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  • Informativo sobre epilepsia/convulsões/ataques:

    Informativo sobre epilepsia/convulsões/ataques:

    Marcelo Bastos Valbão

    A epilepsia já é conhecida desde a antiguidade e quase sempre foi cercada de mitos, preconceitos, gerando danos inumeráveis aos seus portadores. Na atualidade de modo algum se justifica tal situação, pois este problema já está muito mais esclarecido quanto a suas causas, consequências e tratamentos. A epilepsia na verdade não é uma doença, mas sim o resultado de diversas doenças diferentes que geram uma atividade exagerada em alguma região ou em todo o cérebro (descarga epiléptica, não perceptível a quem observa o paciente) e que pode ou não evoluir para a crise epiléptica (sintomas perceptíveis a quem observa o paciente ou pelo próprio).

    Para se esclarecer a respeito da epilepsia dividiremos o assunto em 3 tópicos:

    1 – Tipos de crises epilépticas (o que acontece com o paciente no momento da crise),

    2 – Causas de epilepsia (qual o problema no cérebro que levou a epilepsia),

    3 – Mitos sobre a epilepsia, 4 – Tratamento da epilepsia.

    1 – TIPOS DE CRISES EPILÉPTICAS = CONVULSÕES = ATAQUES EPILÉPTICOS:

    Existem muitos tipos de crises epilépticas e seria impossível tentar descrever todos neste espaço. Os diferentes tipos de crises são quase tão numerosos quanto às funções que o cérebro é capaz de exercer, daí a quantidade enorme de tipos de crises. Procuraremos nos deter nas mais comuns. Para se entender as crises epilépticas, lembremos que elas podem: a – iniciar em uma região localizada do cérebro (crises parciais); b – iniciar em todo o cérebro ao mesmo tempo (crises generalizadas); c – iniciar em uma região localizada e se espalhar para todo o cérebro (crises parciais com generalização secundária).

    1.a – Crise Tônico-Clônica Generalizada: Certamente o tipo de crise mais conhecido da população geral, que quase todo mundo já presenciou alguém tendo uma, mas que provavelmente não seja a mais comum, é a crise generalizada tipo tônico-clônica. Nesta crise o paciente geralmente inicia com um grito, seguido de perda de consciência com queda e movimentos dos braços e pernas esticando e encolhendo; também com salivação, respiração ruidosa, perda de urina e fezes na roupa; quando o paciente recupera a consciência normalmente fica confuso, sonolento, com dor de cabeça e náuseas; normalmente a crise dura 15 a 20 minutos.

    1.b – Crise Tipo Ausência: Outro tipo de crise que muitas pessoas já viram é a crise generalizada tipo ausência “branco”. Vale lembrar que as crises parciais às vezes podem se confundir com as crises de ausência e somente uma consulta com neurologista pode esclarecer a diferença. Na crise de ausência, que geralmente ocorre em crianças, o paciente tem uma parada súbita da atividade que estava executando, permanece poucos segundos inconsciente, imóvel, não responde a chamados e subitamente volta ao normal retornando a atividade que estava fazendo, muitas vezes sem perceber que teve uma crise; o paciente fica com fama de desatento ou que “vive no mundo da lua”.

    1.c – Crises Parciais: Outros tipos de crises, que são extremamente comuns, mas que nem sempre são reconhecidos pela população geral como formas de epilepsia são as crises parciais. Lembremos que as crises parciais se iniciam em uma região localizada do cérebro e, portanto suas manifestações serão dependentes da área afetada; por exemplo:

    a – se a crise inicia na área da visão – o paciente terá visão de luzes, manchas coloridas;

    b – se a crise inicia na área de controle de movimentos – o paciente terá crises de movimentos de metade do corpo contra a sua vontade;

    c – se a crise inicia na área da sensibilidade (tato, calor, dor) – o paciente terá crises de sensações estranhas, formigamentos, dores, em metade do corpo.

    Nestes 3 tipos de crises parciais descritos acima geralmente o paciente fica acordado e percebe toda a crise sem poder fazer nada ,ele “assiste a crise” (são chamadas de crises parciais simples), apenas esperando ela parar.

    d – crises parciais complexas – Em outros tipos de crises parciais, apesar da crise iniciar em uma região localizada do cérebro os pacientes perdem a consciência e não sabem o que ocorre durante a crise (são chamadas de crises parciais complexas); estas geralmente são as crises que mais demoram a ter diagnóstico, pois os pacientes demoram a reconhecer a crise como sinal de doença, não valorizam os sintomas, acham que seja algo psicológico, nervosismo, depressão, “estresse” e vão deixando o problema de lado até terem alguma conseqüência mais séria ou a freqüência das crises aumentarem muito. Sintomas comuns das crises parciais complexas são a execução de atos automáticos como mastigação, engolir, segurar e soltar objetos, sair andando sem direção, ficar parado com olhar fixo sem responder a chamados ou falando coisas sem sentido. Às vezes as crises podem ter sintomas extremamente semelhantes às atividades normais do paciente; ele continua agindo normalmente durante a crise e ninguém ao redor percebe a crise; quando o paciente volta ao normal não se lembra de nada o que ocorreu durante o período da crise, só para se ter uma idéia, os pacientes podem dirigir veículos, operar máquinas, tomar condução errada, comprar coisas, sair andando por longas distâncias; quando o paciente volta ao normal fica perplexo com a situação em que está envolvido, não conseguindo ter nenhuma explicação para ela.

    image2 – CAUSAS DE EPILEPSIA:

    Para um problema qualquer no cérebro gerar a epilepsia ele deve provocar a formação do chamado foco epiléptico, que é o local do cérebro onde a crise inicia, é o local onde ocorre a atividade exagerada e descontrolada do cérebro. Também neste ponto a variedade de causas é enorme, só para citar as mais comuns:

    2.a – crises hereditárias – transmitidas pelos genes, quando há história de epilepsia na família;

    2.b – traumatismo de crânio – pacientes que sofreram traumas na cabeça, em acidente de trânsito por exemplo;

    2.c – tumores dentro do crânio – a presença de massas crescendo dentro do crânio comprime o cérebro e gera o foco epiléptico;

    2.d – infecções – após meningites, abscessos cerebrais e em nossos dias não se esquecer da AIDS que pode causar epilepsia de diversas formas (meningite, toxoplasmose, ação direta do vírus);

    2.e – parasitas – entre as causas mais comuns de epilepsia em nosso meio, devido à falta de saneamento e ao desconhecimento da população está a cisticercose; o cisticerco é a larva da solitária (Taenia solium) que normalmente vive na fase adulta no intestino do homem, em sua fase larvária pode viver em diversas partes do nosso corpo inclusive o cérebro gerando um foco epiléptico. A solitária (Taenia) é transmitida através da ingestão de carne de porco (Taenia solium) ou boi (Taenia saginata) mal cozidas, a carne infectada possui nódulos esbranquiçados popularmente chamados de “canjica”, às vezes as pessoas conhecem os nódulos, mas não sabem o seu significado e acham a carne que tem o problema mais saborosa! E macia! Um verdadeiro problema de saúde pública. A cisticercose é transmitida quando o ser humano ingere vegetais contaminados com fezes de pessoas que tem a solitária (Taenia solium) adulta no intestino. A epilepsia não é a única conseqüência da cisticercose pode causar também outros problemas mais sérios levando a morte.

    2.f – Anóxia peri-natal – é a falta de oxigênio no cérebro por sofrimento fetal durante ou próximo ao momento do parto, parto demorado, eclampsia, descolamento de placenta.

    3 – MITOS SOBRE A EPILEPSIA:

    Diversos mitos tem causado sofrimento desnecessário aos portadores de epilepsia, vamos tentar desfazê-los:

    3.a – a epilepsia é um sinal de loucura – não é verdade;

    3.b – a epilepsia é transmitida pela saliva – não é verdade;

    3.c – a epilepsia é causada por nervosismo e/ou depressão – não é verdade; o nervosismo pode agravar a epilepsia, mas certamente não é sua causa;

    3.d – a epilepsia é sinal de possessão ou envolvimento por demônios, bruxarias – não é verdade.

    3.e – o epiléptico não pode fazer nada sozinho pelo risco de ter uma crise – não é verdade; não só pode como deve ter uma vida o mais normal possível; para se saber o que o epiléptico pode ou não fazer a regra é muito simples, basta perguntar: Se uma crise ocorrer na situação em que estou envolvido, causarei em mim ou em outro algum ferimento grave ? Se a resposta for sim, não deve fazê-lo.

    Exemplos de situações que o epiléptico deve evitar: natação em locais profundos com ou sem companhia; já, nadar em local de fácil acesso como piscinas com pessoas acompanhando e que sabem da epilepsia é razoavelmente seguro; praticar esportes radicais como surf, alpinismo, salto de asa delta, paraquedismo, mergulho profundo; profissões perigosas ou que exijam atenção de 100%, como dirigir, operar máquinas, mergulho profundo, pilotar veículos aéreos. Se analisarmos, as atividades que devem ser evitadas são as que a maioria das pessoas normalmente não executam.

    3.f – O epiléptico tem menor inteligência que o normal – A inteligência pode ser afetada dependendo da doença causadora da epilepsia, mas isto nem sempre é verdade, a maioria dos epilépticos pode ter rendimento intelectual normal ou até mesmo superior à média da população.

    4 – TRATAMENTO DA EPILEPSIA

    A principal arma que os neurologistas utilizam para tratar a epilepsia são os medicamentos. Hoje em dia, graças ao avanço na indústria farmacêutica, já foram desenvolvidos diversos medicamentos, razoavelmente seguros e efetivos, no controle das crises epilépticas. Salientamos que, as medicações não tratam a causa da epilepsia, mas sim as crises epilépticas, reduzindo a chance de elas ocorrerem; logo se o paciente parar a medicação, as crises tendem a agravar-se novamente. Em alguns casos mais graves existe a possibilidade do tratamento por cirurgia, feita em centros especializados em cirurgia de epilepsia. Somente um médico pode chegar ao diagnóstico e tratamento seguros da epilepsia, nunca se automedique, nem altere as doses da medicação por conta própria. Caso você tenha crises semelhantes ou alguma dúvida sobre o assunto não hesite em consultar um neurologista.

    image5 – O QUE FAZER QUANDO PRESENCIAR ALGUÉM SOFRENDO UMA CONVULSÃO:

    5.a – Se for crise parcial simples ou parcial complexa apenas manter-se calmo, proteger a pessoa para evitar ferimentos.

    5.b – Se for crise generalizada (desmaio com queda ao solo): manter a pessoa deitada de lado, não tentar levantar a pessoa até que restabeleça completamente a consciência, não é necessário fazer respiração boca-a-boca se a crise tiver duração curta (menor que 45 min.), nunca introduzir a mão ou qualquer objeto na boca da pessoa.

    5.c – Em qualquer um dos casos anteriores deve-se se acionar serviço de emergência se: 1 – houver algum ferimento mais grave como cortes profundos, queimaduras, choque elétrico, contusões com formação de hematomas; 2 – a crise durar mais de 45 min. (estado de mal- epiléptico); 3 – ocorrerem crises seguidas, mesmo que de curta duração, mas que no intervalo entre as crises a pessoa não volta totalmente ao normal (crises subentrantes).

    MARCELO BASTOS VALBÃO

    CRM-SC 7494, RTE 4114, RTAA 5346.

    Neurologista e Eletroneuromiografista

    Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica

    Membro da Sociedade Brasileira para Estudos da Dor

     

  • Gagueira não tem graça, tem tratamento!

    Gagueira não tem graça, tem tratamento!

    GAGUEIRA NÃO TEM GRAÇA, TEM TRATAMENTO

    Márcia Celine Rocha de Luca

    O que é a Gagueira?  É um distúrbio de comunicação caracterizado pela interrupção no fluxo normal da fala, repetições, prolongamentos e paradas repentinas de sons e sílabas, trava (freezing) a fala.  Muitas vezes vêm acompanhado de movimentos compesatórios facial e ou corporais, os chamados cacoetes, como piscar os olhos rapidamente, fechá-los com força, balançar pernas e braços, inclinar a cabeça, entre outros.

    Quantos gagos existem? A gagueira atinge 1% da população mundial, sendo os homens os principais afetados. Para cada quatro homens gagos, há uma mulher com o distúrbio.
    Segundo a Associação Brasileira de Gagueira, cerca de 1 milhão e 600 mil pessoas  apresentam a gagueira no Brasil, entre adultos, jovens e crianças. Nos Estados Unidos são 3 milhões de pessoas e  aproximadamente 60 milhões de gagos em todo o mundo.

    Há tratamento para a gagueira? Há sim, quanto mais cedo, melhor o prognóstico. O profissional habilitado para esse tratamento é o fonoaudiólogo, podendo contar com o auxílio de psicólogos, psiquiatras e neurologistas dependendo do quadro clínico.

    Na Fonoaudiologia existem, basicamente duas possibilidades de tratamento: uma visa o disfarce da gagueira, oferecendo técnicas onde o sujeito poderá apresentar uma fala mais fluente, por exemplo, cantando, que utiliza diferentes mecanismos cerebrais, diferentes áreas no cérebro. Estas ocorrências indicam que a gagueira não é resultado de alguma dificuldade motora geral para a fala, mas de um mecanismo específico, logo somente exercícios orgânicos não serão eficazes.

    Enquanto a teoria neurofisiológica, uma nova e atual linha visa a estimulação neurológica e a melhora da auto estima do maufalante fazendo com que o cérebro “descubra” um novo caminho para falar bem.  É como ensinar uma nova língua. Desta forma a teoria neurofisiológica da gagueira não implica deixar as emoções de lado. As emoções ocupam um lugar importante na comunicação, por isso, em alguns casos, há a necessidade de associar o tratamento fonoaudiológico com o psicológico. O problema central na gagueira está na dificuldade do cérebro em processar a informação e sinalizar o término de um som ou uma sílaba e passar para próximo. Até que o cérebro processe esta informação, a língua “trava” e não consegue executar o movimento necessário. Essa ação muscular causa um grande desconforto tanto em adultos como em crianças. A gagueira é involuntária, ou seja, a pessoa que gagueja não tem controle sobre a sua articulação e não consegue evitar a ocorrência da gagueira sem que haja um tratamento adequado. Além dos sinais orgânicos, a gagueira também está associada com um grande sofrimento interno, porque a pessoa tem o que falar, sabe o que falar, mas não consegue. Desta forma, geralmente ocorre uma forte reação emocional à gagueira, porque ela interfere na comunicação e nos desempenhos escolar e profissional.  A pessoa que está escutando também fica angustiada diante da dificuldade do falante e acaba por completar as palavras, isso gera um grande desconforto para ambos, o falante se sente incapaz de se expressar, o que não é verdade!

    Quando inicia a gagueira? Na infância geralmente. É a chamada gagueira de desenvolvimento. Porém, é comum observarmos crianças na fase de desenvolvimento inicial de linguagem com pequenas disfluências que fazem parte deste processo, sendo normal isso acontecer. A gagueira em crianças com idade entre 2 e 3 anos (fase inicial do desenvolvimento de linguagem)  é considerada normal, pois o cérebro ainda não tem arquivo de palavras suficientes para se expressar, porém, na dúvida e diante da angústia das crianças em se expressar vale a pena a opinião de um profissional.

    Isso acontece porque a criança quer se expressar, mas ainda não tem o vocabulário necessário para a conclusão da ideia. Essa fase deve desaparecer até 4 ou 5 anos de idade. Caso a gagueira persista a chance de termos um adulto gago é grande. Tem o exemplo do atual filme “O discurso do Rei” .

    Quando se preocupar? Quando houver histórico familiar de adultos gagos na família. Quando perceber que a criança está se isolando dos amiguinhos e que isso está a deixando constrangida. Na dúvida procure um fonoaudiólogo para diagnosticar se trata-se de uma fase normal ou patológica.

    A gagueira é considerada um distúrbio da fluência da fala estando codificada no Código Internacional de Doenças (CID), portanto passível de tratamento. Há tantos casos que foi instituído o dia Nacional de Atenção à Gagueira – 22 de outubro.

    Quais as causas da gagueira? Ainda não temos a causa totalmente desvendada e é múltipla e complexa na sua natureza. Os achados de pesquisas mais recentes têm mostrado o envolvimento dos sistemas neuromotor e neurofisiológico na produção de uma fala gaguejada. Atualmente, poucos especialistas concordam com a ideia de uma causa totalmente psicológica, embora stress, frustrações, vergonhas, sentimento de inadequação, entre outros, colaborem para aumentar ou manter a gagueira, mas não sendo absolutamente a única causa desta patologia.

    Márcia Celine Rocha de Luca
    Fonoaudióloga – CRFA- 6739
    Especialista em Voz
    Especialista em Liderança
  • Transtorno de Tique, Transtorno de Tourette

    Transtorno de Tique, Transtorno de Tourette

    Olá! Abrimos este espaço para autores convidados. Não iremos interferir na liberdade de expressão dos mesmos. Portanto, esperamos que os autores fiquem à vontade para expor suas ideias sobre educação, mesmo se estas não representarem a nossa opinião.

    Muito Obrigada!

    Solange Moll

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    TRANSTORNO DE TIQUE

    Cristina Maria Pozzi

    Os tiques são movimentos bruscos, breves, involuntários, rápidos, repetitivos, arrítmicos, irresistíveis, inapropriados e despropositados ou vocalizações com as mesmas características. Podem ser simples (envolvendo apenas alguns músculos ou sons simples) ou complexos (envolvendo múltiplos grupos musculares ou palavras e frases em salvas).

    Alguns exemplos de tiques motores simples incluem piscar os olhos, torcer o nariz, caretear, franzir a testa, encolher os ombros, contrair o pescoço. Estes tiques geralmente duram uma fração de segundos. Os tiques motores complexos incluem verdadeiros trancos ou saltos, atos gestuais como coçar determinada parte do corpo, imitação repetitiva de um movimento (ecopraxia), realizar gestos obscenos (copropraxia), cheirar repetidamente um objeto, refazer os próprios passos, rodopiar, assumir e manter posturas incomuns. Estes tiques são mais prolongados, com duração de segundos ou mais.

    Os tiques vocais simples são sons sem sentido tais como pigarrear, grunhir, fungar, bufar, tossir, murmurar ou piar. Tiques vocais complexos envolvem mais claramente a fala e a linguagem e incluem a emissão súbita e espontânea de palavras ou expressões isoladas, bloqueio da fala, mudanças súbitas e sem sentido no tom, repetição das próprias palavras ou sons (palilalia) ou repetição da última palavra ou expressão ouvida (ecolalia) ou ainda, emissão súbita e inadequada de palavras ou expressões inaceitáveis, que inclui obscenidades ou insultos (coprolalia).

    Sua intensidade e frequência variam no mesmo indivíduo e podem ser parcialmente controlados, por um período de tempo, por ação da vontade. Desaparecem no sono, aumentam com a tensão e diminuem com a atenção, em tarefas que exigem concentração. Algumas crianças (e até adultos) não se dão conta de seus tiques. Entretanto, muitas pessoas com tiques experimentam uma sensação premonitória – um aumento de tensão em alguma parte do corpo que precede o tique motor ou vocal e uma sensação de alívio ou redução da tensão após a expressão do tique. O indivíduo pode sentir a necessidade de realizar um tique complexo de uma forma específica ou repetida até obter a sensação de que o tique “saiu certo”, somente então experimentando uma redução da ansiedade ou tensão.

    Quanto ao tempo de duração e às próprias características clínicas, os tiques são divididos em dois grandes grupos, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de TranstornosMentais (DSM-IV) (Associação Americana de Psiquiatria,2002): Transtorno de Tique Transitório e Transtorno de Tique Motor ou Vocal Crônico.

    O tique transitório é a forma mais comum de movimento involuntário anormal na criança. Inicia-se por volta dos cinco aos sete anos e é três vezes mais comum em meninos. Interessa apenas um ou dois grupos musculares funcionalmente relacionados, como músculos faciais, do pescoço ou ombros e manifestam-se geralmente por piscamento, careteamento, movimentos de língua como lamber os lábios, lateralização da cabeça ou movimentos da cabeça para trás. Pode haver vocalização, mas não acompanhada de tiques motores. A duração é de no mínimo quatro semanas, porém não superior a doze meses. Os pais devem ser advertidos da benignidade do processo e não devem chamar a atenção da criança para os tiques ou admoestá-la.

    Tiques crônicos são únicos ou múltiplos, motores ou vocais, mas não associados. Duram além de um ano sem que tenha havido um período livre de tiques maior que três meses consecutivos.

    TRANSTORNO DE TOURETTE (ou Síndrome de Tourette)

    ​As características essenciais deste transtorno consistem em tiques motores múltiplos e crônicos e no mínimo um tique vocal, embora não obrigatoriamente concomitantes, que perduram por mais de um ano, sem que tenha havido um período livre de tiques maior que três meses consecutivos. O início se dá antes dos 18 anos de idade, por volta dos seis ou sete anos. Os tiques ocorrem muitas vezes por dia, de forma recorrente, são, geralmente, exuberantes e chamam a atenção do observador. Muitos dos tiques descritos acima estão presentes em associação ou se alternam no mesmo paciente.Classicamente, há períodos de melhora alternados com piora. As vocalizações são freqüentes e a coprolalia (falar palavras obscenas) está presente em alguns indivíduos, mas não é requisito para diagnóstico de Transtorno de Tourette.

    ​Há um fator genético implicado, com histórico familiar positivo para o transtorno em 30 a 50% dos casos, e predomina no sexo masculino, na proporção de três a quatromeninos para uma menina.

    ​Os sintomas mais comumente associados ao Transtorno de Tourette são obsessões e compulsões. Hiperatividade, distração e impulsividade também são relativamente comuns. Desconforto social com a sensação de estar sendo observado pelos outros, vergonha, desmoralização e tristeza frequentemente ocorrem.

    Uma alta porcentagem de crianças, adolescentes e adultos com o Transtorno não busca atenção médica para seus tiques e sofrem com o estigma. O funcionamento social, acadêmico ou ocupacional pode estar prejudicado, em vista da rejeição pelos outros ou ansiedade quanto a apresentar os tiques em situações sociais. A severidade dos tiques pode ser exacerbada pela administração de estimulantes do sistema nervoso central, tais como aqueles utilizados no tratamento do Transtorno do déficit de Atenção e Hiperatividade.

    A avaliação médica especializada está indicada assim como tratamento farmacológico e psicoterápico. Em alguns casos há remissão espontânea e em outros os sintomas podem se atenuar na adolescência e idade adulta.

    Cristina Maria Pozzi.

    Médica Neuropediatra. Mestrado em Pediatria pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Doutoranda em Psicologia Clínica e Pesquisadora do Laboratório de Distúrbios do Desenvolvimento, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. cristinapozzi@ig.com.br

  • Nomenclatura diagnóstica: conceitos e confusões

    Nomenclatura diagnóstica: conceitos e confusões

    Olá! Abrimos este espaço para autores convidados. Não iremos interferir na liberdade de expressão dos mesmos. Portanto, esperamos que os autores sintam-se acolhidos e à vontade para expor suas ideias sobre educação, mesmo se estas não representarem a nossa opinião.

    Muito Obrigada!

    Solange Moll Passos

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    NOMENCLATURA DIAGNÓSTICA: CONCEITOS E CONFUSÕES

    Cristina Maria Pozzi

    Sempre digo que a medicina aumentou consideravelmente o meu vocabulário. Em poucos anos, milhares de palavras foram significadas, aprendidas e passaram a fazer parte do discurso diário. Mas, para que tantos nomes, siglas e especificações? Para que se possa falar a mesma língua de maneira universal, p. ex. síndrome de Down é uma trissomia do cromossomo 21, reconhecida aqui, na China ou qualquer lugar do planeta e confere ao portador uma série de características peculiares no fenótipo (aparência física) bem como, pode envolver diversos órgãos e sistemas (cardiopatia, alterações tireoidianas, ortopédicas, oftalmológicas, entre outras). Outro exemplo, o Transtorno Global do Desenvolvimento – Autismo Infantil exibe as mesmas características clínicas ao acometer o indivíduo de um grande centro urbano ou o indivíduo que vive numa comunidade rural, guardadas as diferenças ambientais. E para tornar isso possível, foram organizadas classificações que são de referência mundial: a Classificação Internacional de Doenças, a CID que está em sua 10ª revisão, elaborada pela Organização Mundial da Saúde, e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o famoso DSM, com a 5ª edição prevista para maio deste ano, elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria. Ambas facilmente acessadas nas fantásticas páginas de busca na internet.

    A CID-10 engloba todas as doenças, desde infecciosas e parasitárias, doenças do sangue, endócrinas, cardíacas, mentais e comportamentais, do sistema nervoso, respiratório e por aí afora. São categorizadas em letras e números, como p. ex. Q90 para Síndrome de Down e F84 para Transtorno Global do Desenvolvimento. Este é o tal CID exigido nos atestados, laudos, relatórios com a finalidade de se obter os direitos. Já o DSM engloba os Transtornos Mentais, que vão desde Retardo Mental, Transtornos de Aprendizagem, geralmente diagnosticados pela primeira vez na infância ou adolescência, até Transtornos relacionados a Uso de Substâncias, Transtornos de Ansiedade, do Humor, entre outros. São identificados por números, p. ex. 299 para Transtorno Global do Desenvolvimento ou 314 para Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.

    E é com base nestas classificações que se define o diagnóstico, muitas vezes, e, sobretudo na área de saúde mental, dependente exclusivamente de critérios clínicos, descritos ao longo de cada capítulo. Desta forma, é possível utilizar a mesma nomenclatura em uma ampla gama de contextos, seja na clínica, na pesquisa, na reabilitação, entre outros, em qualquer lugar do mundo. Mas há algumas situações nas quais esta terminologia difere e aí podem surgir dúvidas e confusões…

    Continuando no exemplo do Transtorno Global do Desenvolvimento, a tabela abaixo mostra as correspondências entre os subtipos deste transtorno listados no DSM-IV e na CID-10.

    Clique na imagem para visualizar melhor.

    Como se pode perceber, os termos transtorno e síndrome têm correspondência e definem o mesmo quadro, ambos podem ser utilizados de acordo com a classificação preferida, onde são descritos os critérios clínicos necessários para o diagnóstico.

    Outro exemplo interessante é relativo aos Transtornos da Aprendizagem, segundo DSM-IV ou Transtornos Específicos das Habilidades Escolares, segundo a CID-10. Primeiramente, é preciso compreender que, por definição, um Transtorno de Aprendizagem consiste em um rendimento nas modalidades habituais de aprendizado substancialmente abaixo do esperado para idade, escolarização e nível de inteligência e não é devido à falta de oportunidade de aprendizagem ou doença neurológica, outra condição médica geral ou déficit sensorial. Isso implica, em condições adequadas de educação familiar e escolar (aspecto complexo!), normalidade das funções visual, auditiva e saúde sistêmica e ausência de retardo mental observado através de testes padronizados administrados individualmente (aplicados única e exclusivamente por psicólogos).

    Os Transtornos de Aprendizagem devem ser diferenciados das variações normais do rendimento escolar e das dificuldades escolares devido à falta de oportunidades, ao ensino deficiente ou a fatores culturais. Assim, torna-se fundamental diferenciar o que é Transtorno (ou Distúrbio) de Aprendizagem do que é Dificuldade Escolar. O primeiro envolve uma disfunção neurobiológica relacionada a uma falha no processo de aquisição ou do desenvolvimento destas habilidades, tendo, portanto, caráter funcionalDiferentemente, a Dificuldade Escolar está relacionada especificamente a um problema de ordem e origem pedagógica ou ambiental.

    Sabidamente, as cifras de Dificuldade Escolar neste país são assustadoras, com cerca de 30 a 40% da população que freqüenta as primeiras séries apresentando algum grau de dificuldadeJá os Transtornos de Aprendizagem giram em torno de 3 a 5% da população com dificuldade acadêmica.

    Os Transtornos de Aprendizagem são subdivididos de acordo com a habilidade escolar alterada e incluem o Transtorno da Leitura, Transtorno da Matemática, Transtorno da Expressão Escrita e o Transtorno da Aprendizagem Sem Outra Especificação, segundo o DSM-IVO diagnóstico envolve uma avaliação multidisciplinar (médico pediatra, neurologista ou psiquiatra infantil, fonoaudiólogo, psicólogo, no mínimo) com a finalidade de testar as diversas funções e habilidades desta criança. Exames como eletroencefalograma ou tomografia de crânio não são indicados sistematicamente, salvo raras exceções, pois resultarão normais. O imprescindível é checar função visual, auditiva, tireoidiana, afastar anemia, epilepsia, avaliar habilidades fonológicas, funções executivas (atenção, memória, raciocínio, linguagem, etc.), exame neurológico e psíquico, além de analisar todo o histórico pessoal, o contexto familiar e escolar. O uso de medicamento nestes casos também não se indica, a menos que sejam diagnosticadas comorbidades. O tratamento é treino, treino e mais treino das habilidades disfuncionais, respeitando os limites da criança, incentivando-a e valorizando suas iniciativas. Criar uma rede de profissionais envolvidos entre terapeutas, escola e família e trabalhar em conjunto, sempre.

     

    “Se uma criança não pode aprender da maneira como é ensinada, é melhor ensiná-la da maneira que ela pode aprender” (Welchmann)

     

    Cristina Maria Pozzi

    Médica Neuropediatra, Mestrado em Pediatria pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Doutoranda em Psicologia Clínica e Pesquisadora do Laboratório de Distúrbios do Desenvolvimento no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo IPUSP – SP.

  • Orientações para o trabalho com o disléxico na escola

    Orientações para o trabalho com o disléxico na escola

    Olá! Abrimos este espaço para autores convidados. Não iremos interferir na liberdade de expressão. Portanto, esperamos que os autores sintam-se acolhidos e à vontade para expor suas ideias sobre educação, mesmo se estas não representarem a nossa opinião.

    Muito Obrigada!

    Solange Moll Passos

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    ORIENTAÇÕES PARA O TRABALHO COM O DISLÉXICO NA ESCOLA

    Sônia Moojen

    Antes da análise das acomodações necessárias ao disléxico na escola, é fundamental um esclarecimento sobre as características fundamentais da Dislexia Evolutiva ou Transtorno Severo da Aprendizagem da Leitura e Escrita.

    A dislexia

    • é um problema no processamento fonológico que afeta a leitura e a escrita, na ausência de problemas cognitivos (nível intelectual);
    • é um transtorno específico nas operações implicadas no reconhecimento das palavras que compromete,  em maior ou menor grau,  a compreensão da leitura. Os disléxicos são mais lentos para ler palavras e pseudopalavras, beneficiando-se mais do contexto ao ler. Eles não automatizam plenamente as operações relacionadas ao reconhecimento de palavras, empregando mais tempo e energia em tarefas de leitura. A escrita ortográfica e a produção textual também estão comprometidas;
    • afeta a  um subconjunto, claramente minoritário, dos alunos com problemas  na aprendizagem da leitura e escrita. Talvez não mais que 3% da população escolar;
    • representa  o extremo de um contínuo com a população normal. Os disléxicos não  diferem qualitativamente dos sujeitos normo-leitores. Há uma continuidade entre ambos os grupos, sendo a dislexia mais adequadamente comparada com a obesidade (onde há graus)  do que com o  sarampo – que é algo que uma pessoa tem ou não – (Ellis, 1984);
    • possui uma moderada evidência de origem genética (Rack e Olson, 1993).Os dados proporcionados pelo Projeto Colorado, onde foi estudada a incidência de problemas de leitura em gêmeos monozigóticos (de igual dotação genética) e gêmeos dizigóticos (que somente compartem parte da herança genética) parecem justificar a existência de uma moderada influência genética nas habilidades implicadas no reconhecimento de palavras. Entretanto, em alguns casos de dislexia evolutiva, não existe evidência alguma de antecedentes familiares que possam sugerir uma influência genética;
    • tem um prognóstico reservado, constituindo-se em um problema persistente. O aluno disléxico que, evidenciando alto grau de adaptação escolar, consegue entrar na Universidade, apresenta  dificuldades importantes na leitura de palavras não-familiares e, particularmente,  muita dificuldade na escrita;
    • requer um tratamento que envolve um processo lento, laborioso e sujeito a recaídas, conforme sugerem os dados de estudos longitudinais de sujeitos reabilitados (Rueda e Sanchez, 1994);
    • requer uma equipe multidisciplinar para seu diagnóstico e tratamento.

     

    Os disléxicos

    • possuem capacidade intelectual normal (acima de 85 na escala WISC);
    • tiveram escolarização adequada, ou seja, não trocaram de escola (língua materna) mais de 2 vezes nos três primeiros anos escolares e não faltaram mais de 10% de aulas nesta época;
    • devem ter visão e audição normal ou corrigida;
    • possuem um nível de adaptação psicossocial  normal (Vellutino,1979; Siegel, 1993);
    • não são portadores de problemas psíquicos ou neurológicos graves;
    • estão atrasados na leitura  e escrita, com relação a seus pares, com no mínimo dois  anos, (se a criança tem mais de 10 anos) e um ano e meio (se tem menos desta idade).

    Portanto, até o final de 2ª série não se pode fazer diagnóstico de dislexia. O problema tem que ser persistente, apesar de tratamento adequado.

     

    ORIENTAÇÃO À ESCOLA

    É imprescindível que todo disléxico receba um tratamento específico. Mas é crucial que, ao mesmo tempo, se atenda em aula seu problema. A seguir, serão recomendadas uma série de normas que deverão ser individualizadas para cada caso, com o objetivo de otimizar o seu rendimento e, ao mesmo tempo, tentar evitar problemas de frustração e perda de autoestima, muito frequentes nos disléxicos.

    1) Atitudes:

    • Dar a entender ao disléxico que seu problema é conhecido e que será feito o possível para ajudá-lo. Deve estar muito claro para o professor que o problema não é devido à falta de motivação ou à preguiça.
    • Dar-lhe uma atenção especial e animar-lhe a perguntar em caso de alguma dúvida. Para tanto seria recomendável que o disléxico sentasse perto do professor para facilitar a ajuda.
    • Comprovar sempre que o material oferecido para ler é apropriado para o seu nível leitor, não pretendendo que alcance um nível leitor igual aos dos outros colegas.
    • Destacar sempre os aspectos positivos em seus trabalhos e não fazê-lo repetir um trabalho escrito pelo fato de tê-lo feito mal.
    • Evitar que tenha que ler em público. Em situações em que isto é absolutamente necessário, oportunizar que ele prepare a leitura em casa.
    • Aceitar que se distraia com maior facilidade que os demais, posto que a leitura lhe exige um grande esforço.
    • Nunca ridicularizá-lo ou permitir que colegas o façam.

     

    2) Proposta de ação pedagógica:

    • Ensinar a resumir anotações que sintetizem o conteúdo de uma explicação
    • Permitir o uso de meios informáticos, de corretores e de gravações.
    • Permitir o uso de calculadora já que muitos disléxicos  têm dificuldade para memorizar a tabuada. Ele necessita de mais tempo para fazer os cálculos já que não automatizou a tabuada.
    • Usar materiais que permitem visualizações (figuras, gráficos, ilustrações) para acompanhar o texto impresso.
    • Evitar, sempre que possível, a cópia de grandes textos do quadro de giz, dando-lhes uma fotocópia.
    • Diminuir os deveres de casa, envolvendo leitura e escrita.

     

    3) Aprendizagem de línguas estrangeiras:

    Considerando o esforço que os disléxicos fazem para dominar a fonologia de sua língua materna, é difícil também que eles dominem uma nova língua. Podem até ter habilidade para aprender oralmente a língua, mas o domínio da escrita é particularmente difícil. Schawytz (2006) sugere que, em caso de muita dificuldade, seja requerida isenção de língua estrangeira, substituindo essa disciplina pela elaboração de projetos independentes sobre conhecimentos relativos à cultura do país em que falam esta língua.

     

    4) Avaliação escolar 

    • Realizar avaliações de forma oral, sempre que possível, – conduta válida em todos os níveis de ensino, particularmente no ensino superior.
    • Prever tempo extra como recurso obrigatório, não opcional, pois a capacidade de aprender do disléxico está intacta e ele simplesmente precisa de tempo para acessá-la.  Como o disléxico não automatizou a leitura, terá que ler pausadamente, com muito esforço e se apoiar nas suas habilidades mais altas de pensamento. Ele precisa utilizar o contexto para entender o significado da palavra, um caminho mais longo e indireto que requer tempo extra.
    • Evitar a utilização de testes de múltipla escolha que, pelo fato de descontextualizarem as informações e reduzirem o tempo de execução, tornam-se muito difíceis para o disléxico. Estes testes não são indicadores do conhecimento adquirido por ele.
    • As instruções  devem ser dadas de forma breve já que a memória para mantê-las é fraca e o tempo de atenção reduzido. Instruções curtas evitam confusões.
    • Valorizar sempre os trabalhos pelo seu conteúdo e não pelos erros de escrita. Infelizmente não adianta o professor apontar o erro, pois o disléxico não grava a grafia correta.
    • Oportunizar um local tranquilo ou sala individual para fazer testes ou avaliações para que o disléxico possa focar a sua atenção na tarefa que tem para realizar. Qualquer barulho ou distração atrapalhará a leitura, fazendo com que ele mude a atenção da leitura, o que interfere na performance do teste.
    • É indicado o uso de calculadora, ou da tabela de multiplicação, em função de dificuldades de memorização de tabuada.

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    A autora é Pedagoga, Fonoaudióloga e Psicopedagoga Clínica. Mestre em Educação: Psicologia Escolar, UFRGS, 1976. Professora universitária UFRGS, UNIFRA, URI (Erechim e Frederico Westphalen) nas disciplinas dos cursos de Especialização em Psicopedagogia Terapêutica. Autora  do livro A escrita ortográfica na escola e na clínica; do Confias – Consciência fonológica Instrumento de avaliação sequencial, participação em capítulos de livros tais como: Transtornos da aprendizagem: aspectos neurobiológicos e multidisciplinares; dentre outros.

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    BIBLIOGRAFIA

    ARTIGAS, Josep. Quince cuestiones basicas sobre la dislexia. Conferences Topic: neuropediatrics. Educational sit: www.uninet.edu/union99/congress/confs/npd/

    MOOJEN, S. A escrita ortográfica na escola e na clínica: Teoria, avaliação e tratamento. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2009.

    MOOJEN E FRANÇA: Visão fonoaudiológica e Psicopedagógica da Dislexia. In ROTTA, OHLWEILER & RIESGO: Transtornos de Aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar, POA, Artmed, 2006.

    RUEDA, Mercedes: La lectura: adquisición, dificultades e intervención, Salamanca, Amaru, 1995.

    SANCHEZ, Emilio. A Aprendizagem da leitura e seus problemas – in COLL, PALACIOS, MARCHESI (Org).  Desenvolvimento Psicológico e Educação (Org) Porto Alegre, Artes Médicas, Capítulo 7, 1995.

    SANCHEZ, Emilio. Estratégias de Intervenção nos problemas de leitura – in COLL, PALACIOS, MARCHESI (Org).  Desenvolvimento Psicológico e Educação (Org) Porto Alegre, Artes Médicas, Capítulo 8, 1995.

    SANCHEZ, Emilio. As dificuldades na aprendizagem da leitura. In: BELTRAN, SANTIUSTE. Dificultades de Aprendisaje. Madrid, Sintesis, 1997.

    SANCHEZ, Emilio. El lenguaje escrito y sus dificultades: una visión integradora In: MARCHESI, COLL Y PALACIOS. Desarollo humano y Educación. Madrid, Allianza Editorial. 1999.

  • Educação (meia-boca) para todos

    Educação (meia-boca) para todos

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    Solange Moll Passos

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    EDUCAÇÃO (MEIA-BOCA) PARA TODOS

    Wilson Luiz Stadnick

    O direito à educação é um dos direitos sociais dos brasileiros, garantido a todos pela Constituição Federal de 1988. Diz a Carta Magna que é competência comum da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, proporcionar os meios de acesso à educação, que não apenas é um direito de todos, mas também, dever do Estado.

    Apesar da letra da lei, o que se vê na prática não é exatamente aquilo que se almejava. Seja pela falta de interesse dos governantes, pela corrupção, pelo descaso, ou por interesse eleitoral, as escolas pelo Brasil afora estão relegadas a um plano muito inferior nas prioridades administrativas.

    Certamente foi com extrema boa intenção que o legislador constituinte impôs ao Estado a obrigação de garantir educação a todos os brasileiros. Entretanto, não imaginavam aqueles legisladores de um país recém saído da ditadura militar, que, talvez, em um futuro próximo, haveria necessidade de um complemento para aquela garantia.

    Talvez, o acréscimo do termo “de qualidade” à palavra “educação”, na Lei Maior, pudesse hoje pelo menos ter adicionado um pouco de empenho aos nossos mandatários em zelar pela melhoria do sistema de ensino público nacional.

    Apenas talvez, se a Lei houvesse recomendado proporcionar meios de acesso à educação “de qualidade”, quem sabe o Estado não teria investido mais na formação dos professores, qualificando-os e oferecendo melhor remuneração, tornando a carreira profissional muito mais atrativa e disputada, com reflexo direto no aprendizado dos alunos.

    Quem sabe as escolas não estariam em melhores condições de receber seus alunos, eis que professores bem remunerados e respeitados pela profissão que escolheram poderiam se dedicar em tempo integral à escola, sem precisar recorrer a empregos paralelos para reforçar sua renda. Em contrapartida, os alunos estariam mais bem assistidos, recebendo aula e conteúdos mais elaborados, pois, afinal, nesses dias de fácil acesso à tecnologia, é preciso mais que um “quadro negro” para que se sintam atraídos pela escola.

    O fato é que a “educação de qualidade”, pelo menos no sistema de ensino público, parece distante.  A solução, certamente, passa pela cobrança. Quando alguém nos deve dinheiro, cobramos. Logo, quando votamos em alguém porque esse alguém prometeu uma excelente solução, devemos nos empenhar em uma excelente cobrança. Do contrário continuaremos a ouvir falar em educação de qualidade apenas nessas épocas de eleição, em que os partidos políticos, à caça de nossos votos, empenham-se em produzir campanhas de qualidade. A mesma qualidade que anda faltando à educação.

    O autor é advogado, militante da área da Família e Trabalhista.

  • Como desmotivar pessoas

    Como desmotivar pessoas

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    COMO DESMOTIVAR PESSOAS

    Prof. Chafic Jbeili

    Então vamos lá! Em protesto à cultura anti-educacionista, vou ensinar em três passos como tirar a paz e acabar com o ânimo das pessoas. Depois de escolher a vítima do dia, fazer o seguinte:

    Primeiro: Faça comparações! 

    Compare a pessoa com outras pessoas que você e ela conheçam. Diga o quanto as outras pessoas são melhores e fazem tudo mais perfeito do que ela. Se for seu marido, compare-o com os gentis maridos de suas colegas. Se for seu filho diga a ele o tanto que o filho da vizinha é mais organizado, obediente, educado e prestativo. Se for um colega de trabalho recém-chegado, lembre-o de como o colega anterior fazia a mesma coisa de forma mais rápida e muito mais eficiente! Procure pessoas perfeitas e depois compare, compare, compare copiosamente!

    Segundo: Faça cobranças! 

    Cobre presença, cobre interação, cobre satisfação, cobre feedback, cobre mais pontualidade, cobre mais empenho, cobre mais dedicação, cobre mais compromisso, mais educação, cobre mais atenção, cobre mais resultados, cobre notas mais altas, cobre mais presentes, cobre mais serviço, mais agilidade, cobre mais cuidado, cobre mais e mais. Faça-a pensar o tanto que ela é insuficiente em tudo! Enfim, cobre tudo que você lembrar. Cobre, cobre, cobre intensamente!

    Terceiro: Depois de comparar bastante e cobrar muiiiiiito, agora Rejeite sem dó!

    Diga a pessoa que ela não é a pessoa ideal para sua vida ou para aquele trabalho ou tarefa e que está “muito decepcionada” com ela. Rejeite a presença dela, ignorando-a enquanto expõe idéias ou converse ao mesmo tempo em que ela fala. Rejeite a boa vontade dela e diga que “não precisa se preocupar”, pois você dá conta. Rejeite a opinião dela maneando a cabeça, enquanto ela fala. Rejeite suas justificativas, sorrindo cinicamente e dizendo que “não adianta se explicar”, pois você já entendeu tudo. Rejeite a ajuda dela dizendo que ela pode “ir fazendo outra coisa”. Rejeite a amizade dela, esquivando-se do abraço e do aperto de mãos oferecidos. Rejeite-a intensamente fingindo que nem a vê e por isso ela “já morreu” para você. Enfim, rejeite, rejeite, rejeite com força!

    Dificilmente um cônjuge, um filho, um colega de trabalho ou seja lá quem for ficará de pé e emocionalmente estável depois de ser copiosamente comparado, intensamente cobrado e nitidamente rejeitado. Não tem quem resista a este tripé maquiavélico! é bater e valer!

    Advertência: Só tem um probleminha básico para quem resolver aplicar esta receitinha: Todo sentimento que alguém provoca em outras pessoas, mais cedo ou mais tarde também voltará para si, com força! Que sentimento você tem aflorado nas pessoas? Afinal, quem não está gostando do “eco” que está ouvindo, precisa mudar o “som” que está emitindo.

    O autor é Especialista em Psicopedagogia Clínica pela FACETEN/RR; psicanalista clínico pelo Instituto IMPAR; autor do livro Superando o Desânimo; membro fundador da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática do Distrito Federal; professor convidado dos cursos de pós-graduação em Psicopedagogia e Docência do Ensino Superior do Instituto Educacional Multidisciplinar de Brasília – IMPAR e das Faculdades Santo Agostinho de Montes Claros; autor e tutor de diversos cursos nas modalidades presenciais e a distância pela UnicEAD.
  • Interdição Progressiva do Corpo de Joãozinho

    Interdição Progressiva do Corpo de Joãozinho

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    INTERDIÇÃO PROGRESSIVA DO CORPO DE JOÃOZINHO[1]

    Irene Debarba

    Joãozinho é um menino alegre e ativo. Desde muito pequeno evidenciou sinais de esperteza, inteligência e vivacidade.

    Atualmente, com cinco anos, aproveita seu tempo ao máximo e no término de cada dia, lamenta por ter que ir para a cama.

    Ele joga futebol com os meninos da rua, no campinho próximo a sua casa. Também empina pipa, brinca com seus carrinhos (transformando o quintal de sua casa em cenários diversificados). Adora subir nas árvores, pendurar-se em seus galhos, inventar brinquedos com pedaços de pau, latas, barbante, tampinhas, etc.

    Dificilmente vê-se Joãozinho dentro de casa. Quando está em frente à TV, raramente observa-se Joãozinho parado. Simultaneamente, presta atenção aos programas e brinca de pular corda, realiza gestos imitativos aos vistos nos desenhos, repete palavras ou frases pronunciadas por seus heróis, enfim, movimenta-se e até, de certa forma, interage com os programas assistidos.

    Joãozinho está prestes a iniciar uma nova etapa de sua vida. Em breve, completará seis anos e ingressará no primeiro ano do ensino fundamental. Ele acalenta inúmeras expectativas com relação à escola. Seus pais lhe disseram que ela lhe viabilizará um futuro melhor. Melhor que o deles, que a frequentaram muito pouco, por falta de oportunidade. Joãozinho não faz ideia de como o futuro possa ser ainda melhor. Ele já é tão feliz! Mesmo assim, fica pensando em como será bom aprender coisas diferentes, como será maravilhoso poder ler tudo que está escrito nas placas do seu bairro, nos anúncios da TV, nos seus poucos brinquedos comprados. Saber ler o que está escrito no único livro existente em sua casa: a Bíblia.

    Bem, o tempo passou e Joãozinho está impecável. Sua mãe trabalhou muito como diarista e seu pai na função de pedreiro, para poderem comprar tudo o que foi solicitado na lista de material. Seu uniforme está completo. O que mais incomoda Joãozinho são seus tênis. Estava acostumado a andar descalço. Mas está feliz… envaidecido. Achou-se tão bonito ao observar-se no espelho.

    Seus pais, orgulhosos, o levam à escola. Joãozinho não a imaginava tão grande. Logo lhe chamam a atenção o campo de futebol e o parquinho.

    – Nossa! – pensa ele. – Quanto espaço para brincar com o Paulo (amigo que também está ingressando na escola).

    Joãozinho ainda não conhecia as regras da escola. Era proibido correr. Somente poderia fazê-lo durante as aulas de educação física, quando a professora autorizasse.

    O sinal bate e Joãozinho entra na sala (na qual irá permanecer quatro horas de seu precioso dia). A professora menciona que no primeiro dia podem sentar-se onde preferirem. Joãozinho olha ao seu redor e vê tantas crianças. Pensa:

    – Puxa, vai ser divertido brincar com essa molecada!

    A professora interrompe seus pensamentos informando aos alunos que aprenderão muita coisa importante. O ABC, os números, escrever, fazer continhas, etc.

    Era tudo o que Joãozinho queria… aprender! Tinha sede de aprender. Já sabia muito sobre a profissão de seu pai, observando-o quando o acompanhava ao serviço. Também conhecia os afazeres da mãe e desempenhava com responsabilidade sua quota de tarefas. Não era de dar trabalho, exceto, pelas muitas vezes que chegou em casa com arranhões, “galos”, hematomas, enfim, uma série de machucados resultantes de suas peraltices.

    Após uma breve conversa, em que a professora explica o que irão estudar durante aquele ano, todas as crianças apresentam-se, dizendo seus nomes e idades. Posteriormente, ela solicita que peguem o caderno de atividades. Joãozinho nunca tinha escrito num caderno pautado. Ele já havia rabiscado em pedras, tábuas, jornais, papéis velhos…

    A professora desenha no quadro a letra “A” e informa que aprenderão as vogais, iniciando pela vogal “A”. Mostra o movimento correto para traçá-la e pede-lhes que a façam no caderno. Joãozinho tenta, conseguindo fazer algo semelhante. Ocupa várias linhas.

    Enquanto isso, a professora passa de carteira em carteira para verificar se as crianças conseguiram. Ao chegar na carteira de Joãozinho, diz-lhe:

    – Joãozinho! A letra não pode passar fora da linha! Apague e tente novamente.

    Meio decepcionado, atendeu ao pedido da professora, realizando inúmeras tentativas, sem sucesso. Acaba rasgando a folha de tanto apagar. Finalmente, para pôr fim ao seu tormento, bate o sinal, anunciando a hora do recreio.

    – Oba! – verbaliza ele.

    Corre para o pátio e come seu lanche rapidamente em companhia de seu amigo Paulo. Enquanto lancham, também discutem qual das brincadeiras realizarão primeiro. Resolvem ir ao parque. Quando lá chegam, percebem que está vazio e trancado. Dirigem-se velozmente ao campo de futebol. Este está repleto de crianças, mas nem sinal de bola. Informam-se com colegas e descobrem que é proibido jogar futebol na hora do recreio. Só lhes resta a opção do pega-pega. Assim, aproveitam os últimos minutos.

    Retornando à sala, a professora pede-lhes que façam uma fila em frente à porta. Passando de um a um, para ao lado de Joãozinho, dizendo-lhe:

    – Joãozinho, o que é isso! Todo suado e sujo! Ah! Já sei, você correu. Você não sabe que é proibido correr durante o recreio? Claro! A culpa é minha que não lhes ensinei as regras da escola. Vamos entrar na sala, fechar os cadernos e durante o resto desta manhã, vou lhes ensinar todas as regras desta escola. E prestem muita atenção, pois quem for pego correndo ficará sentado durante o recreio no dia seguinte. Certo?

    E assim foi. O restante da manhã os alunos permaneceram sentados e a professora registrou em papel pardo uma série de normas a serem cumpridas. Tudo o que não podia ser feito ficou em evidência.

    Joãozinho vai para casa entristecido… decepcionado. Os pais o aguardam ansiosos para saber como foi o primeiro dia na escola. Ao ser indagado, Joãozinho não sabe o que responder. Então fala:

    – Foi mais ou menos – dirigindo-se ao seu quarto.

    Os pais de Joãozinho estranham sua atitude. Depois de conversarem melhor com ele, concluem que irá se acostumar com a nova rotina. Até então, só havia brincado. Agora, “tinha que dar duro” para vencer na vida. Disseram-lhe que a vida não é fácil e que precisaria se esforçar mais e parar de pensar só em brincadeira. Também lhe afirmaram que daquela data em diante, tudo seria diferente. Uma nova etapa de sua vida havia começado: a de estudante!

    Joãozinho é um menino obediente e valoriza a opinião dos pais. Conclui que eles devem estar certos.

    Os dias que se seguem na escola não são muito diferentes do primeiro. No tempo em que os alunos permanecem na sala ficam, a maior parte, sentados. Escrevem muito, geralmente copiando os exercícios e resolvendo-os. Também desenham, recortam e pintam. Algumas vezes, a professora propõe trabalhos grupais; em outras, atividades corporais, jogos, brincadeiras, com o objetivo de “entreter” as crianças. No entanto, estes momentos lúdico-corporais são geralmente adotados em “datas especiais” às crianças; tais como: festa junina, dia do estudante, dia da criança. A professora justifica a pouca frequência deste tipo de atividade em decorrência do excesso de conteúdos a serem trabalhados durante o ano letivo. Também acredita que atividades corpóreas sejam pertinentes a área específica de educação física.

    Joãozinho aprendeu a escrever dentro da linha, todavia, apresenta dificuldade para identificar as letras do alfabeto ensinadas. Comenta com os colegas que quando a professora permite fazer as tarefas em grupo ou quando proporciona ações pedagógicas pouco mais dinâmicas, parece-lhe tudo mais fácil de aprender. Lamenta que ela lance mão de recursos lúdicos somente no término das aulas, enquanto aguardam pelo sinal. Durante o tempo que permanece sentado, seu corpo reclama por movimentos. Gostaria de poder andar, se espichar, correr… A professora percebe sua inquietação e pergunta-lhe, às vezes:

    – Tem formiga na cadeira Joãozinho? Vê se fica parado! Assim você não consegue fazer nada direito, muito menos aprender o alfabeto. Você tem que prestar mais atenção, Joãozinho! É para o seu bem.

    Joãozinho respeita enormemente seus professores e tenta, sem muito êxito, ficar mais parado, concentrado. Já consegue desenhar as letras bem redondinhas, como as da professora. O que não consegue é gravar seus nomes, juntar as letras, formar as sílabas… Em casa os pais tentam ajudá-lo, fazendo-o escrever o alfabeto inúmeras vezes. Eles se questionam por que Joãozinho “tem cabeça boa” para aprender tanta coisa e na escola não vai bem. A professora lança mão de tudo o que sabe para ajudar Joãozinho. Chega a pensar que ele não aprende porque é um menino hiperativo. Encaminha-o para avaliação médica. O diagnóstico indicou que Joãozinho não tem nada. A mãe considera a possibilidade de que Joãozinho esteja com vermes. Ouviu falar que criança com vermes fica agitada. Ministra-lhe uma dose do remédio, sem atingir o resultado almejado.

    Joãozinho também tem muitas dúvidas. Depois de várias explicações, até entendeu porque não pode durante o recreio correr, jogar futebol ou ir ao parque. Percebeu que o espaço que inicialmente considerou tão grande é limitado para tanta criança, fazendo-se necessárias algumas regras que garantam o bem estar dos alunos e o bom funcionamento da escola. O que ele não entende, por mais que se esforce, é por que a maior parte do seu corpo é proibida na sala de aula. Ele pode utilizar suas mãos para copiar, resolver as atividades, recortar, pintar e desenhar o que a professora sugere. Ele pode utilizar os ouvidos para escutar as orientações e explicações da professora e alguns questionamentos dos colegas. Ele pode usar os olhos para observar o quadro, o caderno, os cartazes e os livros. Ele pode valer-se de sua capacidade de falar para responder à chamada e às interrogações da professora, cantar, fazer perguntas. Às vezes, pode verbalizar suas experiências sem demorar-se. Há muitas coisas importantes a serem feitas.

    – E o resto do corpo? – se questiona Joãozinho. – O que faço com ele? Como posso aquietá-lo? Como posso parar algo que nunca ficou inerte, passivo?

    Joãozinho não entende, mas continua se esforçando, pois acredita que deve haver uma explicação lógica para aquele procedimento.

    Assim, dois anos se passaram e, como diz o velho ditado: “Não há nada que o tempo não possa curar”. Neste caso, parar. Joãozinho aprendeu a dominar seu corpo, aprendeu a reprimir seus desejos, aprendeu a assumir uma posição passiva e receptiva na sala de aula. E, além do fator tempo, com muita insistência, no segundo ano conseguiu alfabetizar-se.

    Joãozinho venceu! Joãozinho é um vencedor! Ultrapassou todos os obstáculos encontrados no caminho da alfabetização.

    A escola venceu! A escola é vencedora! Conseguiu, gradativamente, interditar o corpo de Joãozinho.


    [1] Primeira versão desta narrativa foi elaborada e apresentada na Dissertação de Mestrado da autora no ano de 2003.

    A autora é Graduada em Pedagogia; Especialista em Psicopedagogia, Gestão Escolar, Neuropsicopedagogia e Desenvolvimento Humano; Mestre em Educação.