Uma história de adoção…

Uma das coisas que eu gostava quando pequena era quando faltava energia elétrica em minha cidade. Nestes momentos, com luz de vela, minha mãe, com seu cigarro aceso – aliás, era algo que ela não vivia sem – e meu pai, contavam histórias. Meu pai dizia que o Xerife, nosso cachorro, tinha feito xixi no poste e falava para eu ir embaixo da mesa e dizer três vezes “São Longo, São Longuinho traga a luz bem rapidinho”. Eu achava isto muito engraçado, e para meu espanto de criança, às vezes funcionava. Eram momentos maravilhosos!

Eu e meu irmão fazíamos uma brincadeira que o próprio nome já diz tudo: bagunça. Isso mesmo, dizíamos: Vamos brincar de bagunça? E era o seguinte: tínhamos coberta de pena. Nossa mãe arrumava as camas, e para ficar bem bonito ela passava o cabo da vassoura por cima da coberta e ia ficando tudo bem retinho. Nossa brincadeira favorita era pular em cima daquela cama e dar boas risadas.

Minha mãe gostava muito de pescar e eu a acompanhava. Íamos longe naquelas estradas empoeiradas em busca de uma lagoa ou rio. Até hoje quando vejo uma lagoa a imagino sentada pescando. Ela era loira, olhos azuis, pernas grossas e um dedo torto. Uma vez perguntei se ela tinha nascido assim. Contou-me que quando criança estava cortando trato para o gado e cortou o dedo. Alguém amarrou o seu dedo com um pedaço de tecido e disse para ela voltar a trabalhar, e assim ela o fez. Porém, da maneira como foi amarrado ele ficou, ou seja, torto. Ao me contar, eu sentia em seu olhar um certo orgulho daquele dedo torto. Dizia que era seu charme.

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Meu pai nasceu em 1925 na cidade de Caen, na Bahia. Aos 15 anos, ele não queria mais ir para a escola. Meu avô chamou-o e disse: ou você estuda ou vai para a Marinha. Ele preferiu ir para a Marinha, e por 11 anos percorreu o mar de muitos países. Vocês podem imaginar quanta história ele tinha para contar. Na 2ª guerra mundial ele estava em algum navio.

Bem, os dois se conheceram em uma praia de Santos. Tiveram um filho e na Revolução de 1964 saíram de Santos para viver em Pouso Redondo, cidade que ela havia crescido. A saída de Santos não impediu que meu pai fosse preso por denúncia de ser comunista. Até hoje não sei se ele era realmente comunista.

E quando eu entro nesta história?

Foi por este casal que fui adotada em 1971, com 23 dias de vida.

Em um domingo foram visitar seus amigos e compadres. Souberam que uma família estava querendo dar uma criança por não ter condições de criá-la. Minha mãe, que não conseguia mais engravidar, foi me conhecer e voltou correndo dizendo para meu pai que eu era linda (beleza é algo que o amor não consegue explicar). No início meu pai ficou um pouco reticente, mas acabou concordando e segundo minha mãe, quando ele me viu foi amor à primeira vista.

E assim começou a nossa história…

Esta pequena parte de minha vida escrevi pensando nas pessoas que querem adotar seus filhos e por algum motivo estejam receosos. Adoção é um ato de amor, isto não significa que não há dificuldades ou problemas. Na verdade há problemas como em qualquer outra família. Ah, quanto trabalho eu dei aos meus pais!

É necessário que quem vá adotar uma criança se pergunte: por que quero adotar?

Adoção é para quem quer ter filhos, e está disposto a enfrentar as responsabilidades que uma família traz, não serve para um ato de caridade. Portanto adotar uma criança e depois considerá-la eternamente devedora é completamente descabido. Nesta relação todos ganham, se a criança tem a felicidade de receber os pais, os pais também realizam o seu desejo de ter um filho. E deste encontro é formado uma família.

Os meus pais se separaram quando eu tinha 11 anos e as coisas não ficaram muito boas, porém nunca deixaram de ser os meus verdadeiros pais.  Hoje não estão mais nesse mundo e apesar de não tê-los em meu sangue estarão para sempre em mim. Isso é ADOÇÃO!

P.S:

Duas mães

Uma deu a vida.
A outra salvou.
Uma não enxergava, não ouvia, não falava.
Para reconhecer sua filha precisava lhe tocar.
A outra, a quilômetros de distância, bastava olhar.
As duas já partiram.
O que deixaram?
Bom, a mãe que deu a vida entregou sua filha para a mãe que a salvou. E esta a ensinou a pescar. Literalmente!
E quem aprendeu a pescar sabe que paciência e persistência são elementos fundamentais para garantir uma boa pescaria, mas você também precisa saber o que está querendo pescar. Assim, sempre que voltar para casa vai ter uma boa história pra contar.

por Solange Moll Passos

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