Categoria: Artigos

  • Gagueira não tem graça, tem tratamento!

    Gagueira não tem graça, tem tratamento!

    GAGUEIRA NÃO TEM GRAÇA, TEM TRATAMENTO

    Márcia Celine Rocha de Luca

    O que é a Gagueira?  É um distúrbio de comunicação caracterizado pela interrupção no fluxo normal da fala, repetições, prolongamentos e paradas repentinas de sons e sílabas, trava (freezing) a fala.  Muitas vezes vêm acompanhado de movimentos compesatórios facial e ou corporais, os chamados cacoetes, como piscar os olhos rapidamente, fechá-los com força, balançar pernas e braços, inclinar a cabeça, entre outros.

    Quantos gagos existem? A gagueira atinge 1% da população mundial, sendo os homens os principais afetados. Para cada quatro homens gagos, há uma mulher com o distúrbio.
    Segundo a Associação Brasileira de Gagueira, cerca de 1 milhão e 600 mil pessoas  apresentam a gagueira no Brasil, entre adultos, jovens e crianças. Nos Estados Unidos são 3 milhões de pessoas e  aproximadamente 60 milhões de gagos em todo o mundo.

    Há tratamento para a gagueira? Há sim, quanto mais cedo, melhor o prognóstico. O profissional habilitado para esse tratamento é o fonoaudiólogo, podendo contar com o auxílio de psicólogos, psiquiatras e neurologistas dependendo do quadro clínico.

    Na Fonoaudiologia existem, basicamente duas possibilidades de tratamento: uma visa o disfarce da gagueira, oferecendo técnicas onde o sujeito poderá apresentar uma fala mais fluente, por exemplo, cantando, que utiliza diferentes mecanismos cerebrais, diferentes áreas no cérebro. Estas ocorrências indicam que a gagueira não é resultado de alguma dificuldade motora geral para a fala, mas de um mecanismo específico, logo somente exercícios orgânicos não serão eficazes.

    Enquanto a teoria neurofisiológica, uma nova e atual linha visa a estimulação neurológica e a melhora da auto estima do maufalante fazendo com que o cérebro “descubra” um novo caminho para falar bem.  É como ensinar uma nova língua. Desta forma a teoria neurofisiológica da gagueira não implica deixar as emoções de lado. As emoções ocupam um lugar importante na comunicação, por isso, em alguns casos, há a necessidade de associar o tratamento fonoaudiológico com o psicológico. O problema central na gagueira está na dificuldade do cérebro em processar a informação e sinalizar o término de um som ou uma sílaba e passar para próximo. Até que o cérebro processe esta informação, a língua “trava” e não consegue executar o movimento necessário. Essa ação muscular causa um grande desconforto tanto em adultos como em crianças. A gagueira é involuntária, ou seja, a pessoa que gagueja não tem controle sobre a sua articulação e não consegue evitar a ocorrência da gagueira sem que haja um tratamento adequado. Além dos sinais orgânicos, a gagueira também está associada com um grande sofrimento interno, porque a pessoa tem o que falar, sabe o que falar, mas não consegue. Desta forma, geralmente ocorre uma forte reação emocional à gagueira, porque ela interfere na comunicação e nos desempenhos escolar e profissional.  A pessoa que está escutando também fica angustiada diante da dificuldade do falante e acaba por completar as palavras, isso gera um grande desconforto para ambos, o falante se sente incapaz de se expressar, o que não é verdade!

    Quando inicia a gagueira? Na infância geralmente. É a chamada gagueira de desenvolvimento. Porém, é comum observarmos crianças na fase de desenvolvimento inicial de linguagem com pequenas disfluências que fazem parte deste processo, sendo normal isso acontecer. A gagueira em crianças com idade entre 2 e 3 anos (fase inicial do desenvolvimento de linguagem)  é considerada normal, pois o cérebro ainda não tem arquivo de palavras suficientes para se expressar, porém, na dúvida e diante da angústia das crianças em se expressar vale a pena a opinião de um profissional.

    Isso acontece porque a criança quer se expressar, mas ainda não tem o vocabulário necessário para a conclusão da ideia. Essa fase deve desaparecer até 4 ou 5 anos de idade. Caso a gagueira persista a chance de termos um adulto gago é grande. Tem o exemplo do atual filme “O discurso do Rei” .

    Quando se preocupar? Quando houver histórico familiar de adultos gagos na família. Quando perceber que a criança está se isolando dos amiguinhos e que isso está a deixando constrangida. Na dúvida procure um fonoaudiólogo para diagnosticar se trata-se de uma fase normal ou patológica.

    A gagueira é considerada um distúrbio da fluência da fala estando codificada no Código Internacional de Doenças (CID), portanto passível de tratamento. Há tantos casos que foi instituído o dia Nacional de Atenção à Gagueira – 22 de outubro.

    Quais as causas da gagueira? Ainda não temos a causa totalmente desvendada e é múltipla e complexa na sua natureza. Os achados de pesquisas mais recentes têm mostrado o envolvimento dos sistemas neuromotor e neurofisiológico na produção de uma fala gaguejada. Atualmente, poucos especialistas concordam com a ideia de uma causa totalmente psicológica, embora stress, frustrações, vergonhas, sentimento de inadequação, entre outros, colaborem para aumentar ou manter a gagueira, mas não sendo absolutamente a única causa desta patologia.

    Márcia Celine Rocha de Luca
    Fonoaudióloga – CRFA- 6739
    Especialista em Voz
    Especialista em Liderança
  • A criatividade pede licença para escrever

    A criatividade pede licença para escrever

    O-lá!

    Quem nunca escreveu uma palavra errada, releu o texto depois de publicado e pensou: “Como eu não vi isso antes?”

    É uma sensação um tanto desconfortável. Dá vontade de voltar no tempo, apagar o erro e fingir que ele nunca existiu. Mas, convenhamos: faz parte da experiência de quem escreve.

    A língua portuguesa é rica, complexa e cheia de regras. Mesmo quem lê bastante e escreve com frequência continua encontrando situações que geram dúvidas. Afinal, aprender a escrever bem não é um ponto de chegada, mas um processo que acompanha toda a vida.

    Às vezes, porém, fico pensando em outro aspecto dessa história. O que acontece com a criatividade quando escrevemos preocupados o tempo todo em não errar?

    É claro que conhecer a ortografia e a gramática é importante. Elas tornam a comunicação mais clara e facilitam a compreensão do texto. No entanto, quando o medo de errar se torna maior do que a vontade de expressar uma ideia, a escrita perde espontaneidade. Muitas pessoas deixam de escrever, de criar ou de compartilhar seus pensamentos simplesmente porque acreditam que tudo precisa sair perfeito.

    Talvez o equilíbrio esteja justamente em compreender que escrever envolve dois movimentos. O primeiro é permitir que as ideias apareçam. O segundo é revisá-las, aprimorá-las e corrigir o que for necessário. Criatividade e conhecimento das regras não precisam competir. Na verdade, podem caminhar lado a lado.

    No processo de alfabetização isso é ainda mais importante. Quando a criança percebe que o erro faz parte da aprendizagem, ela ganha coragem para experimentar, formular hipóteses e produzir textos cada vez mais elaborados. Corrigir é importante, mas incentivar a escrita também é.

    E nós, adultos, continuamos aprendendo do mesmo jeito. Lemos, escrevemos, revisamos, descobrimos novas palavras e, vez ou outra, encontramos um erro que passou despercebido. Faz parte.

    Se você encontrar algum deslize neste texto, pode me avisar. Vou agradecer pela oportunidade de aprender mais um pouquinho. Afinal, ninguém sabe tudo, e isso é uma ótima notícia.

    Como dizia Paulo Freire:

    “Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes.”

    Um abraço!

  • Transtorno de Tique, Transtorno de Tourette

    Transtorno de Tique, Transtorno de Tourette

    Olá! Abrimos este espaço para autores convidados. Não iremos interferir na liberdade de expressão dos mesmos. Portanto, esperamos que os autores fiquem à vontade para expor suas ideias sobre educação, mesmo se estas não representarem a nossa opinião.

    Muito Obrigada!

    Solange Moll

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    TRANSTORNO DE TIQUE

    Cristina Maria Pozzi

    Os tiques são movimentos bruscos, breves, involuntários, rápidos, repetitivos, arrítmicos, irresistíveis, inapropriados e despropositados ou vocalizações com as mesmas características. Podem ser simples (envolvendo apenas alguns músculos ou sons simples) ou complexos (envolvendo múltiplos grupos musculares ou palavras e frases em salvas).

    Alguns exemplos de tiques motores simples incluem piscar os olhos, torcer o nariz, caretear, franzir a testa, encolher os ombros, contrair o pescoço. Estes tiques geralmente duram uma fração de segundos. Os tiques motores complexos incluem verdadeiros trancos ou saltos, atos gestuais como coçar determinada parte do corpo, imitação repetitiva de um movimento (ecopraxia), realizar gestos obscenos (copropraxia), cheirar repetidamente um objeto, refazer os próprios passos, rodopiar, assumir e manter posturas incomuns. Estes tiques são mais prolongados, com duração de segundos ou mais.

    Os tiques vocais simples são sons sem sentido tais como pigarrear, grunhir, fungar, bufar, tossir, murmurar ou piar. Tiques vocais complexos envolvem mais claramente a fala e a linguagem e incluem a emissão súbita e espontânea de palavras ou expressões isoladas, bloqueio da fala, mudanças súbitas e sem sentido no tom, repetição das próprias palavras ou sons (palilalia) ou repetição da última palavra ou expressão ouvida (ecolalia) ou ainda, emissão súbita e inadequada de palavras ou expressões inaceitáveis, que inclui obscenidades ou insultos (coprolalia).

    Sua intensidade e frequência variam no mesmo indivíduo e podem ser parcialmente controlados, por um período de tempo, por ação da vontade. Desaparecem no sono, aumentam com a tensão e diminuem com a atenção, em tarefas que exigem concentração. Algumas crianças (e até adultos) não se dão conta de seus tiques. Entretanto, muitas pessoas com tiques experimentam uma sensação premonitória – um aumento de tensão em alguma parte do corpo que precede o tique motor ou vocal e uma sensação de alívio ou redução da tensão após a expressão do tique. O indivíduo pode sentir a necessidade de realizar um tique complexo de uma forma específica ou repetida até obter a sensação de que o tique “saiu certo”, somente então experimentando uma redução da ansiedade ou tensão.

    Quanto ao tempo de duração e às próprias características clínicas, os tiques são divididos em dois grandes grupos, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de TranstornosMentais (DSM-IV) (Associação Americana de Psiquiatria,2002): Transtorno de Tique Transitório e Transtorno de Tique Motor ou Vocal Crônico.

    O tique transitório é a forma mais comum de movimento involuntário anormal na criança. Inicia-se por volta dos cinco aos sete anos e é três vezes mais comum em meninos. Interessa apenas um ou dois grupos musculares funcionalmente relacionados, como músculos faciais, do pescoço ou ombros e manifestam-se geralmente por piscamento, careteamento, movimentos de língua como lamber os lábios, lateralização da cabeça ou movimentos da cabeça para trás. Pode haver vocalização, mas não acompanhada de tiques motores. A duração é de no mínimo quatro semanas, porém não superior a doze meses. Os pais devem ser advertidos da benignidade do processo e não devem chamar a atenção da criança para os tiques ou admoestá-la.

    Tiques crônicos são únicos ou múltiplos, motores ou vocais, mas não associados. Duram além de um ano sem que tenha havido um período livre de tiques maior que três meses consecutivos.

    TRANSTORNO DE TOURETTE (ou Síndrome de Tourette)

    ​As características essenciais deste transtorno consistem em tiques motores múltiplos e crônicos e no mínimo um tique vocal, embora não obrigatoriamente concomitantes, que perduram por mais de um ano, sem que tenha havido um período livre de tiques maior que três meses consecutivos. O início se dá antes dos 18 anos de idade, por volta dos seis ou sete anos. Os tiques ocorrem muitas vezes por dia, de forma recorrente, são, geralmente, exuberantes e chamam a atenção do observador. Muitos dos tiques descritos acima estão presentes em associação ou se alternam no mesmo paciente.Classicamente, há períodos de melhora alternados com piora. As vocalizações são freqüentes e a coprolalia (falar palavras obscenas) está presente em alguns indivíduos, mas não é requisito para diagnóstico de Transtorno de Tourette.

    ​Há um fator genético implicado, com histórico familiar positivo para o transtorno em 30 a 50% dos casos, e predomina no sexo masculino, na proporção de três a quatromeninos para uma menina.

    ​Os sintomas mais comumente associados ao Transtorno de Tourette são obsessões e compulsões. Hiperatividade, distração e impulsividade também são relativamente comuns. Desconforto social com a sensação de estar sendo observado pelos outros, vergonha, desmoralização e tristeza frequentemente ocorrem.

    Uma alta porcentagem de crianças, adolescentes e adultos com o Transtorno não busca atenção médica para seus tiques e sofrem com o estigma. O funcionamento social, acadêmico ou ocupacional pode estar prejudicado, em vista da rejeição pelos outros ou ansiedade quanto a apresentar os tiques em situações sociais. A severidade dos tiques pode ser exacerbada pela administração de estimulantes do sistema nervoso central, tais como aqueles utilizados no tratamento do Transtorno do déficit de Atenção e Hiperatividade.

    A avaliação médica especializada está indicada assim como tratamento farmacológico e psicoterápico. Em alguns casos há remissão espontânea e em outros os sintomas podem se atenuar na adolescência e idade adulta.

    Cristina Maria Pozzi.

    Médica Neuropediatra. Mestrado em Pediatria pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Doutoranda em Psicologia Clínica e Pesquisadora do Laboratório de Distúrbios do Desenvolvimento, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. cristinapozzi@ig.com.br

  • Nomenclatura diagnóstica: conceitos e confusões

    Nomenclatura diagnóstica: conceitos e confusões

    Olá! Abrimos este espaço para autores convidados. Não iremos interferir na liberdade de expressão dos mesmos. Portanto, esperamos que os autores sintam-se acolhidos e à vontade para expor suas ideias sobre educação, mesmo se estas não representarem a nossa opinião.

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    Solange Moll Passos

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    NOMENCLATURA DIAGNÓSTICA: CONCEITOS E CONFUSÕES

    Cristina Maria Pozzi

    Sempre digo que a medicina aumentou consideravelmente o meu vocabulário. Em poucos anos, milhares de palavras foram significadas, aprendidas e passaram a fazer parte do discurso diário. Mas, para que tantos nomes, siglas e especificações? Para que se possa falar a mesma língua de maneira universal, p. ex. síndrome de Down é uma trissomia do cromossomo 21, reconhecida aqui, na China ou qualquer lugar do planeta e confere ao portador uma série de características peculiares no fenótipo (aparência física) bem como, pode envolver diversos órgãos e sistemas (cardiopatia, alterações tireoidianas, ortopédicas, oftalmológicas, entre outras). Outro exemplo, o Transtorno Global do Desenvolvimento – Autismo Infantil exibe as mesmas características clínicas ao acometer o indivíduo de um grande centro urbano ou o indivíduo que vive numa comunidade rural, guardadas as diferenças ambientais. E para tornar isso possível, foram organizadas classificações que são de referência mundial: a Classificação Internacional de Doenças, a CID que está em sua 10ª revisão, elaborada pela Organização Mundial da Saúde, e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o famoso DSM, com a 5ª edição prevista para maio deste ano, elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria. Ambas facilmente acessadas nas fantásticas páginas de busca na internet.

    A CID-10 engloba todas as doenças, desde infecciosas e parasitárias, doenças do sangue, endócrinas, cardíacas, mentais e comportamentais, do sistema nervoso, respiratório e por aí afora. São categorizadas em letras e números, como p. ex. Q90 para Síndrome de Down e F84 para Transtorno Global do Desenvolvimento. Este é o tal CID exigido nos atestados, laudos, relatórios com a finalidade de se obter os direitos. Já o DSM engloba os Transtornos Mentais, que vão desde Retardo Mental, Transtornos de Aprendizagem, geralmente diagnosticados pela primeira vez na infância ou adolescência, até Transtornos relacionados a Uso de Substâncias, Transtornos de Ansiedade, do Humor, entre outros. São identificados por números, p. ex. 299 para Transtorno Global do Desenvolvimento ou 314 para Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.

    E é com base nestas classificações que se define o diagnóstico, muitas vezes, e, sobretudo na área de saúde mental, dependente exclusivamente de critérios clínicos, descritos ao longo de cada capítulo. Desta forma, é possível utilizar a mesma nomenclatura em uma ampla gama de contextos, seja na clínica, na pesquisa, na reabilitação, entre outros, em qualquer lugar do mundo. Mas há algumas situações nas quais esta terminologia difere e aí podem surgir dúvidas e confusões…

    Continuando no exemplo do Transtorno Global do Desenvolvimento, a tabela abaixo mostra as correspondências entre os subtipos deste transtorno listados no DSM-IV e na CID-10.

    Clique na imagem para visualizar melhor.

    Como se pode perceber, os termos transtorno e síndrome têm correspondência e definem o mesmo quadro, ambos podem ser utilizados de acordo com a classificação preferida, onde são descritos os critérios clínicos necessários para o diagnóstico.

    Outro exemplo interessante é relativo aos Transtornos da Aprendizagem, segundo DSM-IV ou Transtornos Específicos das Habilidades Escolares, segundo a CID-10. Primeiramente, é preciso compreender que, por definição, um Transtorno de Aprendizagem consiste em um rendimento nas modalidades habituais de aprendizado substancialmente abaixo do esperado para idade, escolarização e nível de inteligência e não é devido à falta de oportunidade de aprendizagem ou doença neurológica, outra condição médica geral ou déficit sensorial. Isso implica, em condições adequadas de educação familiar e escolar (aspecto complexo!), normalidade das funções visual, auditiva e saúde sistêmica e ausência de retardo mental observado através de testes padronizados administrados individualmente (aplicados única e exclusivamente por psicólogos).

    Os Transtornos de Aprendizagem devem ser diferenciados das variações normais do rendimento escolar e das dificuldades escolares devido à falta de oportunidades, ao ensino deficiente ou a fatores culturais. Assim, torna-se fundamental diferenciar o que é Transtorno (ou Distúrbio) de Aprendizagem do que é Dificuldade Escolar. O primeiro envolve uma disfunção neurobiológica relacionada a uma falha no processo de aquisição ou do desenvolvimento destas habilidades, tendo, portanto, caráter funcionalDiferentemente, a Dificuldade Escolar está relacionada especificamente a um problema de ordem e origem pedagógica ou ambiental.

    Sabidamente, as cifras de Dificuldade Escolar neste país são assustadoras, com cerca de 30 a 40% da população que freqüenta as primeiras séries apresentando algum grau de dificuldadeJá os Transtornos de Aprendizagem giram em torno de 3 a 5% da população com dificuldade acadêmica.

    Os Transtornos de Aprendizagem são subdivididos de acordo com a habilidade escolar alterada e incluem o Transtorno da Leitura, Transtorno da Matemática, Transtorno da Expressão Escrita e o Transtorno da Aprendizagem Sem Outra Especificação, segundo o DSM-IVO diagnóstico envolve uma avaliação multidisciplinar (médico pediatra, neurologista ou psiquiatra infantil, fonoaudiólogo, psicólogo, no mínimo) com a finalidade de testar as diversas funções e habilidades desta criança. Exames como eletroencefalograma ou tomografia de crânio não são indicados sistematicamente, salvo raras exceções, pois resultarão normais. O imprescindível é checar função visual, auditiva, tireoidiana, afastar anemia, epilepsia, avaliar habilidades fonológicas, funções executivas (atenção, memória, raciocínio, linguagem, etc.), exame neurológico e psíquico, além de analisar todo o histórico pessoal, o contexto familiar e escolar. O uso de medicamento nestes casos também não se indica, a menos que sejam diagnosticadas comorbidades. O tratamento é treino, treino e mais treino das habilidades disfuncionais, respeitando os limites da criança, incentivando-a e valorizando suas iniciativas. Criar uma rede de profissionais envolvidos entre terapeutas, escola e família e trabalhar em conjunto, sempre.

     

    “Se uma criança não pode aprender da maneira como é ensinada, é melhor ensiná-la da maneira que ela pode aprender” (Welchmann)

     

    Cristina Maria Pozzi

    Médica Neuropediatra, Mestrado em Pediatria pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Doutoranda em Psicologia Clínica e Pesquisadora do Laboratório de Distúrbios do Desenvolvimento no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo IPUSP – SP.

  • Orientações para o trabalho com o disléxico na escola

    Orientações para o trabalho com o disléxico na escola

    Olá! Abrimos este espaço para autores convidados. Não iremos interferir na liberdade de expressão. Portanto, esperamos que os autores sintam-se acolhidos e à vontade para expor suas ideias sobre educação, mesmo se estas não representarem a nossa opinião.

    Muito Obrigada!

    Solange Moll Passos

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    ORIENTAÇÕES PARA O TRABALHO COM O DISLÉXICO NA ESCOLA

    Sônia Moojen

    Antes da análise das acomodações necessárias ao disléxico na escola, é fundamental um esclarecimento sobre as características fundamentais da Dislexia Evolutiva ou Transtorno Severo da Aprendizagem da Leitura e Escrita.

    A dislexia

    • é um problema no processamento fonológico que afeta a leitura e a escrita, na ausência de problemas cognitivos (nível intelectual);
    • é um transtorno específico nas operações implicadas no reconhecimento das palavras que compromete,  em maior ou menor grau,  a compreensão da leitura. Os disléxicos são mais lentos para ler palavras e pseudopalavras, beneficiando-se mais do contexto ao ler. Eles não automatizam plenamente as operações relacionadas ao reconhecimento de palavras, empregando mais tempo e energia em tarefas de leitura. A escrita ortográfica e a produção textual também estão comprometidas;
    • afeta a  um subconjunto, claramente minoritário, dos alunos com problemas  na aprendizagem da leitura e escrita. Talvez não mais que 3% da população escolar;
    • representa  o extremo de um contínuo com a população normal. Os disléxicos não  diferem qualitativamente dos sujeitos normo-leitores. Há uma continuidade entre ambos os grupos, sendo a dislexia mais adequadamente comparada com a obesidade (onde há graus)  do que com o  sarampo – que é algo que uma pessoa tem ou não – (Ellis, 1984);
    • possui uma moderada evidência de origem genética (Rack e Olson, 1993).Os dados proporcionados pelo Projeto Colorado, onde foi estudada a incidência de problemas de leitura em gêmeos monozigóticos (de igual dotação genética) e gêmeos dizigóticos (que somente compartem parte da herança genética) parecem justificar a existência de uma moderada influência genética nas habilidades implicadas no reconhecimento de palavras. Entretanto, em alguns casos de dislexia evolutiva, não existe evidência alguma de antecedentes familiares que possam sugerir uma influência genética;
    • tem um prognóstico reservado, constituindo-se em um problema persistente. O aluno disléxico que, evidenciando alto grau de adaptação escolar, consegue entrar na Universidade, apresenta  dificuldades importantes na leitura de palavras não-familiares e, particularmente,  muita dificuldade na escrita;
    • requer um tratamento que envolve um processo lento, laborioso e sujeito a recaídas, conforme sugerem os dados de estudos longitudinais de sujeitos reabilitados (Rueda e Sanchez, 1994);
    • requer uma equipe multidisciplinar para seu diagnóstico e tratamento.

     

    Os disléxicos

    • possuem capacidade intelectual normal (acima de 85 na escala WISC);
    • tiveram escolarização adequada, ou seja, não trocaram de escola (língua materna) mais de 2 vezes nos três primeiros anos escolares e não faltaram mais de 10% de aulas nesta época;
    • devem ter visão e audição normal ou corrigida;
    • possuem um nível de adaptação psicossocial  normal (Vellutino,1979; Siegel, 1993);
    • não são portadores de problemas psíquicos ou neurológicos graves;
    • estão atrasados na leitura  e escrita, com relação a seus pares, com no mínimo dois  anos, (se a criança tem mais de 10 anos) e um ano e meio (se tem menos desta idade).

    Portanto, até o final de 2ª série não se pode fazer diagnóstico de dislexia. O problema tem que ser persistente, apesar de tratamento adequado.

     

    ORIENTAÇÃO À ESCOLA

    É imprescindível que todo disléxico receba um tratamento específico. Mas é crucial que, ao mesmo tempo, se atenda em aula seu problema. A seguir, serão recomendadas uma série de normas que deverão ser individualizadas para cada caso, com o objetivo de otimizar o seu rendimento e, ao mesmo tempo, tentar evitar problemas de frustração e perda de autoestima, muito frequentes nos disléxicos.

    1) Atitudes:

    • Dar a entender ao disléxico que seu problema é conhecido e que será feito o possível para ajudá-lo. Deve estar muito claro para o professor que o problema não é devido à falta de motivação ou à preguiça.
    • Dar-lhe uma atenção especial e animar-lhe a perguntar em caso de alguma dúvida. Para tanto seria recomendável que o disléxico sentasse perto do professor para facilitar a ajuda.
    • Comprovar sempre que o material oferecido para ler é apropriado para o seu nível leitor, não pretendendo que alcance um nível leitor igual aos dos outros colegas.
    • Destacar sempre os aspectos positivos em seus trabalhos e não fazê-lo repetir um trabalho escrito pelo fato de tê-lo feito mal.
    • Evitar que tenha que ler em público. Em situações em que isto é absolutamente necessário, oportunizar que ele prepare a leitura em casa.
    • Aceitar que se distraia com maior facilidade que os demais, posto que a leitura lhe exige um grande esforço.
    • Nunca ridicularizá-lo ou permitir que colegas o façam.

     

    2) Proposta de ação pedagógica:

    • Ensinar a resumir anotações que sintetizem o conteúdo de uma explicação
    • Permitir o uso de meios informáticos, de corretores e de gravações.
    • Permitir o uso de calculadora já que muitos disléxicos  têm dificuldade para memorizar a tabuada. Ele necessita de mais tempo para fazer os cálculos já que não automatizou a tabuada.
    • Usar materiais que permitem visualizações (figuras, gráficos, ilustrações) para acompanhar o texto impresso.
    • Evitar, sempre que possível, a cópia de grandes textos do quadro de giz, dando-lhes uma fotocópia.
    • Diminuir os deveres de casa, envolvendo leitura e escrita.

     

    3) Aprendizagem de línguas estrangeiras:

    Considerando o esforço que os disléxicos fazem para dominar a fonologia de sua língua materna, é difícil também que eles dominem uma nova língua. Podem até ter habilidade para aprender oralmente a língua, mas o domínio da escrita é particularmente difícil. Schawytz (2006) sugere que, em caso de muita dificuldade, seja requerida isenção de língua estrangeira, substituindo essa disciplina pela elaboração de projetos independentes sobre conhecimentos relativos à cultura do país em que falam esta língua.

     

    4) Avaliação escolar 

    • Realizar avaliações de forma oral, sempre que possível, – conduta válida em todos os níveis de ensino, particularmente no ensino superior.
    • Prever tempo extra como recurso obrigatório, não opcional, pois a capacidade de aprender do disléxico está intacta e ele simplesmente precisa de tempo para acessá-la.  Como o disléxico não automatizou a leitura, terá que ler pausadamente, com muito esforço e se apoiar nas suas habilidades mais altas de pensamento. Ele precisa utilizar o contexto para entender o significado da palavra, um caminho mais longo e indireto que requer tempo extra.
    • Evitar a utilização de testes de múltipla escolha que, pelo fato de descontextualizarem as informações e reduzirem o tempo de execução, tornam-se muito difíceis para o disléxico. Estes testes não são indicadores do conhecimento adquirido por ele.
    • As instruções  devem ser dadas de forma breve já que a memória para mantê-las é fraca e o tempo de atenção reduzido. Instruções curtas evitam confusões.
    • Valorizar sempre os trabalhos pelo seu conteúdo e não pelos erros de escrita. Infelizmente não adianta o professor apontar o erro, pois o disléxico não grava a grafia correta.
    • Oportunizar um local tranquilo ou sala individual para fazer testes ou avaliações para que o disléxico possa focar a sua atenção na tarefa que tem para realizar. Qualquer barulho ou distração atrapalhará a leitura, fazendo com que ele mude a atenção da leitura, o que interfere na performance do teste.
    • É indicado o uso de calculadora, ou da tabela de multiplicação, em função de dificuldades de memorização de tabuada.

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    A autora é Pedagoga, Fonoaudióloga e Psicopedagoga Clínica. Mestre em Educação: Psicologia Escolar, UFRGS, 1976. Professora universitária UFRGS, UNIFRA, URI (Erechim e Frederico Westphalen) nas disciplinas dos cursos de Especialização em Psicopedagogia Terapêutica. Autora  do livro A escrita ortográfica na escola e na clínica; do Confias – Consciência fonológica Instrumento de avaliação sequencial, participação em capítulos de livros tais como: Transtornos da aprendizagem: aspectos neurobiológicos e multidisciplinares; dentre outros.

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    BIBLIOGRAFIA

    ARTIGAS, Josep. Quince cuestiones basicas sobre la dislexia. Conferences Topic: neuropediatrics. Educational sit: www.uninet.edu/union99/congress/confs/npd/

    MOOJEN, S. A escrita ortográfica na escola e na clínica: Teoria, avaliação e tratamento. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2009.

    MOOJEN E FRANÇA: Visão fonoaudiológica e Psicopedagógica da Dislexia. In ROTTA, OHLWEILER & RIESGO: Transtornos de Aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar, POA, Artmed, 2006.

    RUEDA, Mercedes: La lectura: adquisición, dificultades e intervención, Salamanca, Amaru, 1995.

    SANCHEZ, Emilio. A Aprendizagem da leitura e seus problemas – in COLL, PALACIOS, MARCHESI (Org).  Desenvolvimento Psicológico e Educação (Org) Porto Alegre, Artes Médicas, Capítulo 7, 1995.

    SANCHEZ, Emilio. Estratégias de Intervenção nos problemas de leitura – in COLL, PALACIOS, MARCHESI (Org).  Desenvolvimento Psicológico e Educação (Org) Porto Alegre, Artes Médicas, Capítulo 8, 1995.

    SANCHEZ, Emilio. As dificuldades na aprendizagem da leitura. In: BELTRAN, SANTIUSTE. Dificultades de Aprendisaje. Madrid, Sintesis, 1997.

    SANCHEZ, Emilio. El lenguaje escrito y sus dificultades: una visión integradora In: MARCHESI, COLL Y PALACIOS. Desarollo humano y Educación. Madrid, Allianza Editorial. 1999.

  • Uma conversa sobre síndromes, transtornos, distúrbios . . .

    Uma conversa sobre síndromes, transtornos, distúrbios . . .

    Vamos conversar um pouquinho?

    Com este texto, quero “bater um papo” com você que acompanha o meu trabalho. Por motivos óbvios vou falar primeiro..haha, mas espero seu comentário depois!

    Para começar, preciso dizer que sempre que recebo um e-mail com perguntas sobre como trabalhar com uma criança com diagnóstico de algum transtorno, síndrome, etc, eu me solidarizo com quem me envia a pergunta. E por um motivo muito simples: já li muitos livros e fiz diversos cursos procurando respostas às in-fi-ni-tas perguntas sobre o tema. Claro que muitas vezes a minha expectativa foi maior do que o resultado obtido.

    No entanto, hoje me sinto mais tranquila (mas não acomodada). É evidente que o estudo e a vivência prática me fortaleceram nessa caminhada, mas a maneira com que eu aprendi a lidar com esses diagnósticos, e que quero compartilhar, foi que parei de olhar para eles com medo e insegurança. Quer saber? Na verdade, eu simplesmente mudei o foco do meu olhar, da minha escuta. Hoje, ao invés de olhar uma folha de papel, olho o ser humano à minha frente, que – assim como eu e você – está em desenvolvimento.

    Se eu pudesse dizer o que considero de mais importante no nosso trabalho, sem dúvida nenhuma, diria: estudar, estudar muito mesmo(!); mas escutar, olhar, sentir o aluno/paciente é primordial. Sem isso o trabalho não flui!

    Quanto a algumas sugestões práticas posso afirmar que todas, absolutamente todas as atividades disponíveis neste site (clique em jogos brincadeiras e muito mais…) foram aplicadas com diversas crianças. O que acontece é que é necessário aprimorar a sua sensibilidade e se perguntar: O que meu aluno/paciente já sabe? Qual habilidade precisa desenvolver? Quais interesses ele tem? Sabendo isso você será capaz de escolher a melhor atividade.

    Ainda quero contribuir um pouco mais e por isso vou citar alguns quesitos importantes – não são os únicos – para a aprendizagem acontecer com mais eficiência. O único detalhe é que não vou dizer: esta é para síndrome tal, para transtorno tal… Você terá que refletir baseado em suas próprias observações qual atividade seu aluno/paciente está precisando. Eu não posso dizer, simplesmente porque não o conheço. E um diagnóstico não fará com que eu o conheça. Eu me sentiria uma charlatã se fizesse isso.

    Vamos lá:

    O vocabulário: Muitas crianças encontram dificuldade na realização de atividades porque tem um conhecimento restrito de conceitos.

    Pensamento lógico: O número é algo que é construído individualmente por muitos anos através da criação e coordenação de relações. Quando um adulto consegue criar um ambiente que indiretamente encoraje o pensamento das crianças acaba por surpreender-se com a quantidade de relações que elas por si acabam por demonstrar. As situações de conflito são ótimos momentos para colocar as coisas em relações e desenvolver a mobilidade e a coerência do pensamento. Se ao contrário de ser reprimida, a criança for encorajada a discutir ou justificar uma decisão estará desenvolvendo de uma maneira indireta o seu pensamento lógico. Leia mais…

    Percepção (tátil, olfativa, visual, auditiva…). Sabe aquela criança que você diz que não tem memória? É possível que a dificuldade dela esteja no fato de não ter boa percepção.

    Por fim, preciso terminar essa conversa dizendo-lhe que acredite, tenha confiança e principalmente persistência. Entendo que vivemos em uma era que queremos tudo para ontem, mas nós seres humanos precisamos de tempos diferentes. Também não é para ficar esperando que as coisas aconteçam, ok? Não menospreze a capacidade de aprendizagem do ser humano, que é infinita, mas absolutamente particular. Jamais um diagnóstico será capaz de medir e determinar o quanto um indivíduo tem de capacidade para se desenvolver. Porém, o seu olhar poderá ser capaz de incapacitar ou capacitar. Pense nisso!

    Bom, acho que já falei demais, e não quero que nossa conversa se transforme em um monólogo, então agora é a sua vez.  Espero que não me deixe aqui falando sozinha…rs

    ________________________

    Apostila em PDF 

  • Segurança pública: pior cego é quem mesmo?

    Segurança pública: pior cego é quem mesmo?

    Artigo publicado no JORNAL DE SANTA CATARINA.

    http://www.clicrbs.com.br/jsc/sc/impressa/4,182,3776691,19709

    SOLANGE MOLL PASSOS|PSICOPEDAGOGA

    Possivelmente, neste exato momento em que você lê este texto, lágrimas que denunciam o desespero cobrem a face de alguém. Afinal, a todo instante ouvimos notícias sobre roubos, assaltos, sequestros, mortes… Toda essa tristeza parece sempre estar bem longe de nós. Parece! Isso até ela bater na nossa porta. Até sermos nós a notícia que tanto choca a população.

    Então, onde mora a segurança? Para onde devemos ir?

    Ora, não precisamos ir lá, nem acolá. Estaremos muito melhor protegidos se sairmos do cômodo lugar de expectadores desse circo em que tem se transformado a segurança pública e também se refletirmos sobre os caminhos que podem nos levar a condições melhores de vida.

    Será que somos mesmo tão impotentes para enfrentar o problema? A segurança pública passa antes pela educação com qualidade, por trabalho, diversão… E o que temos feito em nossa comunidade para que as pessoas efetivamente tenham acesso a esses itens?

    A bem da verdade, cada vez mais deixamos de nos preocupar com o outro. Fechamo-nos em nossas casas, cada um cuidando de si e dos seus. Tudo bem que não precisamos nos plantar à janela para bisbilhotar a vida alheia, porém, o outro lado dessa moeda, ou seja, ao nos despreocuparmos com a vida alheia, também não é nada salutar para a sociedade.

    Citando Gonzaguinha: “nós podemos tudo, nós podemos mais”. Precisamos cobrar insistentemente dos governantes, eleitos e pagos por nós, ações que realmente venham a nos deixar mais tranquilos e seguros, e também, a pôr em prática ações para fazermos a diferença em nossa comunidade.

    Por fim, o pior cego aqui é aquele que prefere não ver para nada precisar fazer.

  • O modelo de escola ideal já foi pensado!

    O modelo de escola ideal já foi pensado!

    Artigo publicado no JORNAL DE SANTA CATARINA.

    http://www.clicrbs.com.br/jsc/sc/impressa/4,182,3657908,18956

    SOLANGE MOLL PASSOS|PSICOPEDAGOGA

    A escola ideal já foi pensada, discutida e colocada no papel por muitos autores. Mas a escola que temos atualmente, na prática, é a “ideal” que foi pensada?

    Muito bem, mais um ano letivo se inicia, e com ele mais uma oportunidade de se fazer diferente. Que produtivo seria se o ano já iniciasse com os papéis da família e da escola bem entendidos e definidos! Então, ficaria mais ou menos assim: a família estaria ciente que “educação começa em casa”. Portanto, assumiria, acompanharia e incentivaria o desenvolvimento emocional e cognitivo dos seus filhos.

    E a escola tomaria conta das rédeas do conhecimento, e efetivamente deixaria de ser uma repassadora de informações. Esse conhecimento estaria formando seres humanos mais completos e consequentemente promoveria uma interferência significativa no mundo. E a partir daí, o professor seria merecidamente reconhecido como autoridade pelo que sabe e não pelo autoritarismo.

    Nada do que foi escrito aqui é tarefa fácil de executar, simples e colorida, mas, se de fato quisermos, devemos nos mover para torná-la possível! Sem culpar esse ou aquele. Apenas cada um fazendo a sua parte do que é preciso ser feito.

    Pensando bem, quem sabe possamos ousar mais e ir além do que é preciso fazer, sem esperar que o outro o faça.

    Todos almejamos uma vida melhor, mais justa, com igualdade social. Para isso precisamos do esforço e empenho de cada indivíduo que compõe a grande teia a qual chamamos de sociedade. Todos têm sua tarefa a cumprir, indiferente de qual lado esteja. E a escola ideal? Ah, essa deixaria de ser uma utopia!

    SOLANGE MOLL PASSOS|PSICOPEDAGOGA

  • Ah! O mundo fantástico das crianças!!!

    Ah! O mundo fantástico das crianças!!!

    Conheço pessoas que sonham, que fantasiam, que acreditam no impossível e no inacreditável. A maioria delas tem menos de 12 anos e, é justamente elas, consideradas crianças, que fazem eu me sentir tranquila, no sentido de que apesar das previsões catastróficas o nosso mundo sempre pode ser muito melhor.

    Já é sabido que muito do nosso dia a dia depende do que preferimos ver, ouvir, falar e fazer. No entanto, isso que é tão óbvio soa estranho quando nos deixamos ser levados pela maré. Falo dos que propagam desgraças, principalmente daquela mídia, que pelo seu afã de ganhar público, vende diariamente tragédia.

    Agora, tragédia mesmo é quando nós os adultos e ditos “maduros” deixamos nossa felicidade ir pelo ralo abaixo e passamos a viver sob ideias preestabelecidas. Quando já não nos espantamos, nos encantamos, e por fim, deixamos de acreditar na vida.

    Cora Coralina dizia: “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.”

    Você sabe, ninguém está livre das pedras. Elas surgem sem ao menos nos pedir licença invadindo o nosso caminho, mas penso que se resgatarmos um pouco daquela criança que um dia fomos, ou seja: rir mais, nos permitir errar, perdoar, começar de novo, e de novo e de novo…. poderemos mover a nossa vida para frente, e aí, quem sabe, coisas incríveis e inacreditáveis possam acontecer!

    bjuuu

  • Construção do número

    Construção do número

    Compreender o significado dos conceitos matemáticos e como eles são construídos pode ajudar o professor a entender as dificuldades encontradas por alguns alunos na aprendizagem matemática e a elaborar propostas pedagógicas adequadas à superação dessas dificuldades.

    Este texto apresenta uma síntese do livro A Criança e o Número de Constance Kamii. A autora fundamentada na teoria de Piaget, apresenta de uma maneira bem simples e abrangente como se processa a construção do número na criança.

    Piaget compreendeu dois tipos de conhecimento: o conhecimento físico e o lógico-matemático.

    A cor e o peso de uma bola é um exemplo de propriedade física, que estão na realidade externa do objeto e podem ser observados. A percepção de que esta bola cairá se soltarmos ao ar é um exemplo de conhecimento físico.

    Já se nós mostrarmos duas bolas com cores diferentes à uma criança, ao notar esta diferença (de cores) ela estará demonstrando um exemplo de conhecimento lógico-matemático. Esta diferença é uma relação criada mentalmente e só pode ser feita por cada indivíduo.

    A construção do conhecimento lógico-matemático é alcançado, por uma criança, com a coordenação das relações simples que a mesma tenha anteriormente criado entre os objetos, pois a fonte do conhecimento lógico-matemático é interna ao indivíduo. Ao contrário do conhecimento físico que é parcialmente externa ao indivíduo.

    Segundo Kamii (1990, p. 17, grifo do autor):

    Para a abstração das propriedades a partir dos objetos, Piaget usou o termo abstração empírica (ou simples). Para a abstração do número, ele usou o termo abstração reflexiva.”

    Quando uma criança focaliza uma certa propriedade de um objeto e ignora outras ela está fazendo uma abstração empírica. Já se a criança faz relações entre os objetos ela estará fazendo uma abstração reflexiva, que é uma construção feita pela mente, que vai além da simples representação de algo já existente no objeto.

    Apesar desta distinção entre a abstração empírica e a abstração reflexiva, Piaget afirma que no âmbito da realidade psicológica da criança uma abstração não existe sem a outra. Pois para que uma criança possa construir a relação diferente ela precisa observar propriedades de diferença entre os objetos. E também para construir o conhecimento físico ela necessita de um sistema de referência lógico-matemático que lhe permita relacionar novas observações com um conhecimento já existente.

    A criança elabora por abstração reflexiva dois tipos de relações entre os objetos para chegar ao número: uma é a ordem e a outra é a inclusão hierárquica.

    Piaget entendia por ordem a tendência comum entre as crianças de contar objetos saltando alguns ou contar o mesmo objeto mais de ma vez. Isto significa que a criança não sente a necessidade lógica de colocar objetos em uma determinada ordem para ter certeza de que não pulou nenhum objeto, ou contou duas vezes o mesmo objeto. Porém, a criança não precisa colocar objetos em uma ordem espacial para arrumá-los em uma relação organizada. O importante é que ela possa ordená-los mentalmente.

    Se a ordenação fosse a única operação mental da criança sobre os objetos, estes não poderiam ser quantificados, uma vez que a criança os consideraria apenas um de cada vez, em vez de um grupo de muitos ao mesmo tempo. (KAMII,1990, p. 20)

    Se depois de uma criança contar oito bolas organizadas numa relação ordenada nós pedirmos a ela que por exemplo nos mostre as oito bolas ela irá nos mostrar a última bola que ela contou.

    Para que esta criança consiga quantificar estas bolas como um grupo ela precisa colocá-los em uma relação de inclusão hierárquica, que significa que ela inclui mentalmente um em dois, dois em três e assim sucessivamente.

    A teoria do número de Piaget se opõe à hipótese comum de que os conceitos numéricos podem ser ensinados pela transmissão social, especialmente o ato de ensinar as crianças a contar.

    Conforme Kamii (1990, p. 25):

    As pessoas que acreditam que os conceitos numéricos devem ser ensinados através da transmissão social falham por não fazerem a distinção fundamental entre o conhecimento social e o lógico-matemático. No conhecimento lógico-matemático, a base fundamental do conhecimento é a própria criança, e absolutamente nada arbitrário neste domínio. Por exemplo 2 + 3 dá o mesmo resultado em todas as culturas. Na verdade, toda cultura que construir algum sistema de matemática terminará construindo exatamente a mesma matemática, porque este é um sistema de relações no qual absolutamente nada é arbitrário.

    O fato de que crianças pequenas não conservam os números antes dos cinco anos prova que o número é algo que é construído individualmente por muitos anos através da criação e coordenação de relações e que não é concebido inatamente.

    Por causa desta construção individual do número é que vemos a seqüência do desenvolvimento sintetizada da seguinte forma:

    – No nível I a criança não consegue fazer um conjunto que tenha o mesmo número que outro;

    – No nível II ela já consegue fazer um conjunto com o mesmo número, no entanto não consegue conservar a igualdade numérica de dois conjuntos;

    – No nível III ela já consegue conservar os números. Já construiu uma estrutura numérica que se tornou forte o suficiente para torná-la apta a ver objetos numericamente, em vez de espacialmente.

    Quanto aos educadores cabe o papel de favorecer o desenvolvimento desta estrutura ao invés de tentar fazer com que as crianças deem respostas certas e superficiais na tarefa de conservação.

    Piaget declara que o objetivo da educação deve estar centrada na autonomia da criança. E isto implica em não exigir que elas digam coisas nas quais elas não acreditam. Que é o caso que acaba por acontecer quando as escolas tradicionalmente ensinam através da obediência, através de notas. Todos estes procedimentos acabam por atrapalhar o desenvolvimento da autonomia das crianças.

    Este desempenho da escola acaba por refletir a diante quando alunos universitários demonstram não estarem preparados para serem críticos.

    As pesquisas mostram que o meio ambiente pode agilizar ou retardar o desenvolvimento lógico-matemático. (KAMII, 1990, p. 38)

    A criança de sete ou oito anos após ter construído o conhecimento lógico-matemático consegue representar esta idéia através de símbolos ou com signos.

    Piaget em sua teoria difere os símbolos dos signos porque os símbolos são criados pela criança e mantêm uma semelhança figurativa dos objetos.

    Muitos professores acreditam que ensinando as crianças a contar e a escrever os numerais estará ensinando conceitos numéricos o que é um equívoco, pois na verdade está apenas fazendo com que ela decore os números ao invés de construir a estrutura mental do número. Não que não seja bom para a criança aprender a contar e escrever numerais se isto lhe for de seu interesse, mas só isto não basta.

    Existem muitas maneiras de fazer com que um ambiente torne-se facilitador do conhecimento lógico-matemático. Kamii (1990) diz que: o meio ambiente pode proporcionar muitas coisas, que, indiretamente, facilita o desenvolvimento do conhecimento lógico-matemático. O ensino indireto pode variar do ato de encorajar as crianças a colocar todos os tipos de coisas em todas as espécies de relações, até pedir-lhes que peguem tantos pratos quantas são as pessoas em suas mesas.

    As relações são criadas pela própria criança. É algo que faz parte de seu processo de construção. Agora, o professor tem um papel muito importante neste desenvolvimento e deve estar atento para propiciar a criação de um ambiente material e social que encoraje a autonomia e o pensamento das crianças.

    Quando um adulto consegue criar um ambiente que indiretamente encoraje o pensamento das crianças acaba por surpreender-se com a quantidade de relações que elas por si acabam por demonstrar.

    As situações de conflito são ótimos momentos para colocar as coisas em relações e desenvolver a mobilidade e a coerência do pensamento. Se ao contrário de ser reprimida, a criança for encorajada a discutir ou justificar uma decisão estará desenvolvendo de uma maneira indireta o seu pensamento lógico. As crianças criadas em um ambiente repressor, mal sabem as famílias, o quanto têm a perder.

    O pensamento numérico pode ser desenvolvido naturalmente, sem ser necessário que a professora determine o horário de matemática. Já que o papel do professor é encorajar a autonomia da criança, então é muito mais interessante que seja observado o momento em que a criança demonstra interesse, e aí encorajá-las a pensar sobre quantidades.

    Existe uma diferença entre contagem mecânica e uma contagem que a própria criança tenha escolhido para resolver um determinado problema real. Normalmente antes dos sete anos de idade, a correspondência um-a-um, a cópia da configuração espacial, ou mesmo estimativas imperfeitas representam procedimentos mais confiáveis para a criança. Depois que a criança constrói a estrutura mental do número e assimila as palavras a esta estrutura, a contagem torna-se um instrumento confiável.

    O professor deve ser cuidadoso para não insistir que a criança dê respostas corretas a uma pergunta. Estas perguntas devem ser feitas de maneira casual para fazer com que as crianças pensem numericamente se isso lhes interessar. Deixar as crianças decidirem sobre quando usar a contagem é o melhor caminho na prevenção de imposições e numa fundamentação mais lógica para a aprendizagem futura.

    Kamii (1990, p. 58), afirma que:

    As crianças não aprendem conceitos numéricos com desenhos. Tampouco aprendem conceitos numéricos meramente pela manipulação de objetos.

    Elas só conseguem adquirir conceitos numéricos após construir esses conceitos pela abstração reflexiva à medida que agem mentalmente sobre os objetos.

    Uma criança que pensa na quantidade de pratos que terá que colocar na mesa de acordo com o número de pessoas que terá para o almoço, certamente é bem diferente daquela que está fazendo uma contagem porque a mãe mandou, ou disse: são seis pratos.

    Um bom princípio no âmbito lógico-matemático é o de evitar ficar reforçando erros e acertos, em vez disso encorajar as crianças em trocar ideias com seus colegas.

    Quando uma criança percebe que um colega encontrou uma resposta diferente da sua, ela normalmente é motivada a pensar outra vez sobre o problema, ou encontrar argumentos para defender sua resposta.  É por este motivo que a confrontação social entre colegas é um excelente método para o desenvolvimento do conhecimento lógico-matemático. É muito mais interessante para a criança ser corrigida por um de seus colegas durante um jogo do que aprender através de cadernos e exercícios.

    Já que o erro é um reflexo do que a criança está pensando, o professor tem um papel de descobrir como é que a criança chegou até um determinado resultado. Descobrindo isto é mais fácil fazer a correção do raciocínio da criança do que simplesmente corrigir suas respostas.

    Por exemplo é comum entre as crianças em nível pré-operacional encontrar dificuldade de considerar-se tanto como quem conta, quanto como quem é contado. E assim é quando contam os outros se esquecem de contar a si mesma. O que acaba acontecendo com este processo é que quando vai distribuir algum material sempre acaba faltando. Então neste momento é importante a professora estar alerta e fazer uma pergunta de uma maneira casual: – “Você contou a si mesmo?”

    Desta forma a professora estará atuando um papel significante no pensamento da criança não simplesmente reforçando seus erros.

    Referência Bibliográfica

    KAMII, Constance.  A criança e o número: implicações da teoria de Piaget para atuação junto a escolares de 4 a 6 anos. Campinas, São Paulo : Papirus,  1990.

    Aqui neste site eu compartilho diversos jogos para estimular a construção do número. Um deles é o jogo Maior ou Menor? Ele está disponível em arquivo digital formato PDF e é gratuito (enviado por e-mail). Para adquirir clique no link abaixo.