Diagnóstico: Dislexia. E agora?

Para compreender a dislexia e suas manifestações, é importante, antes, entender de forma resumida como o cérebro realiza o processo de leitura e escrita.

Como o cérebro lê e escreve palavras

As principais áreas envolvidas na linguagem estão localizadas, em sua maioria, no hemisfério esquerdo do cérebro. Entre elas, destacam-se:

  • Área de Broca: relacionada à produção da linguagem, incluindo a organização motora da fala e da escrita.
  • Área de Wernicke: relacionada à compreensão da linguagem e à decodificação do que lemos e ouvimos.

Essas áreas trabalham em conjunto para que a leitura e a escrita aconteçam de forma eficiente.

As duas vias da leitura: fonológica e lexical

O cérebro utiliza dois caminhos principais para ler e escrever palavras:

Via fonológica

É a via mais utilizada no início da alfabetização. Também entra em ação quando nos deparamos com palavras novas, que ainda não reconhecemos automaticamente.

Nela, a leitura acontece por meio da correspondência entre letras e sons.

Via lexical

Essa via se fortalece com a experiência leitora. Aqui, o cérebro reconhece a palavra como uma “imagem armazenada”, permitindo uma leitura mais rápida e automática.

É como se tivéssemos um “banco de palavras conhecidas” na memória.

Leitor fluente

Um leitor fluente utiliza as duas vias:

  • a fonológica, diante de palavras novas;
  • a lexical, diante de palavras já conhecidas.

Um exemplo simples

Leia a palavra abaixo:

estearamidopropil

Agora leia:

primeiramente

Se você não tem familiaridade com a primeira palavra, provavelmente a leitura foi mais lenta, pois exigiu decodificação (via fonológica). Já a segunda palavra tende a ser lida com mais fluidez, pois já faz parte do repertório lexical da maioria dos leitores.

O que acontece na dislexia

A dislexia é um transtorno específico da aprendizagem de origem neurobiológica, que pode impactar o funcionamento de uma ou ambas as vias de leitura (fonológica e lexical).

Segundo Rotta et al. (2006), algumas manifestações podem incluir:

  • leitura e escrita com baixa precisão ou difícil compreensão;
  • confusões entre letras com orientação espacial semelhante (p/q, b/d);
  • confusões entre sons parecidos (b/p, d/t, g/c);
  • inversões de sílabas ou palavras;
  • substituições por palavras de estrutura semelhante;
  • omissões ou acréscimos de letras e sílabas;
  • repetições durante a leitura ou escrita;
  • segmentação incorreta de palavras;
  • dificuldade de compreensão do texto lido.

Atenção: nem todo erro é dislexia

É importante considerar que muitos desses comportamentos podem aparecer naturalmente no início do processo de alfabetização.

A diferença central está na persistência das dificuldades ao longo do tempo, mesmo após oportunidades consistentes de aprendizagem.

Em geral, a dislexia se caracteriza quando essas dificuldades permanecem além do período esperado de consolidação da leitura e escrita, podendo se estender por anos escolares.

Diagnóstico: um processo cuidadoso

A avaliação da dislexia é multidisciplinar e baseada na exclusão de outras causas.

Envolve profissionais como:

  • psicopedagogo;
  • fonoaudiólogo;
  • neuropsicólogo;
  • neurologista;
  • psicólogo.

Não existe um único teste que determine o diagnóstico. O que se faz é uma investigação ampla do desenvolvimento e do percurso de aprendizagem da criança.

Também é considerado importante que a criança tenha passado por um período consistente de alfabetização antes da conclusão diagnóstica.

Intervenção e caminhos possíveis

A intervenção na dislexia deve ser estruturada, contínua e baseada em estratégias que favoreçam o desenvolvimento das habilidades envolvidas na leitura e escrita.

Entre os principais focos de trabalho, destaca-se a estimulação da consciência fonológica, que envolve a capacidade de perceber, refletir e manipular os sons da fala. Esse é um dos pilares fundamentais para o avanço na alfabetização.

Além disso, outras habilidades importantes podem ser trabalhadas de forma integrada, como:

Essas intervenções podem ser realizadas de maneira sistemática, respeitando o ritmo de aprendizagem de cada criança e utilizando recursos lúdicos e significativos.

Quanto mais precoce for a intervenção, maiores tendem a ser os ganhos no desenvolvimento.

E depois do diagnóstico?

A dislexia não tem “cura”, mas isso não significa ausência de possibilidades.

Com intervenção adequada, acompanhamento contínuo e estratégias bem direcionadas, muitas dificuldades podem ser significativamente reduzidas.

A criança (ou adulto) com dislexia não é limitada em sua capacidade intelectual. Ao contrário: muitas vezes desenvolve estratégias próprias para lidar com suas dificuldades e pode alcançar autonomia e sucesso acadêmico e profissional.

Um olhar que vai além do diagnóstico

Mais do que focar na dificuldade, é essencial olhar para a pessoa como um todo.

Não se atende “um disléxico”, mas uma criança, um adolescente ou um adulto com sua história, potencialidades e formas próprias de aprender.

Uma história que nos convida à reflexão

Para encerrar, compartilho um trecho relatado por Ronald D. Davis, ambientado em 1949:

O relógio na sala de aula marca o tempo lentamente: tic… tac… tic… tac…

O menino sofre em silêncio, tentando se manter invisível, enquanto carrega o peso de não conseguir acompanhar o ritmo da sala.

Entre medo, vergonha e incompreensão, ele apenas pede: “Por favor… que isso acabe logo.”

No final, ele diz algo que revela muito mais do que um erro:
“Eu pedi para Deus não me fazer sentar no canto nunca mais.”

(DAVIS, Ronald D., O dom da dislexia)

Quero acreditar que situações como essa não façam mais parte da realidade escolar atual. Ainda assim, sabemos que o sentimento de incapacidade pode nascer de muitas formas e nem sempre precisa de palavras duras. Às vezes, um olhar já é suficiente.

Referências Bibliográficas

ROTTA, N. T. et al. Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2006.

MOOJEN, S. M. P. A escrita ortográfica na escola e na clínica: teoria, avaliação e tratamento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

DAVIS, R. D. O dom da dislexia. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

Solange Moll

Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Formação em Avaliação Dinâmica do Potencial de Aprendizagem e em PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) pelo CDCP (Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná), Centro de Treinamento Autorizado pelo Hadassah Wizo-Canada Reserach Institute e pelo ICELP – The Internacional Center for the Enhancement of Learning Potential, Jerusalém – Israel. Experiência em alfabetização e dificuldades de aprendizagem. Psicomotricista Relacional. Mãe Atípica. Apaixonada por desenvolver jogos e compartilhar com vocês.

Comentários

14 respostas para “Diagnóstico: Dislexia. E agora?”

Deixe um comentário