1st fev 2010

Mãe e Osni

Uma das coisas que eu gostava quando pequena era quando faltava energia elétrica em minha cidade. Nestes momentos, com luz de vela, minha mãe, com seu cigarro aceso – aliás, era algo que ela não vivia sem – e meu pai, contavam histórias. Meu pai dizia que o Xerife, nosso cachorro, tinha feito xixi no poste e falava para eu ir embaixo da mesa e dizer três vezes “São Longo, São Longuinho traga a luz bem rapidinho”. Eu achava isto muito engraçado, e para meu espanto de criança, às vezes funcionava. Eram momentos maravilhosos!

Eu e meu irmão fazíamos uma brincadeira que o próprio nome já diz tudo: bagunça. Isso mesmo, dizíamos: Vamos brincar de bagunça? E era o seguinte: tínhamos coberta de pena. Nossa mãe arrumava as camas, e para ficar bem bonito ela passava o cabo da vassoura por cima da coberta e ia ficando tudo bem retinho. Nossa brincadeira favorita era pular em cima daquela cama e dar boas risadas.

Minha mãe gostava muito de pescar e eu a acompanhava. Íamos longe naquelas estradas empoeiradas em busca de uma lagoa ou rio. Até hoje quando vejo uma lagoa a imagino sentada pescando. Ela era loira, olhos azuis, pernas grossas e um dedo torto. Uma vez perguntei se ela tinha nascido assim. Contou-me que quando criança estava cortando trato para o gado e cortou o dedo. Alguém amarrou o seu dedo com um pedaço de tecido e disse para ela voltar a trabalhar, e assim ela o fez. Porém, da maneira como foi amarrado ele ficou, ou seja, torto. Ao me contar, eu sentia em seu olhar um certo orgulho daquele dedo torto. Dizia que era seu charme.

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Meu pai nasceu em 1925 na cidade de Caen, na Bahia. Aos 15 anos, ele não queria mais ir para a escola. Meu avô chamou-o e disse: ou você estuda ou vai para a Marinha. Ele preferiu ir para a Marinha, e por 11 anos percorreu o mar de muitos países. Vocês podem imaginar quanta história ele tinha para contar. Na 2ª guerra mundial ele estava em algum navio.

Bem, os dois se conheceram em uma praia de Santos. Tiveram um filho e na Revolução de 1964 saíram de Santos para viver em Pouso Redondo, cidade que ela havia crescido. A saída de Santos não impediu que meu pai fosse preso por denúncia de ser comunista. Até hoje não sei se ele era realmente comunista.

E quando eu entro nesta história?

Foi por este casal que fui adotada em 1971, com 23 dias de vida.

Uniflavio e Amigos

Em um domingo foram visitar seus amigos e compadres. Souberam que uma família estava querendo dar uma criança por não ter condições de criá-la. Minha mãe, que não conseguia mais engravidar, foi me conhecer e voltou correndo dizendo para meu pai que eu era linda (beleza é algo que o amor não consegue explicar). No início meu pai ficou um pouco reticente, mas acabou concordando e segundo minha mãe, quando ele me viu foi amor à primeira vista.

E assim começou a nossa história…

Esta pequena parte de minha vida escrevi pensando nas pessoas que querem adotar seus filhos e por algum motivo estejam receosos. Adoção é um ato de amor, isto não significa que não há dificuldades ou problemas. Na verdade há problemas como em qualquer outra família. Ah, quanto trabalho eu dei aos meus pais!

É necessário que quem vá adotar uma criança se pergunte: por que quero adotar?

Adoção é para quem quer ter filhos, e está disposto a enfrentar as responsabilidades que uma família traz, não serve para um ato de caridade. Portanto adotar uma criança e depois considerá-la eternamente devedora é completamente descabido. Nesta relação todos ganham, se a criança tem a felicidade de receber os pais, os pais também realizam o seu desejo de ter um filho. E deste encontro é formado uma família.

Os meus pais se separaram quando eu tinha 11 anos e as coisas não ficaram muito boas, porém nunca deixaram de ser os meus verdadeiros pais.  Hoje não estão mais nesse mundo e apesar de não tê-los em meu sangue estarão para sempre em mim. Isso é ADOÇÃO!

P.S:

Duas mães

Uma deu a vida.
A outra salvou.
Uma não enxergava, não ouvia, não falava.
Para reconhecer sua filha precisava lhe tocar.
A outra, a quilômetros de distância, bastava olhar.
As duas já partiram.
O que deixaram?
Bom, a mãe que deu a vida entregou sua filha para a mãe que a salvou. E esta a ensinou a pescar. Literalmente!
E quem aprendeu a pescar sabe que paciência e persistência são elementos fundamentais para garantir uma boa pescaria, mas você também precisa saber o que está querendo pescar. Assim, sempre que voltar para casa vai ter uma boa história pra contar.

por Solange Moll Passos

Especialista em Psicopedagogia Clinica e Institucional. Formação em Avaliação Dinâmica do Potencial de Aprendizagem e em PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) pelo CDCP (Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná) Centro de Treinamento Autorizado pelo Hadassah Wizo-Canada Reserach Institute e pelo ICELP - The Internacional Center for the Enhancement of Learning Potential, Jerusalém - Israel. Experiência em alfabetização e dificuldades de aprendizagem. Autora do e-book: "Mamãe, deixe-me crescer" e idealizadora da Revista Psicosol. Ama ler e tem levado bem a sério a sua brincadeira de escrever.

12 comentários em “Uma história de adoção…

  1. Maria Luiza. on said:

    Olá amiga Solange.

    Que privilégio para mim poder acompanhar a sua história de vida! Por alguns segundos – enquanto lia seu texto com os olhos lacrimejando e meu corpo arrepiando – tive a nítida impressão de já ter ouvido esta história, será!? ( Risos emocionados ).
    Estou muito orgulhosa de você!
    Em alguns casos o problema não vem a ser quem adotou e sim, o adotado. Na sua história de adoçao, as duas coisas aconteceram com sucesso – seus pais que foram de suma importância na sua vida e VOCÊ que vem surpreendendo à todos, com a sua educação, inteligência, qualidades e muita força de vontade para vencer.
    PARABÉNS! O mundo precisa de pessoas como você!

    De sua e sempre amiga,
    Maria Luiza G. Schulz.

  2. Leorides Lima on said:

    Querida Solange.
    Que história linda! Não sabia desse “detalhe”. Você é tão linda por dentro quanto por fora. Eu já havia tido uma amostra disso e agora, sei o porquê: Você foi sempre muito amada!
    Beijos e muita sorte no seu espaço (que é lindo).

    Léo

  3. Clarissa Fialho on said:

    Sol!

    Mto lindo esse breve trecho da história de tua vida..Mto profundo, simplesmente pela sinceridade que está subjacente às linhas..
    Agora percebo, com clareza, o quão maravilhoso foi ter te conhecido, pq são as pessoas que compartilham suas experiências, fracassos, sucessos, enfim, que enriquecem nossa vida e agregam valor. Àquelas que optam por fecharem-se em seus mundos, se isolando como se estivessem em ilhas, não nos dão sequer a oportunidade de aprendizado..
    Por esse motivo, te agradeço!! Felicidades e sucesso! bj gd da nova amiga gaúcha!!

  4. Sol!

    Eu sei que você sabe disso que vou te dizer, mas nunca é demais: “Lembre-se sempre que você foi escolhida para ser amada por eles, e o foi.”

    Um grande abraço,

    De seu amigo,

    Igor

  5. Márcia Roseli Guetter Geisler on said:

    Solange,

    Desde o momento em que eu te conheci percebi que tínhamos alguma coisa em comum. Lendo sua história percebi que acertei em cheio.
    Um grande beijo

    Márcia

  6. Fui seu professor, seu técnico e seu instrutor de fanfarra,mas não conhecia sua história. que livro poderia ser escrito. Um forte abraço!

    • Solange Moll on said:

      Professor Sergio, estou especialmente emocionada esta manhã. Saber que vc lembra de mim é uma grande alegria.
      Você e outros professores da minha querida cidade “Pouso Redondo” fizeram a diferença em minha vida.
      Obrigada pelo incentivo do livro, partindo de vc meu técnico do coração… rsrsrs faz uma grande diferença!
      Um forte abraço
      Solange

  7. Rosângela Dagostin on said:

    Solange,
    tua história de vida comove a cada um que a conheça. Que bênção teres tido pais que a educaram tão bem, fazendo de ti uma pessoa assim: “simplesmente” BOA. Conheço-te muito pouco, mas já a admiro muito.
    “Foi o tempo que investiste em tua rosa que fez tua rosa tão importante”.

    Antoine de Saint-Exupéry
    Mil beijos
    Rosângela Dagostin – Criciúma SC
    Psicopedagoga ABPp SC 377/2009

  8. Sandra Maria Pasqualini Vansuita on said:

    Uma pessoa incrível como você é, só podia ter uma história linda como essa.
    Que Deus abençõe você e sua família.
    Um beijão

    Sandra

    • Solange Moll on said:

      Sandra, obrigada pelo seu comentário! Porém, não me acho incrível… rsrsrsrs
      Mas vou respeitar sua opinião… rsrsrsrs faz bem ouvir elogios…
      bjs

  9. Tive o prazer de conhecer sua mãe e provar a deliciosa comida que fazia! E a felicidade de conhecê-la! Um dia quem sabe a gente se encontra! Bjo!

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