Autor: Solange Moll

  • PEI – Programa de Enriquecimento Instrumental

    PEI – Programa de Enriquecimento Instrumental

    O-lá!

    O PEI foi criado por Reuven Feuerstein, é composto por 14 instrumentos. Foram elaborados de uma maneira que há um crescente nível de dificuldade. Não apresentam conteúdos escolares e nem têm esta pretensão, mas pretendem promover modificações nas estruturas cognitivas do sujeito a ponto de que o mesmo supere suas dificuldades tanto na escola como na vida.

    A chave principal para promover a modificabilidade está na mediação. Os instrumentos em si, se forem aplicados sem a devida mediação, tornam-se apenas mais uma atividade. Por este motivo, a aplicação dos instrumentos é autorizada somente para profissionais habilitados e autorizados pelo ICELP/Israel e/ou pelos centros autorizados que se encontram em vários países.

    Qualquer pessoa pode melhorar seu desempenho, conforme palavras de Feuerstein:  “O indivíduo é um ser modificável”.

    Algumas competências desenvolvidas:

    – Interiorização e memorização;

    – Planejamento e organização;

    – Raciocínio lógico verbal;

    – Controle da impulsividade;

    – Autonomia…

    Quem pode ser favorecido pelo programa:

    – Crianças e adolescentes que precisam melhorar seu potencial para aprender;

    – Adultos que almejam aumentar seu potencial intelectual;

    – Idosos que queiram permanecer mentalmente ativos.

    A minha formação em PEI eu fiz no CDCP (Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná) e posso dizer que foi um diferencial na maneira que eu lido com o meu próprio processo de aprendizagem e também modificou a minha mediação. Se você tem interesse em maiores informações sobre o PEI entre em contato com https://cdcp.com.br/ 

    Um forte abraço.

  • Uma história de adoção…

    Uma história de adoção…

    Uma das coisas que eu gostava quando pequena era quando faltava energia elétrica em minha cidade. Nestes momentos, com luz de vela, minha mãe, com seu cigarro aceso – aliás, era algo que ela não vivia sem – e meu pai, contavam histórias. Meu pai dizia que o Xerife, nosso cachorro, tinha feito xixi no poste e falava para eu ir embaixo da mesa e dizer três vezes “São Longo, São Longuinho traga a luz bem rapidinho”. Eu achava isto muito engraçado, e para meu espanto de criança, às vezes funcionava. Eram momentos maravilhosos!

    Eu e meu irmão fazíamos uma brincadeira que o próprio nome já diz tudo: bagunça. Isso mesmo, dizíamos: Vamos brincar de bagunça? E era o seguinte: tínhamos coberta de pena. Nossa mãe arrumava as camas, e para ficar bem bonito ela passava o cabo da vassoura por cima da coberta e ia ficando tudo bem retinho. Nossa brincadeira favorita era pular em cima daquela cama e dar boas risadas.

    Minha mãe gostava muito de pescar e eu a acompanhava. Íamos longe naquelas estradas empoeiradas em busca de uma lagoa ou rio. Até hoje quando vejo uma lagoa a imagino sentada pescando. Ela era loira, olhos azuis, pernas grossas e um dedo torto. Uma vez perguntei se ela tinha nascido assim. Contou-me que quando criança estava cortando trato para o gado e cortou o dedo. Alguém amarrou o seu dedo com um pedaço de tecido e disse para ela voltar a trabalhar, e assim ela o fez. Porém, da maneira como foi amarrado ele ficou, ou seja, torto. Ao me contar, eu sentia em seu olhar um certo orgulho daquele dedo torto. Dizia que era seu charme.

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    Meu pai nasceu em 1925 na cidade de Caen, na Bahia. Aos 15 anos, ele não queria mais ir para a escola. Meu avô chamou-o e disse: ou você estuda ou vai para a Marinha. Ele preferiu ir para a Marinha, e por 11 anos percorreu o mar de muitos países. Vocês podem imaginar quanta história ele tinha para contar. Na 2ª guerra mundial ele estava em algum navio.

    Bem, os dois se conheceram em uma praia de Santos. Tiveram um filho e na Revolução de 1964 saíram de Santos para viver em Pouso Redondo, cidade que ela havia crescido. A saída de Santos não impediu que meu pai fosse preso por denúncia de ser comunista. Até hoje não sei se ele era realmente comunista.

    E quando eu entro nesta história?

    Foi por este casal que fui adotada em 1971, com 23 dias de vida.

    Em um domingo foram visitar seus amigos e compadres. Souberam que uma família estava querendo dar uma criança por não ter condições de criá-la. Minha mãe, que não conseguia mais engravidar, foi me conhecer e voltou correndo dizendo para meu pai que eu era linda (beleza é algo que o amor não consegue explicar). No início meu pai ficou um pouco reticente, mas acabou concordando e segundo minha mãe, quando ele me viu foi amor à primeira vista.

    E assim começou a nossa história…

    Esta pequena parte de minha vida escrevi pensando nas pessoas que querem adotar seus filhos e por algum motivo estejam receosos. Adoção é um ato de amor, isto não significa que não há dificuldades ou problemas. Na verdade há problemas como em qualquer outra família. Ah, quanto trabalho eu dei aos meus pais!

    É necessário que quem vá adotar uma criança se pergunte: por que quero adotar?

    Adoção é para quem quer ter filhos, e está disposto a enfrentar as responsabilidades que uma família traz, não serve para um ato de caridade. Portanto adotar uma criança e depois considerá-la eternamente devedora é completamente descabido. Nesta relação todos ganham, se a criança tem a felicidade de receber os pais, os pais também realizam o seu desejo de ter um filho. E deste encontro é formado uma família.

    Os meus pais se separaram quando eu tinha 11 anos e as coisas não ficaram muito boas, porém nunca deixaram de ser os meus verdadeiros pais.  Hoje não estão mais nesse mundo e apesar de não tê-los em meu sangue estarão para sempre em mim. Isso é ADOÇÃO!

    P.S:

    Duas mães

    Uma deu a vida.
    A outra salvou.
    Uma não enxergava, não ouvia, não falava.
    Para reconhecer sua filha precisava lhe tocar.
    A outra, a quilômetros de distância, bastava olhar.
    As duas já partiram.
    O que deixaram?
    Bom, a mãe que deu a vida entregou sua filha para a mãe que a salvou. E esta a ensinou a pescar. Literalmente!
    E quem aprendeu a pescar sabe que paciência e persistência são elementos fundamentais para garantir uma boa pescaria, mas você também precisa saber o que está querendo pescar. Assim, sempre que voltar para casa vai ter uma boa história pra contar.

    por Solange Moll Passos

  • Escrita Espelhada. Que bicho é esse?

    Escrita Espelhada. Que bicho é esse?

     

    É comum nos primeiros registros escritos observarmos as crianças escrevendo letras, números e palavras de trás para frente (veja o vídeo no final deste post). Por que isto acontece? Em primeiro lugar, trata-se de um fato comum no processo de aprendizagem da linguagem escrita porque nas primeiras tentativas a criança ainda não sabe todas as regularidades. Por exemplo: em nossa cultura se lê e se escreve da esquerda para a direita, ao contrário de outras culturas como a árabe e a hebraica que escrevem da direita para a esquerda, ou ainda os chineses, que escrevem de cima para baixo.

    Também é necessário compreender que a criança em fase de alfabetização está adquirindo a noção de direita e esquerda e as áreas cerebrais responsáveis por noções visoespaciais estão em processo de maturação. Jogos e brincadeiras que envolvam principalmente o corpo são de grande importância para a alfabetização porque a criança primeiro precisa construir estas noções em seu próprio corpo. 

    De qualquer forma, nesses primeiros passos no caminho da alfabetização, é frequente os pais ficarem angustiados ao observarem estas escritas espelhadas acompanhadas também de falta de letras ou mistura de letras e números. O ideal é deixar seus filhos fazerem suas tentativas, pois as crianças, conforme pesquisas realizadas por Emília Ferreiro e Ana Teberosky (pesquisadoras reconhecidas internacionalmente por seus trabalhos sobre alfabetização), começam a construir a língua escrita muito antes de entrarem no ensino formal.

    De acordo com Zorzi (2000):

    “Por muito tempo e, de modo bastante insistente, temos sido levados a ver, nos erros e enganos que as crianças fazem ao escrever, indícios de distúrbios e patologias. Os espelhamentos de letras são um exemplo típico desta maneira, até mesmo parcial e distorcida, de compreendermos o que é a aprendizagem.”

    As crianças podem, a princípio, além da escrita espelhada, escrever “formiga” com poucas letras e “boi” com muitas. É comum  justificarem que formiga é pequena, logo precisa de poucas letras, exemplo: CFAO. Já o boi é grande, então precisa de muitas letras: JAJNSHSJAKOV. Em outros casos, elas utilizam as letras do próprio nome em ordem diferente para muitas palavras. Mais adiante passam por outra fase e então escrevem uma letra para cada vez que pronunciam um som.

    E assim a criança segue gradualmente em sua investigação, até atingir a escrita convencional.

    Não existe criança que não sabe nada sobre a escrita. O que acontece é que a criança pensa sobre a escrita formulando hipóteses sobre ela, para compreender o que a mesma significa. Isto não quer dizer que ela não precisa de um mediador para aprender a ler e escrever. A ação de um mediador é imprescindível para fazer com que a hipótese da criança entre em conflito e assim proporcione o seu avanço.

    Feuerstein (1980 apud Beyer, 1996, p. 75) diz:

    Por meio do conceito da experiência da aprendizagem mediada (EAM) nós nos referimos à forma como os estímulos emitidos pelo meio são transformados por um agente ‘mediador’, usualmente um pai, um irmão ou outra pessoa do círculo da criança. Este agente mediador, motivado por suas intenções, cultura e envolvimento emocional, seleciona e organiza o mundo dos estímulos para a criança. O mediador seleciona os estímulos que são mais apropriados e então os filtra e organiza; ele determina o surgimento ou desaparecimento de certos estímulos e ignora outros. Através desse processo de mediação, a estrutura cognitiva da criança é afetada.

    Mas, muitas vezes, quando se ouve dizer que uma criança de 5 anos está lendo e escrevendo, logo vem aquela preocupação: será que meu filho de 6 anos tem problemas? Neste caso é melhor agir com bom senso, respeitando o ritmo de cada um. A escola deve ser parceira dos pais, dizendo-lhes quando percebe algo que mereça mais atenção.

    Zorzi (2000) também comenta:

    Estamos, como adultos, fortemente contaminados com noções rígidas de “certo” e “errado”: se a criança está agindo ou pensando da mesma forma que nós, então ela sabe, ela está certa, está aprendendo. Caso contrário, se ela assimila, ou entende uma situação de uma maneira distinta da nossa, que não está de acordo com nossas concepções e crenças, então ela está errada. Não está aprendendo. E, se não está aprendendo, então deve ter dificuldades, problemas, e assim por diante.

    Há uma preocupação exagerada para que se leia cada vez mais cedo. O mais sensato é baixar a ansiedade, acompanhar o desenvolvimento da criança, confiar na escola do seu filho e proporcionar um ambiente rico em leitura e escrita, regado com muita paciência e persistência.

    No mais é curtir e guardar estas primeiras tentativas de escrita com o mesmo valor dado às primeiras palavras e os primeiros passos.

    Olhem que LINDO vídeo eu recebi!!! Ilustra exatamente o tema abordado.  Artur aos 4 anos e 5 meses escreveu seu nome assim: 

    P.S.
     A escrita espelhada é comum até a idade de 7-8 anos. Se, entretanto, mesmo recebendo estímulo e ensino adequados, ainda assim ela estiver apresentando, além da escrita espelhada, dificuldade na aprendizagem da leitura e escrita, considero prudente uma avaliação psicopedagógica.

    REFERÊNCIAS

    BEYER, Hugo Otto. O fazer psicopedagógico: a abordagem de Reuven Feuerstein a partir de Piaget e Vygotsky. Porto Alegre: Mediação, 1996.

    ZORZI, Jaime Luiz. As inversões de letras na escrita o “fantasma” do espelhamento. 2000. Disponível em < http://www.filologia.org.br/soletras/15sup/As%20invers%C3%B5es%20de%20letras%20na%20escrita-%20o%20’fantasma’%20do%20espelhamento.pdf>. Acesso em 11 fevereiro 2011.

     OBRAS CONSULTADAS

    FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

    MACEDO, Lino de; NORIMAR, Ana Lúcia Sícoli Petty, PASSOS, Norimar Christe.  Os jogos e o lúdico na aprendizagem escolar.  Porto Alegre: Artmed, 2005.

    ZORZI, Jaime Luiz. Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: questões clínicas e educacionais. Porto Alegre: Artmed, 2003.

    Clique no link abaixo para ter acesso a uma apostila com sugestões de atividades lúdicas para intervenção da escrita espelhada.