Gente, sabemos que a leitura faz parte de uma cultura intelectual abstrata pois envolve compreeensão e interpretação de ideias emitidas por símbolos gráficos. E começamos a apresentar às crianças quando elas ainda estão explorando o mundo no concreto para compreendê-lo. Para algumas crianças, especialmente as que apresentam déficits cognitivos, esta tarefa pode ser muito penosa. Então, se pudermos com maior frequência deixar presente o recurso lúdico (jogos e brincadeiras) vamos auxiliar esse processo de transição do concreto para o abstrato.
A criança que participa de uma atividade que envolva ação por meio do seu corpo percebe sentido pois o seu corpo é concreto e comunicativo. A atividade que eu trouxe como sugestão hoje tem o objetivo de aproveitar o brincar que está impregnado no corpo da criança nos seus sentidos mais concretos para a aprendizagem do alfabeto.
Sugestão de materiais:
um tapete ou TNT que tenha espaço para duas crianças;
cartas com imagens de crianças representando as letras do alfabeto (deixei na nossa loja o arquivo PDF com as cartas. É enviado por e-mail. Para adquirir clique no link disponível no final deste post);
uma sacola pequena;
papel/caderno, lápis, borracha.
Procedimento:
Uma criança fecha os olhos para pegar uma carta da sacola. Sobre o tapete, faz o movimento apresentado na carta para representar uma letra, ou, também pode pensar em outra maneira de representar a letra através do corpo. Por exemplo, usando as mãos. Se for necessário, convida um(a) amigo(a) para ajudar. As demais crianças deverão tentar descobrir qual letra está sendo representada e escrevem os seus palpites em uma folha. Só depois é revelado qual é a letra. Ou seja, é como se fosse um ditado de letras com o corpo.
Em um momento seguinte pode ser sugerido a escrita de palavras. 🙂
Importante: É necessário que na sala tenha exposto o alfabeto para que as crianças possam comparar.
Então, o que vocês acharam? Digam pra mim!!! Fico tããão feliz quando vocês falam comigo!
Beijão e tchau
Clique abaixo para adquirir o arquivo PDF contendo:
O QUE É? É a aptidão para refletir e mobilizar conscientemente os sons da fala.
Seu desenvolvimento é de suma importância para sujeitos em processo de alfabetização. Seja ele criança, adolescente ou adulto. Inclusive, segundo pesquisas realizadas – dentre elas, as de Alessandra G. S. Capovilla e Fernando C. Capovilla (2000), “Efeitos do treino de consciência fonológica em crianças com baixo nível sócio-econômico” -, ficou evidenciado que os indivíduos que passam por um treino para desenvolver a consciência fonológica têm seu desempenho aumentado no processo de alfabetização em relação aos indivíduos que não tenham passado por esse treino.
Há diferentes níveis de consciência fonológica, dentre eles estão: consciência de rima, consciência de aliteração, consciência de sílabas, consciência fonêmica. Estudos evidenciam que alguns destes níveis podem ser adquiridos espontaneamente, enquanto que outros têm necessidade de ensino formal. É o caso da consciência fonêmica que, inclusive, é um dos últimos níveis alcançados. O aprendiz quando chega neste nível, possivelmente, estará apresentando hipótese de escrita alfabética.
Um outro estímulo importante para que o aprendente consiga compreender o princípio alfabético, ou seja, que as letras que constituem nossa língua escrita representam os sons individuais da nossa língua falada, é o conhecimento da relação fonema x grafema.
A consciência fonológica e o conhecimento das correspondências entre grafemas e fonemas estão para a alfabetização assim como as vitaminas e sais minerais estão para a saúde. (CAPOVILLA e CAPOVILLA, 2007, p. xvi)
Todo espaço alfabetizador precisa ter constantemente estímulos que favoreçam a compreensão por parte do aprendente que a escrita tem relação direta com a nossa fala.
Soares (2016, p. 124) afirma:
Para aprender a ler e escrever é necessário que o aprendiz volte sua atenção para os sons da fala, e tome consciência das relações entre eles e a sua representação gráfica […]
Portanto, é preciso que o professor alfabetizador busque um conhecimento aprofundado sobre este tema através de literaturas específicas para poder facilitar a caminhada em busca da leitura e da escrita. Com certeza os jogos e brincadeiras com este intuito têm muito a contribuir.
Finalizo este texto na expectativa de que as informações aqui compartilhadas tenham de alguma forma contribuído.
Um forte abraço
REFERÊNCIAS:
CAPOVILLA, Alessandra Gotuzo Seabra; CAPOVILLA, Fernando César. Problemas de leitura e escrita: como identificar, prevenir e remediar numa abordagem fônica. 5. ed. São Paulo: Memnon, 2007.
CAPOVILLA, Alessandra Gotuzo Seabra; CAPOVILLA, Fernando César. Efeitos do treino de consciência fonológica em crianças com baixo nível sócio-econômico. Scielo Brasil, Porto Alegre, 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0102-79722000000100003&script=sci_arttext>. Acesso em 08 fevereiro 2011.
SOARES, Magda. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Contexto, 2016.
Aqui no site eu compartilho vários jogos que podem contribuir no desenvolvimento da consciência fonológica. Um exemplo é o jogo Revele a palavra (som inicial). Clique no link abaixo para mais detalhes.
É comum nos primeiros registros escritos observarmos as crianças escrevendo letras, números e palavras de trás para frente (veja o vídeo no final deste post). Por que isto acontece? Em primeiro lugar, trata-se de um fato comum no processo de aprendizagem da linguagem escrita porque nas primeiras tentativas a criança ainda não sabe todas as regularidades. Por exemplo: em nossa cultura se lê e se escreve da esquerda para a direita, ao contrário de outras culturas como a árabe e a hebraica que escrevem da direita para a esquerda, ou ainda os chineses, que escrevem de cima para baixo.
Também é necessário compreender que a criança em fase de alfabetização está adquirindo a noção de direita e esquerda e as áreas cerebrais responsáveis por noções visoespaciais estão em processo de maturação. Jogos e brincadeiras que envolvam principalmente o corpo são de grande importância para a alfabetização porque a criança primeiro precisa construir estas noções em seu próprio corpo.
De qualquer forma, nesses primeiros passos no caminho da alfabetização, é frequente os pais ficarem angustiados ao observarem estas escritas espelhadas acompanhadas também de falta de letras ou mistura de letras e números. O ideal é deixar seus filhos fazerem suas tentativas, pois as crianças, conforme pesquisas realizadas por Emília Ferreiro e Ana Teberosky (pesquisadoras reconhecidas internacionalmente por seus trabalhos sobre alfabetização), começam a construir a língua escrita muito antes de entrarem no ensino formal.
De acordo com Zorzi (2000):
“Por muito tempo e, de modo bastante insistente, temos sido levados a ver, nos erros e enganos que as crianças fazem ao escrever, indícios de distúrbios e patologias. Os espelhamentos de letras são um exemplo típico desta maneira, até mesmo parcial e distorcida, de compreendermos o que é a aprendizagem.”
As crianças podem, a princípio, além da escrita espelhada, escrever “formiga” com poucas letras e “boi” com muitas. É comum justificarem que formiga é pequena, logo precisa de poucas letras, exemplo: CFAO. Já o boi é grande, então precisa de muitas letras: JAJNSHSJAKOV. Em outros casos, elas utilizam as letras do próprio nome em ordem diferente para muitas palavras. Mais adiante passam por outra fase e então escrevem uma letra para cada vez que pronunciam um som.
E assim a criança segue gradualmente em sua investigação, até atingir a escrita convencional.
Não existe criança que não sabe nada sobre a escrita. O que acontece é que a criança pensa sobre a escrita formulando hipóteses sobre ela, para compreender o que a mesma significa. Isto não quer dizer que ela não precisa de um mediador para aprender a ler e escrever. A ação de um mediador é imprescindível para fazer com que a hipótese da criança entre em conflito e assim proporcione o seu avanço.
Feuerstein (1980 apud Beyer, 1996, p. 75) diz:
Por meio do conceito da experiência da aprendizagem mediada (EAM) nós nos referimos à forma como os estímulos emitidos pelo meio são transformados por um agente ‘mediador’, usualmente um pai, um irmão ou outra pessoa do círculo da criança. Este agente mediador, motivado por suas intenções, cultura e envolvimento emocional, seleciona e organiza o mundo dos estímulos para a criança. O mediador seleciona os estímulos que são mais apropriados e então os filtra e organiza; ele determina o surgimento ou desaparecimento de certos estímulos e ignora outros. Através desse processo de mediação, a estrutura cognitiva da criança é afetada.
Mas, muitas vezes, quando se ouve dizer que uma criança de 5 anos está lendo e escrevendo, logo vem aquela preocupação: será que meu filho de 6 anos tem problemas? Neste caso é melhor agir com bom senso, respeitando o ritmo de cada um. A escola deve ser parceira dos pais, dizendo-lhes quando percebe algo que mereça mais atenção.
Zorzi (2000) também comenta:
Estamos, como adultos, fortemente contaminados com noções rígidas de “certo” e “errado”: se a criança está agindo ou pensando da mesma forma que nós, então ela sabe, ela está certa, está aprendendo. Caso contrário, se ela assimila, ou entende uma situação de uma maneira distinta da nossa, que não está de acordo com nossas concepções e crenças, então ela está errada. Não está aprendendo. E, se não está aprendendo, então deve ter dificuldades, problemas, e assim por diante.
Há uma preocupação exagerada para que se leia cada vez mais cedo. O mais sensato é baixar a ansiedade, acompanhar o desenvolvimento da criança, confiar na escola do seu filho e proporcionar um ambiente rico em leitura e escrita, regado com muita paciência e persistência.
No mais é curtir e guardar estas primeiras tentativas de escrita com o mesmo valor dado às primeiras palavras e os primeiros passos.
Olhem que LINDO vídeo eu recebi!!! Ilustra exatamente o tema abordado. Artur aos 4 anos e 5 meses escreveu seu nome assim: P.S. A escrita espelhada é comum até a idade de 7-8 anos. Se, entretanto, mesmo recebendo estímulo e ensino adequados, ainda assim ela estiver apresentando, além da escrita espelhada, dificuldade na aprendizagem da leitura e escrita, considero prudente uma avaliação psicopedagógica.
REFERÊNCIAS
BEYER, Hugo Otto. O fazer psicopedagógico: a abordagem de Reuven Feuerstein a partir de Piaget e Vygotsky. Porto Alegre: Mediação, 1996.
ZORZI, Jaime Luiz. As inversões de letras na escrita o “fantasma” do espelhamento. 2000. Disponível em < http://www.filologia.org.br/soletras/15sup/As%20invers%C3%B5es%20de%20letras%20na%20escrita-%20o%20’fantasma’%20do%20espelhamento.pdf>. Acesso em 11 fevereiro 2011.
OBRAS CONSULTADAS
FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.
MACEDO, Lino de; NORIMAR, Ana Lúcia Sícoli Petty, PASSOS, Norimar Christe. Os jogos e o lúdico na aprendizagem escolar. Porto Alegre: Artmed, 2005.
ZORZI, Jaime Luiz. Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: questões clínicas e educacionais. Porto Alegre: Artmed, 2003.
Clique no link abaixo para ter acesso a uma apostila com sugestões de atividades lúdicas para intervenção da escrita espelhada.