TDAH, quem tu és?

“Não sossega, é impulsivo, não presta atenção, está sempre metido em confusão.”

“Se fosse meu filho, eu mostrava quem manda. Isso é falta de limite.”

“Não sabemos mais o que fazer.”

Esses são relatos frequentes de professores, familiares e cuidadores que convivem com crianças com TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade.

O que geralmente aparece, em primeiro plano, é o comportamento. Mas, quando olhamos com mais cuidado, percebemos que estamos diante de algo mais complexo: uma forma específica de funcionamento neuropsicológico que impacta atenção, impulsividade e autorregulação emocional.

E isso atravessa diferentes espaços da vida da criança e não apenas a escola, mas também a convivência familiar, social e afetiva.

O que é o TDAH?

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento amplamente estudado na literatura científica. Ele se caracteriza, principalmente, por dificuldades persistentes relacionadas à atenção, hiperatividade e impulsividade, em intensidade acima do esperado para a faixa etária e contexto da criança.

Do ponto de vista neurobiológico, pesquisas indicam alterações no funcionamento de circuitos cerebrais ligados às funções executivas, especialmente na região do córtex pré-frontal,  área responsável pelo planejamento, controle inibitório, organização do pensamento e regulação do comportamento.

Também há evidências da participação de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, que influenciam diretamente os sistemas de motivação, recompensa e atenção sustentada.

Outro aspecto importante é a predisposição genética, frequentemente observada em histórico familiar semelhante.

No entanto, é fundamental compreender: o diagnóstico não se baseia apenas em comportamento isolado, mas em um conjunto consistente de sinais, ao longo do tempo e em diferentes contextos.

Comportamento não é diagnóstico

Um dos pontos mais importantes — e frequentemente negligenciados — é a diferença entre comportamento e transtorno.

Nem toda criança agitada, dispersa ou desorganizada apresenta TDAH. A infância, por si só, já é um período marcado por impulsividade, curiosidade intensa, variações atencionais e busca por movimento.

Além disso, o comportamento infantil é profundamente influenciado por fatores emocionais, relacionais e pedagógicos.

Uma criança pode apresentar desatenção, por exemplo, quando:

  • não compreende o que está sendo ensinado;
  • está em um ambiente pouco estimulante ou excessivamente exigente;
  • vive situações de estresse emocional;
  • não encontra sentido na atividade proposta;
  • ou ainda está tentando comunicar, de forma indireta, uma dificuldade de adaptação.

Por isso, o diagnóstico exige cuidado, tempo e avaliação especializada. Rotular precocemente pode reduzir uma criança a uma explicação única para algo que, muitas vezes, é multifatorial.

O risco do rótulo e o lugar do olhar adulto

Quando uma criança passa a ser definida apenas por seu comportamento “o desatento”, “o bagunceiro”, “o impossível”, … algo importante se perde: a possibilidade de compreensão.

O rótulo, ainda que muitas vezes nasça da exaustão, tende a congelar a criança em uma identidade fixa, enquanto ela está em pleno processo de desenvolvimento.

Em atendimentos clínicos e educacionais, não é raro ouvir expressões que revelam sofrimento por trás do comportamento. Um adolescente certa vez me disse:

“Já que eu não sou o melhor, então vou ser o pior.”

Essa frase escancara algo essencial: muitos comportamentos desafiadores não são apenas “falta de controle”, mas formas distorcidas de pertencimento, visibilidade e reconhecimento.

Toda criança precisa ocupar um lugar no olhar do outro. Quando esse lugar não é construído de forma positiva, ela pode buscá-lo de maneiras disfuncionais.

Aprendizagem, desenvolvimento e descompasso

Outro ponto fundamental é compreender que o processo de aprendizagem não ocorre de maneira uniforme.

Crianças apresentam ritmos diferentes de desenvolvimento cognitivo, emocional e atencional. Quando há um descompasso contínuo entre o que é exigido e o que a criança consegue realizar naquele momento, é comum surgirem reações como:

  • desmotivação;
  • agitação;
  • recusa de atividades;
  • comportamentos de oposição;
  • ou dispersão constante.

Essas respostas não devem ser interpretadas automaticamente como desinteresse ou indisciplina, mas como sinais de que algo precisa ser ajustado na mediação pedagógica.

A aprendizagem acontece na relação entre desafio e possibilidade. Quando essa equação se rompe, o comportamento muitas vezes fala mais alto do que a linguagem verbal.

Caminhos possíveis na prática educativa e familiar

Apesar da complexidade do tema, existem estratégias que podem contribuir significativamente para o desenvolvimento e a convivência com crianças com ou sem TDAH.

• Intervenções mais focadas e progressivas

Trabalhar uma orientação por vez ajuda a criança a organizar melhor sua ação e reduz sobrecarga cognitiva.

• Correções individualizadas

Evitar exposição pública preserva a autoestima e favorece a construção de vínculo e confiança.

• Coerência entre discurso e prática

A criança aprende muito mais pelo que observa do que pelo que escuta. O comportamento do adulto é uma referência constante de autorregulação.

• Limites claros, mas possíveis de cumprir

Promessas e ameaças sem sustentação enfraquecem a previsibilidade do ambiente, elemento essencial para a segurança emocional.

• Reconhecimento real e específico

Elogios genéricos têm pouco impacto. O reconhecimento verdadeiro ajuda a criança a construir consciência de suas competências.

• Ajustes na expectativa e no contexto

Nem sempre a mudança está na criança. Muitas vezes, está na forma como o ambiente está organizado para recebê-la.

• Apoio quando necessário

Reconhecer limites e buscar ajuda especializada é parte do cuidado — não um sinal de incapacidade.

Considerações finais

Falar sobre TDAH é falar sobre ciência, mas também sobre olhar humano. É compreender que, entre o comportamento visível e a causa invisível, existe sempre uma história em construção.

Antes de qualquer rótulo, existe uma criança em desenvolvimento tentando, do seu jeito, se organizar no mundo.

Se este texto contribuiu de alguma forma para a reflexão, será um prazer saber sua opinião.

Um forte abraço.

Obras consultadas

BEYER, Hugo Otto. O fazer psicopedagógico: a abordagem de Reuven Feuerstein a partir de Piaget e Vygotsky. Porto Alegre: Mediação, 1996.

FERNÁNDEZ, Alicia. Os idiomas do aprendente. Porto Alegre: Artmed, 2001.

MATTOS, Paulo. No mundo da lua. São Paulo: Casa Leitura Médica, 2008.

SILVA, Ana Beatriz B. Mentes inquietas. Rio de Janeiro: Napades, 2003.

Sugestão prática

No site, compartilho jogos que podem contribuir para o desenvolvimento da atenção, percepção, autorregulação e funções executivas de forma lúdica. Muitos são gratuitos.

Um abraço,

Sol

Solange Moll

Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Formação em Avaliação Dinâmica do Potencial de Aprendizagem e em PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) pelo CDCP (Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná), Centro de Treinamento Autorizado pelo Hadassah Wizo-Canada Reserach Institute e pelo ICELP – The Internacional Center for the Enhancement of Learning Potential, Jerusalém – Israel. Experiência em alfabetização e dificuldades de aprendizagem. Psicomotricista Relacional. Mãe Atípica. Apaixonada por desenvolver jogos e compartilhar com vocês.

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