O PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental), desenvolvido por Reuven Feuerstein, é um programa de intervenção cognitiva composto por 14 instrumentos. Esses instrumentos foram organizados em uma sequência progressiva de complexidade, permitindo que o sujeito avance gradualmente em suas habilidades de pensamento.
Um ponto essencial do PEI é que ele não se propõe a ensinar conteúdos escolares. Seu foco está no desenvolvimento das funções cognitivas e na promoção da chamada modificabilidade estrutural cognitiva, ou seja, a possibilidade de transformação do modo como a pessoa aprende, pensa e resolve problemas. Essa transformação pode impactar tanto o desempenho escolar quanto situações do cotidiano.
A importância da mediação
Na abordagem de Feuerstein, a mediação é o elemento central do processo. Os instrumentos, por si só, não garantem desenvolvimento cognitivo. Quando aplicados sem mediação adequada, tornam-se apenas atividades comuns, sem o potencial transformador que caracteriza o programa.
Por isso, a aplicação do PEI é restrita a profissionais habilitados e autorizados pelo ICELP (International Center for the Enhancement of Learning Potential), em Israel, ou por centros credenciados em diferentes países.
Como afirma Feuerstein: “O ser humano é modificável.”
Habilidades cognitivas trabalhadas
Entre as principais competências favorecidas pelo programa, destacam-se:
– Organização do pensamento e planejamento de ações – Interiorização e desenvolvimento da memória – Raciocínio lógico-verbal – Controle da impulsividade – Desenvolvimento da autonomia no pensar e agir
Essas funções não são trabalhadas de forma isolada, mas integradas ao processo de mediação, favorecendo uma aprendizagem mais consciente e estruturada.
Para quem o PEI pode ser indicado
O programa pode favorecer diferentes perfis de sujeitos, tais como:
– Crianças e adolescentes que necessitam ampliar seu potencial de aprendizagem – Adultos que desejam desenvolver suas capacidades cognitivas – Idosos que buscam manter-se cognitivamente ativos
Considerações finais
A minha formação em PEI, realizada no CDCP (Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná), representou um marco importante na minha prática profissional. Além de ampliar minha compreensão sobre o processo de aprendizagem, também transformou profundamente a minha forma de mediar o desenvolvimento cognitivo.
É comum observar, nos primeiros registros escritos das crianças, letras, números e palavras aparecendo de trás para frente (veja o vídeo no final deste post). Esse é um fenômeno frequente no processo de aprendizagem da linguagem escrita.
Mas por que isso acontece?
Nas primeiras tentativas, a criança ainda não domina todas as regularidades da escrita. Em nossa cultura, por exemplo, lemos e escrevemos da esquerda para a direita. Já em outras culturas, como a árabe e a hebraica, a escrita ocorre da direita para a esquerda, enquanto na cultura chinesa é comum a organização de cima para baixo. Ou seja, a direção da escrita não é uma noção universal e precisa ser aprendida.
O papel do corpo e do espaço na construção da escrita
Durante a alfabetização, a criança também está construindo noções importantes de direita e esquerda, além de desenvolver gradualmente as áreas cerebrais responsáveis pelas relações visoespaciais.
Por isso, jogos e brincadeiras que envolvem o corpo são fundamentais nesse processo. Antes de compreender essas relações no papel, a criança precisa vivenciá-las no próprio corpo, no espaço e na ação.
Escritas não convencionais: parte do processo
É comum que pais e cuidadores fiquem angustiados ao se depararem com escritas espelhadas, ausência de letras ou até mistura de letras e números. No entanto, o mais importante é compreender que essas produções fazem parte do caminho da alfabetização.
Segundo as pesquisas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, a criança começa a construir hipóteses sobre a escrita muito antes do ensino formal. Ou seja, ela já pensa sobre a língua escrita antes mesmo de dominá-la convencionalmente.
Como afirma Zorzi (2000):
“Por muito tempo e, de modo bastante insistente, temos sido levados a ver, nos erros e enganos que as crianças fazem ao escrever, indícios de distúrbios e patologias. Os espelhamentos de letras são um exemplo típico desta maneira, até mesmo parcial e distorcida, de compreendermos o que é a aprendizagem.”
As hipóteses infantis sobre a escrita
Nesse processo inicial, a criança pode apresentar diferentes formas de escrita:
Escrever “formiga” com poucas letras e “boi” com muitas, justificando que o tamanho do animal determina a quantidade de letras;
Produzir sequências aleatórias como “CFAO” ou “JAJNSHSJAKOV”;
Utilizar letras do próprio nome em diferentes ordens para escrever outras palavras.
Mais adiante, ela passa a perceber a relação entre sons e letras, podendo escrever uma letra para cada som que pronuncia.
Esse é um percurso natural de investigação até a construção da escrita convencional.
A importância da mediação
Não existe criança que “não saiba nada” sobre a escrita. O que existe são diferentes hipóteses sendo construídas para compreender esse sistema.
Isso não significa que a criança aprende sozinha. O papel do mediador é essencial nesse processo, pois é ele quem organiza, seleciona e dá sentido às experiências de aprendizagem.
Feuerstein (1980 apud Beyer, 1996, p. 75) explica:
“Por meio do conceito da experiência da aprendizagem mediada (EAM) nós nos referimos à forma como os estímulos emitidos pelo meio são transformados por um agente ‘mediador’, usualmente um pai, um irmão ou outra pessoa do círculo da criança. Este agente mediador, motivado por suas intenções, cultura e envolvimento emocional, seleciona e organiza o mundo dos estímulos para a criança. […] Através desse processo de mediação, a estrutura cognitiva da criança é afetada.”
Ansiedade, comparações e o ritmo de cada criança
Muitas vezes, quando se ouve que uma criança de 5 anos já lê e escreve, surge a preocupação: “será que meu filho de 6 anos tem algum problema?”
Nesses casos, o mais importante é o bom senso. Cada criança tem seu ritmo de desenvolvimento, e a comparação nem sempre ajuda. A escola deve atuar como parceira da família, sinalizando quando perceber algo que mereça maior atenção.
Como destaca Zorzi (2000):
“Estamos, como adultos, fortemente contaminados com noções rígidas de ‘certo’ e ‘errado’ […] se a criança está agindo ou pensando de forma diferente da nossa, então ela está errada, não está aprendendo.”
Conclusão: acompanhar, confiar e valorizar o processo
Há uma preocupação excessiva em antecipar a leitura e a escrita. O mais sensato é reduzir a ansiedade, confiar no processo de aprendizagem, na escola e no desenvolvimento da criança.
Oferecer um ambiente rico em leitura e escrita, com paciência e continuidade, faz toda a diferença.
E, acima de tudo, é importante valorizar essas primeiras tentativas com o mesmo carinho dado às primeiras palavras e aos primeiros passos.
Um registro especial
E para ilustrar esse processo, veja que lindo vídeo que recebi: Artur, aos 4 anos e 5 meses, escreveu seu nome assim.
P.S. A escrita espelhada é comum até a idade de 7-8 anos. Se, entretanto, mesmo recebendo estímulo e ensino adequados, ainda assim ela estiver apresentando, além da escrita espelhada, dificuldade na aprendizagem da leitura e escrita, considero prudente uma avaliação psicopedagógica.
REFERÊNCIAS
BEYER, Hugo Otto. O fazer psicopedagógico: a abordagem de Reuven Feuerstein a partir de Piaget e Vygotsky. Porto Alegre: Mediação, 1996.
ZORZI, Jaime Luiz. As inversões de letras na escrita o “fantasma” do espelhamento. 2000. Disponível em < http://www.filologia.org.br/soletras/15sup/As%20invers%C3%B5es%20de%20letras%20na%20escrita-%20o%20’fantasma’%20do%20espelhamento.pdf>. Acesso em 11 fevereiro 2011.
OBRAS CONSULTADAS
FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.
MACEDO, Lino de; NORIMAR, Ana Lúcia Sícoli Petty, PASSOS, Norimar Christe. Os jogos e o lúdico na aprendizagem escolar. Porto Alegre: Artmed, 2005.
ZORZI, Jaime Luiz. Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: questões clínicas e educacionais. Porto Alegre: Artmed, 2003.
Clique no link abaixo para ter acesso a uma apostila com sugestões de atividades lúdicas para intervenção da escrita espelhada.
Vou contar uma pequena história. Não vou citar nomes, mas talvez você conheça alguém muito parecido com o personagem principal.
Era uma vez uma família que amava profundamente seu filho. Como tantas outras, queria oferecer a ele as melhores oportunidades para aprender e se desenvolver.
Então chegou o primeiro dia de escola.
Pouco tempo depois, veio o primeiro alerta:
— Seu filho não está aprendendo como esperado.
Preocupados, a família e a escola decidiram buscar ajuda. Vieram atendimentos, reforços, terapias, aulas extras e uma rotina cada vez mais cheia.
Pela manhã, escola.
À tarde, um atendimento.
Depois, outro.
À noite, tarefas, provas e estudos.
Quando finalmente o dia terminava, restava apenas o cansaço.
E assim os dias foram passando.
Até que alguém fez uma pergunta simples:
— E quando essa criança brinca?
Mas a resposta parecia sempre a mesma:
— Não há tempo.
Afinal, era preciso recuperar conteúdos, alcançar resultados, diminuir a diferença em relação aos colegas.
Sem perceber, todos estavam tão concentrados nas dificuldades daquela criança que quase não sobrava espaço para que ela simplesmente… fosse criança.
O tempo passou.
E, como acontece com todos nós, aquele menino cresceu.
Agora adulto, sabia dizer exatamente quais eram suas dificuldades. Afinal, durante muitos anos ouviu sobre aquilo que não conseguia fazer.
Mas, quando alguém perguntava quais eram seus talentos, seus interesses ou aquilo que fazia bem, a resposta era bem mais difícil.
Talvez porque tenha tido poucas oportunidades para descobrir.
Essa história é fictícia, mas a reflexão é muito real.
Quando uma criança apresenta dificuldades de aprendizagem, ela precisa, sim, de intervenções adequadas. Porém, também precisa continuar vivendo experiências fundamentais para o seu desenvolvimento: brincar, descansar, conviver com outras crianças, explorar, criar, imaginar e sentir prazer em aprender.
O brincar não é um prêmio que vem depois da aprendizagem. Ele faz parte da aprendizagem.
Como profissionais da educação, também temos uma responsabilidade importante. Além de orientar as famílias sobre situações de descaso, precisamos conversar quando percebemos que a criança está sobrecarregada. Em alguns momentos, pode ser mais ético reorganizar prioridades do que simplesmente acrescentar mais um atendimento à agenda.
Cada criança tem seu próprio ritmo, suas necessidades e sua história. Nosso papel é ajudá-la a aprender sem que, nesse caminho, ela perca a oportunidade de viver a infância.
Aqui no site da Psicosol você encontra diversos jogos e brincadeiras que tornam esse processo mais leve, significativo e prazeroso. Muitos deles são gratuitos, como o Dominó de Atenção, uma proposta lúdica que estimula habilidades cognitivas enquanto preserva aquilo que toda criança precisa: o prazer de brincar.