as propostas.
Por isso, muitas atividades utilizadas na alfabetização de crianças podem continuar sendo úteis, mas precisam ser adaptadas na apresentação e no contexto.
Como adaptar atividades para adolescentes
Cuide do ambiente
A primeira adaptação que faço é reduzir ou até eliminar objetos muito coloridos ou com aparência infantil do espaço. Muitos adolescentes se sentem desconfortáveis quando entram em um ambiente que percebem como “de criança”.
Isso não significa tornar o espaço sem graça. Significa apenas escolher materiais e elementos visuais que façam mais sentido para aquela faixa etária.
Adapte o alfabeto móvel
Em vez das tradicionais letras de EVA colorido, costumo apresentar fichas com letras impressas no computador.
O objetivo continua sendo o mesmo, mas a apresentação fica mais adequada ao adolescente.
Substitua a massa de modelar
A massa de modelar pode ser excelente para trabalhar a construção de letras e palavras. Para adolescentes, porém, uma alternativa que costuma funcionar melhor é utilizar argila ou uma massa de uma única cor.
A branca, por exemplo, costuma ser bem aceita.
Evite imagens infantilizadas
Nas atividades impressas, procuro utilizar imagens, fontes e elementos gráficos que não remetam ao universo infantil.
A proposta pode ser exatamente a mesma. O que muda é a forma como ela é apresentada.
Escolha leituras que despertem interesse
A leitura precisa estar relacionada aos interesses do adolescente.
Revistas, curiosidades, notícias, textos sobre esportes, música, tecnologia, animais ou outros assuntos de seu interesse podem ser excelentes pontos de partida.
A revista Mundo Estranho, por exemplo, já foi um material que funcionou muito bem com alguns adolescentes com quem trabalhei.
Jogos também podem fazer parte desse trabalho
O fato de estarmos trabalhando com um adolescente não significa que precisamos deixar os jogos de lado. Pelo contrário! Os jogos podem ser excelentes aliados no processo de aprendizagem. O importante é escolher propostas que façam sentido para a idade e evitar materiais com uma apresentação excessivamente infantilizada.
Um exemplo é o Bingolavras, um bingo de palavras no qual o aprendente precisa reconhecer a palavra correspondente à imagem sorteada e marcá-la em sua cartela.
O jogo trabalha a leitura de palavras, a atenção e o pensamento lógico, mas tem um diferencial que considero importante para esse público: as imagens são reais e não têm uma aparência infantilizada. Isso faz toda a diferença. Então se o adolescente estiver em processo de alfabetização, começando a ler palavras, este jogo pode contribuir.
Conheça o Bingolavras
Quer outro exemplo? O Bingossílabas também é um bingo, mas, neste caso, trabalha com sílabas simples e tem como objetivo estimular a consciência fonológica, com foco na consciência silábica.
Conheça o Bingossílabas.
Esses são bons exemplos de como podemos manter o objetivo pedagógico de uma atividade e, ao mesmo tempo, adequar sua apresentação ao adolescente.
Aproveitando situações do cotidiano
Aproveite o contexto de trabalho
Se o adolescente já trabalha, procure conhecer o seu cotidiano profissional.
Que tarefas ele realiza? Que materiais utiliza? Que palavras aparecem no seu trabalho?
A partir dessas informações, é possível criar situações de leitura e escrita muito mais significativas.
Trabalhe com materiais do cotidiano
Panfletos, notas fiscais, recibos, embalagens, cardápios, etiquetas e outros materiais presentes no dia a dia podem se transformar em excelentes recursos para trabalhar leitura e escrita.
Uma visita a um comércio também pode ser uma experiência muito interessante: observar placas, localizar produtos, identificar preços e tentar ler palavras presentes naquele ambiente.
Explore a cidade
Placas com nomes de bairros, ruas e cidades também podem ser utilizadas nas atividades.
Outra possibilidade é trabalhar com mapas: procurar nomes de lugares, identificar cidades e ajudá-lo a se localizar.
Até mesmo um passeio pela cidade pode se transformar em uma situação de aprendizagem.
Proponha a escrita de um diário
Escrever sobre o próprio dia, registrar acontecimentos, contar algo que aconteceu ou falar sobre aquilo de que gosta pode ser uma maneira significativa de incentivar a escrita.
Mais do que pedir simplesmente que o adolescente “escreva uma frase”, a ideia é oferecer um motivo real para escrever.
Aprendizagem além da alfabetização
Aposte em experiências
De maneira geral, propostas que envolvem experiências concretas podem ser muito interessantes.
Observar uma experiência científica, visitar um laboratório, conhecer um determinado espaço profissional ou participar de uma atividade prática pode despertar curiosidade e criar inúmeras oportunidades para conversar, ler e escrever.
E uma das minhas principais escolhas: o PEI
Por fim, talvez esta seja uma das dicas que considero mais importantes: o trabalho com o PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental).
O PEI não é um programa de alfabetização. Seu objetivo é promover experiências que estimulem o adolescente a pensar, analisar, estabelecer relações, comparar, identificar estratégias e buscar soluções para diferentes situações.
E isso pode contribuir muito para o desenvolvimento de habilidades importantes para a aprendizagem.
Mais do que adaptar atividades, precisamos adaptar o olhar
Quando trabalhamos com um adolescente que ainda não está alfabetizado, é importante não olhar apenas para aquilo que ele ainda não consegue fazer.
Precisamos considerar quem é esse adolescente, quais são seus interesses, quais experiências já possui e como podemos transformar a aprendizagem da leitura e da escrita em algo significativo para ele.
A alfabetização não precisa acontecer por meio de atividades infantilizadas.
Ela pode acontecer a partir do mundo real, dos interesses, das experiências e dos desafios que fazem parte da vida do adolescente.
Espero que, de alguma maneira, minha experiência possa contribuir com o seu trabalho.
Se você também trabalha com adolescentes que ainda não estão alfabetizados, conte nos comentários: quais atividades ou estratégias costumam funcionar por aí?
Um forte abraço!