Categoria: Artigos

  • TDAH, quem tu és?

    TDAH, quem tu és?

    A Professora diz: “Não sossega, é impulsivo, não presta atenção, está sempre metido em confusão.”

    Algumas pessoas comentam: “Se fosse meu filho, eu mostrava quem é que manda. Isso é falta de chinelo na bunda!

    Os pais desabafam: “Não sabemos mais o que fazer.”

    Esses relatos são comuns vindos de pessoas que convivem com crianças com TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade.  Como o próprio nome diz: transtorna a vida da pessoa. E cabe ressaltar que o transtorno não é só escolar, mas também em casa, no trabalho, nas amizades, enfim, afeta a vida do indivíduo em sua totalidade.

    TDAH é um dos transtornos mais estudados no mundo. Segundo especialistas, o controle na liberação de substâncias químicas, entre elas dopamina e noradrenalina, estão alterados. Essas substâncias são neurotransmissores que atuam principalmente no lobo frontal do cérebro.

    É também frequente que pais se reconheçam nas atitudes do filho, porque se trata de um transtorno com predisposição genética.

    No entanto, precisamos de muita cautela ao apontar o dedo para uma criança, dizendo que ela que é hiperativa. Primeiro porque somente o médico pode diagnosticar e também porque podemos erroneamente “rotular” crianças que somente estão apresentando “sintomas” decorrentes, por exemplo, de um esforço para chamar a nossa atenção. Todos temos necessidade de sermos reconhecidos, de ocupar um espaço.  Em meus atendimentos um adolescente uma vez desabafou: “Já que eu não sou o melhor, então vou ser o pior”. Esta foi a maneira, equivocada, que ele encontrou de ser reconhecido por algo, de pedir socorro.

    Um outro ponto que é importante refletir é que a aprendizagem acontece de formas e ritmos diferentes, então, se o conteúdo está muito acima do que a criança tem condições de realizar naquele momento, e se isso se repete diariamente, dia após dia, parece-me evidente que o desinteresse será gerado.

    Ai… ai… quanta responsabilidade!

    Mas de qualquer maneira, existem algumas formas de lidar com as crianças que podem melhorar a convivência. Vou citar algumas:

    • Discutir individualmente atitudes inadequadas que devam ser evitadas. É produtivo escolher uma atitude de cada vez;
    • Chamar a atenção discretamente. Todos nós temos dificuldades e certamente não gostaríamos de ser chamados atenção na frente de outros. Por que então fazemos isso com as crianças?
    • Para exigir da criança controle e bom comportamento, precisamos primeiro dar o exemplo.  As crianças aprendem muito mais com o que fazemos do que com o que dizemos. Então gritando e perdendo a paciência vamos estar ensinando o quê?
    • Só prometer o que pode e vai cumprir. De nada adianta ameaçar bater, expulsar de casa, quando você sabe que é seu filho, sua responsabilidade e não fará isso;
    • Ninguém é de ferro, e falar certamente é sempre mais fácil. Mas vamos ser sinceros, têm dias que a gente não está bem, então vale a dica: evite entrar em confronto. E se a situação está insustentável é melhor reconhecer que você precisa de ajuda;
    • Elogios sinceros é a melhor dica que posso deixar. Tente identificar o que a criança gosta e se sai bem fazendo. Foque nisso, valorize o desejo dela! Falei anteriormente neste texto, mas vou repetir: todos queremos ocupar um espaço. Tire, livre a criança do rótulo de delinquente porque ela é um ser em desenvolvimento.

    A discussão pode ir longe, e se você que lê este texto quiser dar a sua opinião, estou à disposição. Espero ter contribuído de alguma forma.

    Um forte abraço.

    OBRAS CONSULTADAS

    BEYER, Hugo Otto. O fazer psicopedagógico: a abordagem de Reuven Feuerstein a partir de Piaget e Vygotsky. Porto Alegre: Mediação, 1996.

    FERNÁNDEZ, Alicia. Os idiomas do aprendente. Porto Alegre: Artmed, 2001.

    MATTOS, Paulo. No mundo da lua. São Paulo: Casa Leitura Médica, 2008.

    SILVA, Ana Beatriz B. Mentes inquietas. Rio de Janeiro: Napades, 2003.

    Aqui neste site eu compartilho diversos jogos que podem contribuir no desenvolvimento da atenção, percepção. Um exemplo é o jogo Estacione Corretamente. Clique no link abaixo para mais informações.

  • Diagnóstico: Dislexia. E agora?

    Diagnóstico: Dislexia. E agora?

    Para responder a pergunta que consta no título deste texto é importante primeiro uma explicação, mesmo que resumida, de como se processa a leitura e a escrita de palavras.

    As principais áreas responsáveis pela linguagem localizam-se no hemisfério esquerdo do nosso cérebro: área de Broca e área de Wernicke.  A área de Broca é responsável pela parte motora tanto da fala quanto da escrita. Já a área de Wernicke é responsável pela compreensão, pela decodificação.

    Para a escrita e a leitura de palavras acontecer existem duas vias: a Via fonológica e a via Lexical. A Via Fonológica é utilizada no início da alfabetização e quando estamos diante de palavras novas.

    Conforme vamos nos tornando leitores e escritores mais fluentes utilizamos mais a via Lexical, pois nesta ficam armazenadas palavras que já conhecemos. É como se tivéssemos uma fotografia da palavra e por isso nos tornamos mais eficientes.

    Um leitor fluente utiliza as duas vias, a fonológica diante de palavras novas e a lexical diante de palavras conhecidas.

    Para vivenciar este fato, leia a palavra abaixo.

    estearamidopropil

    E agora leia esta palavra:

    primeiramente

    Caso você não trabalhe com produtos químicos, a leitura da primeira palavra foi um pouco mais lenta porque é uma palavra que não está armazenada em seu léxico e precisou recorrer a via fonológica. Já na leitura da segunda palavra foi mais rápida porque ela já está armazenada em seu léxico.

    Uma pessoa com dislexia, pode ter dificuldades na via fonológica, na lexical ou nas duas vias.

    De acordo com ROTTA et all (2006), a leitura e escrita de um disléxico podem apresentar:

    – leitura e escrita, muitas vezes incompreensíveis;

    – confusões de letras com diferente orientação espacial (p/q; b/d);

    – confusões de letras com sons semelhantes (b/p; d/t; g/c);

    – inversões de sílabas ou palavras (par/pra; lata/alta);

    – substituições de palavras com estrutura semelhante (contribuiu/ construiu);

    – supressão ou adição de letras ou de sílabas (caalo/cavalo);

    – repetição de sílabas ou palavras (eu jogo jogo bola);

    – fragmentação incorreta (querojo garbola);

    – dificuldade para entender o texto lido.

    Quem trabalha com alfabetização pode estar pensando: mas minhas crianças apresentam tudo isso! E é verdade. No início da alfabetização todos os itens citados podem ocorrer. No entanto, o que se percebe é que a criança com dislexia apresenta dificuldade em superar essa fase normal do período inicial da alfabetização.

    Então a criança pode estar com 9, 10 anos e ainda apresentar esses itens.

    A avaliação é multidisciplinar e de exclusão. O que isso significa? Para a avaliação é necessário uma equipe de psicopedagogo, fonoaudiólogo, neurologista e psicólogo. Ainda não existem testes específicos para o diagnóstico de dislexia, e o que se faz é excluir outros motivos quem podem estar interferindo na aprendizagem da leitura e escrita.

    Também é importante salientar que é preciso a criança ter passado dois anos por um processo rico em alfabetização e não ter obtido sucesso.

    Mas o que fazer quando o diagnóstico de dislexia é confirmado?

    Precisamos ser realistas e saber que dislexia é algo que não tem cura, propriamente dita. Mas com um trabalho a longo prazo e persistente muitas das dificuldades podem sim ser superadas. Também vale lembrar que ser disléxico não significa que a pessoa está condenada a um futuro incerto. Sabemos que a pessoa com dislexia é inteligente e cria estratégias para lidar com a sua dificuldade. E se receber intervenção adequada pode ser um excelente profissional e lidar com a sua vida de forma autônoma.

    Em meus atendimentos utilizo o método multissensorial e também aplicação do PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) que auxilia muito no controle da impulsividade, organização, concentração, percepção de detalhes, memória, noção do tempo, orientação espacial, pensamento lógico…

    Quanto antes iniciar o tratamento mais a criança será beneficiada.

    Também gosto de reforçar que não atendo o disléxico e sim a pessoa.

    Para encerrar, vou dividir com vocês uma história contada por Ronald D. Davis, ocorrida no ano de 1949.

    O relógio na parede da sala de aula bate cada vez mais devagar: Tic…tac…tic…tac…

    “Por favor depressa! Por favor depressa! Por favor…por favor… por favor depressa!” As palavras, apenas audíveis, são sussurradas pelo menino. Cada músculo em seu corpo está tenso. Seus dedos crispam e tremem. Seus joelhos, fortemente pressionados um contra o outro, chacoalham e batem nas paredes do canto. Ele se balança devagar, para frente e para trás, tomando todo cuidado para não deixar cair o lenço branco sobrado, seu rótulo de demérito, drapeado como uma bandeira no alto de sua cabeça.

    “Por favor… por favor!”, ele sussurra de novo. Depois prende fundo a respiração e se encolhe. Mas não adianta, nada adianta. Em poucos minutos começa, primeiro um fiozinho, depois tudo. Em silêncio, ele torce para que não haja tanto que faça uma poça no chão.

    Ele se inclina apertando com força o rosto contra o canto. Seus punhos se cruzam em X no colo, na esperança de esconder a mancha molhada. Agora, ele se alegra de não poder sair da escola junto com os outros garotos. Talvez todos tenham ido embora quando ele sair e ninguém vai ver; ninguém irá caçoar dele. Ele já havia tido essa esperança pelo menos umas cem vezes antes, mas quem sabe dessa vez ele não terá que ouvir aquelas palavras horríveis:

    “Retardado!”

    “Retardado!”

    “Olha o retardado.”

    “O retardado fez xixi na calça de novo.”

    Ele é tomado de sobressalto pelo sino que anuncia o término da aula por hoje. No canto, em meio a algazarra e a gritaria das crianças saindo, o menino fica sentado imóvel, desejando que ninguém olhe a sua direção. Se ele pudesse se tornar invisível, era o que faria. Só quando a sala fica silenciosa ele ousa se mexer, ele ousa fazer um ruído.

    À medida que o tumulto da saída vai se desfazendo, o tiquetaque do relógio vai se acelerando. Tic…tac, tic, tac!

    Apenas audível, o menino murmura uma coisa que só ele deveria ouvir.

    “Que foi que você disse?”, o vozeirão ressoa diretamente atrás dele.

    Se ele já não o tivesse feito, ele estaria se molhando todo agora. Ele se espreme no canto, o mais apertado que consegue, e tenta ficar tão pequeno quanto possível.

    Uma das mãos que o tinham posto naquele canto o agarra pelo ombro e o força a virar-se. “Que foi que você disse?”, a voz pergunta.

    “Eu pedi para Deus não me fazer sentar no canto nunca mais”

    (Ronald D. Davis)

    Quero e preciso acreditar que nos dias de hoje isso não acontece mais. No entanto, sabemos que para uma pessoa se sentir incapaz não é preciso chamá-la de retardada, muitas vezes basta um olhar.

    Referências:

    ROTTA, Newra Tellechea et all. Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar.  Porto Alegre: Artmed, 2006.

    MOOJEN, Sônia Maria Pallaoro. A escrita ortográfica na escola e na clínica: teoria, avaliação e tratamento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

    DAVIS, Ronald D. O dom da dislexia. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

    Neste site compartilho vários jogos que podem contribuir no desenvolvimento da alfabetização. Um exemplo é o jogo Revele a palavra (som inicial). Clique no link abaixo para mais detalhes.

  • Construção do número

    Construção do número

    Compreender o significado dos conceitos matemáticos e como eles são construídos pode ajudar o professor a entender as dificuldades encontradas por alguns alunos na aprendizagem matemática e a elaborar propostas pedagógicas adequadas à superação dessas dificuldades.

    Este texto apresenta uma síntese do livro A Criança e o Número de Constance Kamii. A autora fundamentada na teoria de Piaget, apresenta de uma maneira bem simples e abrangente como se processa a construção do número na criança.

    Piaget compreendeu dois tipos de conhecimento: o conhecimento físico e o lógico-matemático.

    A cor e o peso de uma bola é um exemplo de propriedade física, que estão na realidade externa do objeto e podem ser observados. A percepção de que esta bola cairá se soltarmos ao ar é um exemplo de conhecimento físico.

    Já se nós mostrarmos duas bolas com cores diferentes à uma criança, ao notar esta diferença (de cores) ela estará demonstrando um exemplo de conhecimento lógico-matemático. Esta diferença é uma relação criada mentalmente e só pode ser feita por cada indivíduo.

    A construção do conhecimento lógico-matemático é alcançado, por uma criança, com a coordenação das relações simples que a mesma tenha anteriormente criado entre os objetos, pois a fonte do conhecimento lógico-matemático é interna ao indivíduo. Ao contrário do conhecimento físico que é parcialmente externa ao indivíduo.

    Segundo Kamii (1990, p. 17, grifo do autor):

    Para a abstração das propriedades a partir dos objetos, Piaget usou o termo abstração empírica (ou simples). Para a abstração do número, ele usou o termo abstração reflexiva.”

    Quando uma criança focaliza uma certa propriedade de um objeto e ignora outras ela está fazendo uma abstração empírica. Já se a criança faz relações entre os objetos ela estará fazendo uma abstração reflexiva, que é uma construção feita pela mente, que vai além da simples representação de algo já existente no objeto.

    Apesar desta distinção entre a abstração empírica e a abstração reflexiva, Piaget afirma que no âmbito da realidade psicológica da criança uma abstração não existe sem a outra. Pois para que uma criança possa construir a relação diferente ela precisa observar propriedades de diferença entre os objetos. E também para construir o conhecimento físico ela necessita de um sistema de referência lógico-matemático que lhe permita relacionar novas observações com um conhecimento já existente.

    A criança elabora por abstração reflexiva dois tipos de relações entre os objetos para chegar ao número: uma é a ordem e a outra é a inclusão hierárquica.

    Piaget entendia por ordem a tendência comum entre as crianças de contar objetos saltando alguns ou contar o mesmo objeto mais de ma vez. Isto significa que a criança não sente a necessidade lógica de colocar objetos em uma determinada ordem para ter certeza de que não pulou nenhum objeto, ou contou duas vezes o mesmo objeto. Porém, a criança não precisa colocar objetos em uma ordem espacial para arrumá-los em uma relação organizada. O importante é que ela possa ordená-los mentalmente.

    Se a ordenação fosse a única operação mental da criança sobre os objetos, estes não poderiam ser quantificados, uma vez que a criança os consideraria apenas um de cada vez, em vez de um grupo de muitos ao mesmo tempo. (KAMII,1990, p. 20)

    Se depois de uma criança contar oito bolas organizadas numa relação ordenada nós pedirmos a ela que por exemplo nos mostre as oito bolas ela irá nos mostrar a última bola que ela contou.

    Para que esta criança consiga quantificar estas bolas como um grupo ela precisa colocá-los em uma relação de inclusão hierárquica, que significa que ela inclui mentalmente um em dois, dois em três e assim sucessivamente.

    A teoria do número de Piaget se opõe à hipótese comum de que os conceitos numéricos podem ser ensinados pela transmissão social, especialmente o ato de ensinar as crianças a contar.

    Conforme Kamii (1990, p. 25):

    As pessoas que acreditam que os conceitos numéricos devem ser ensinados através da transmissão social falham por não fazerem a distinção fundamental entre o conhecimento social e o lógico-matemático. No conhecimento lógico-matemático, a base fundamental do conhecimento é a própria criança, e absolutamente nada arbitrário neste domínio. Por exemplo 2 + 3 dá o mesmo resultado em todas as culturas. Na verdade, toda cultura que construir algum sistema de matemática terminará construindo exatamente a mesma matemática, porque este é um sistema de relações no qual absolutamente nada é arbitrário.

    O fato de que crianças pequenas não conservam os números antes dos cinco anos prova que o número é algo que é construído individualmente por muitos anos através da criação e coordenação de relações e que não é concebido inatamente.

    Por causa desta construção individual do número é que vemos a seqüência do desenvolvimento sintetizada da seguinte forma:

    – No nível I a criança não consegue fazer um conjunto que tenha o mesmo número que outro;

    – No nível II ela já consegue fazer um conjunto com o mesmo número, no entanto não consegue conservar a igualdade numérica de dois conjuntos;

    – No nível III ela já consegue conservar os números. Já construiu uma estrutura numérica que se tornou forte o suficiente para torná-la apta a ver objetos numericamente, em vez de espacialmente.

    Quanto aos educadores cabe o papel de favorecer o desenvolvimento desta estrutura ao invés de tentar fazer com que as crianças deem respostas certas e superficiais na tarefa de conservação.

    Piaget declara que o objetivo da educação deve estar centrada na autonomia da criança. E isto implica em não exigir que elas digam coisas nas quais elas não acreditam. Que é o caso que acaba por acontecer quando as escolas tradicionalmente ensinam através da obediência, através de notas. Todos estes procedimentos acabam por atrapalhar o desenvolvimento da autonomia das crianças.

    Este desempenho da escola acaba por refletir a diante quando alunos universitários demonstram não estarem preparados para serem críticos.

    As pesquisas mostram que o meio ambiente pode agilizar ou retardar o desenvolvimento lógico-matemático. (KAMII, 1990, p. 38)

    A criança de sete ou oito anos após ter construído o conhecimento lógico-matemático consegue representar esta idéia através de símbolos ou com signos.

    Piaget em sua teoria difere os símbolos dos signos porque os símbolos são criados pela criança e mantêm uma semelhança figurativa dos objetos.

    Muitos professores acreditam que ensinando as crianças a contar e a escrever os numerais estará ensinando conceitos numéricos o que é um equívoco, pois na verdade está apenas fazendo com que ela decore os números ao invés de construir a estrutura mental do número. Não que não seja bom para a criança aprender a contar e escrever numerais se isto lhe for de seu interesse, mas só isto não basta.

    Existem muitas maneiras de fazer com que um ambiente torne-se facilitador do conhecimento lógico-matemático. Kamii (1990) diz que: o meio ambiente pode proporcionar muitas coisas, que, indiretamente, facilita o desenvolvimento do conhecimento lógico-matemático. O ensino indireto pode variar do ato de encorajar as crianças a colocar todos os tipos de coisas em todas as espécies de relações, até pedir-lhes que peguem tantos pratos quantas são as pessoas em suas mesas.

    As relações são criadas pela própria criança. É algo que faz parte de seu processo de construção. Agora, o professor tem um papel muito importante neste desenvolvimento e deve estar atento para propiciar a criação de um ambiente material e social que encoraje a autonomia e o pensamento das crianças.

    Quando um adulto consegue criar um ambiente que indiretamente encoraje o pensamento das crianças acaba por surpreender-se com a quantidade de relações que elas por si acabam por demonstrar.

    As situações de conflito são ótimos momentos para colocar as coisas em relações e desenvolver a mobilidade e a coerência do pensamento. Se ao contrário de ser reprimida, a criança for encorajada a discutir ou justificar uma decisão estará desenvolvendo de uma maneira indireta o seu pensamento lógico. As crianças criadas em um ambiente repressor, mal sabem as famílias, o quanto têm a perder.

    O pensamento numérico pode ser desenvolvido naturalmente, sem ser necessário que a professora determine o horário de matemática. Já que o papel do professor é encorajar a autonomia da criança, então é muito mais interessante que seja observado o momento em que a criança demonstra interesse, e aí encorajá-las a pensar sobre quantidades.

    Existe uma diferença entre contagem mecânica e uma contagem que a própria criança tenha escolhido para resolver um determinado problema real. Normalmente antes dos sete anos de idade, a correspondência um-a-um, a cópia da configuração espacial, ou mesmo estimativas imperfeitas representam procedimentos mais confiáveis para a criança. Depois que a criança constrói a estrutura mental do número e assimila as palavras a esta estrutura, a contagem torna-se um instrumento confiável.

    O professor deve ser cuidadoso para não insistir que a criança dê respostas corretas a uma pergunta. Estas perguntas devem ser feitas de maneira casual para fazer com que as crianças pensem numericamente se isso lhes interessar. Deixar as crianças decidirem sobre quando usar a contagem é o melhor caminho na prevenção de imposições e numa fundamentação mais lógica para a aprendizagem futura.

    Kamii (1990, p. 58), afirma que:

    As crianças não aprendem conceitos numéricos com desenhos. Tampouco aprendem conceitos numéricos meramente pela manipulação de objetos.

    Elas só conseguem adquirir conceitos numéricos após construir esses conceitos pela abstração reflexiva à medida que agem mentalmente sobre os objetos.

    Uma criança que pensa na quantidade de pratos que terá que colocar na mesa de acordo com o número de pessoas que terá para o almoço, certamente é bem diferente daquela que está fazendo uma contagem porque a mãe mandou, ou disse: são seis pratos.

    Um bom princípio no âmbito lógico-matemático é o de evitar ficar reforçando erros e acertos, em vez disso encorajar as crianças em trocar ideias com seus colegas.

    Quando uma criança percebe que um colega encontrou uma resposta diferente da sua, ela normalmente é motivada a pensar outra vez sobre o problema, ou encontrar argumentos para defender sua resposta.  É por este motivo que a confrontação social entre colegas é um excelente método para o desenvolvimento do conhecimento lógico-matemático. É muito mais interessante para a criança ser corrigida por um de seus colegas durante um jogo do que aprender através de cadernos e exercícios.

    Já que o erro é um reflexo do que a criança está pensando, o professor tem um papel de descobrir como é que a criança chegou até um determinado resultado. Descobrindo isto é mais fácil fazer a correção do raciocínio da criança do que simplesmente corrigir suas respostas.

    Por exemplo é comum entre as crianças em nível pré-operacional encontrar dificuldade de considerar-se tanto como quem conta, quanto como quem é contado. E assim é quando contam os outros se esquecem de contar a si mesma. O que acaba acontecendo com este processo é que quando vai distribuir algum material sempre acaba faltando. Então neste momento é importante a professora estar alerta e fazer uma pergunta de uma maneira casual: – “Você contou a si mesmo?”

    Desta forma a professora estará atuando um papel significante no pensamento da criança não simplesmente reforçando seus erros.

    Referência Bibliográfica

    KAMII, Constance.  A criança e o número: implicações da teoria de Piaget para atuação junto a escolares de 4 a 6 anos. Campinas, São Paulo : Papirus,  1990.

    Aqui neste site eu compartilho diversos jogos para estimular a construção do número. Um deles é o jogo Maior ou Menor? Ele está disponível em arquivo digital formato PDF e é gratuito (enviado por e-mail). Para adquirir clique no link abaixo.

  • PEI – Programa de Enriquecimento Instrumental

    PEI – Programa de Enriquecimento Instrumental

    O-lá!

    O PEI foi criado por Reuven Feuerstein, é composto por 14 instrumentos. Foram elaborados de uma maneira que há um crescente nível de dificuldade. Não apresentam conteúdos escolares e nem têm esta pretensão, mas pretendem promover modificações nas estruturas cognitivas do sujeito a ponto de que o mesmo supere suas dificuldades tanto na escola como na vida.

    A chave principal para promover a modificabilidade está na mediação. Os instrumentos em si, se forem aplicados sem a devida mediação, tornam-se apenas mais uma atividade. Por este motivo, a aplicação dos instrumentos é autorizada somente para profissionais habilitados e autorizados pelo ICELP/Israel e/ou pelos centros autorizados que se encontram em vários países.

    Qualquer pessoa pode melhorar seu desempenho, conforme palavras de Feuerstein:  “O indivíduo é um ser modificável”.

    Algumas competências desenvolvidas:

    – Interiorização e memorização;

    – Planejamento e organização;

    – Raciocínio lógico verbal;

    – Controle da impulsividade;

    – Autonomia…

    Quem pode ser favorecido pelo programa:

    – Crianças e adolescentes que precisam melhorar seu potencial para aprender;

    – Adultos que almejam aumentar seu potencial intelectual;

    – Idosos que queiram permanecer mentalmente ativos.

    A minha formação em PEI eu fiz no CDCP (Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná) e posso dizer que foi um diferencial na maneira que eu lido com o meu próprio processo de aprendizagem e também modificou a minha mediação. Se você tem interesse em maiores informações sobre o PEI entre em contato com https://cdcp.com.br/ 

    Um forte abraço.

  • Uma história de adoção…

    Uma história de adoção…

    Uma das coisas que eu gostava quando pequena era quando faltava energia elétrica em minha cidade. Nestes momentos, com luz de vela, minha mãe, com seu cigarro aceso – aliás, era algo que ela não vivia sem – e meu pai, contavam histórias. Meu pai dizia que o Xerife, nosso cachorro, tinha feito xixi no poste e falava para eu ir embaixo da mesa e dizer três vezes “São Longo, São Longuinho traga a luz bem rapidinho”. Eu achava isto muito engraçado, e para meu espanto de criança, às vezes funcionava. Eram momentos maravilhosos!

    Eu e meu irmão fazíamos uma brincadeira que o próprio nome já diz tudo: bagunça. Isso mesmo, dizíamos: Vamos brincar de bagunça? E era o seguinte: tínhamos coberta de pena. Nossa mãe arrumava as camas, e para ficar bem bonito ela passava o cabo da vassoura por cima da coberta e ia ficando tudo bem retinho. Nossa brincadeira favorita era pular em cima daquela cama e dar boas risadas.

    Minha mãe gostava muito de pescar e eu a acompanhava. Íamos longe naquelas estradas empoeiradas em busca de uma lagoa ou rio. Até hoje quando vejo uma lagoa a imagino sentada pescando. Ela era loira, olhos azuis, pernas grossas e um dedo torto. Uma vez perguntei se ela tinha nascido assim. Contou-me que quando criança estava cortando trato para o gado e cortou o dedo. Alguém amarrou o seu dedo com um pedaço de tecido e disse para ela voltar a trabalhar, e assim ela o fez. Porém, da maneira como foi amarrado ele ficou, ou seja, torto. Ao me contar, eu sentia em seu olhar um certo orgulho daquele dedo torto. Dizia que era seu charme.

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    Meu pai nasceu em 1925 na cidade de Caen, na Bahia. Aos 15 anos, ele não queria mais ir para a escola. Meu avô chamou-o e disse: ou você estuda ou vai para a Marinha. Ele preferiu ir para a Marinha, e por 11 anos percorreu o mar de muitos países. Vocês podem imaginar quanta história ele tinha para contar. Na 2ª guerra mundial ele estava em algum navio.

    Bem, os dois se conheceram em uma praia de Santos. Tiveram um filho e na Revolução de 1964 saíram de Santos para viver em Pouso Redondo, cidade que ela havia crescido. A saída de Santos não impediu que meu pai fosse preso por denúncia de ser comunista. Até hoje não sei se ele era realmente comunista.

    E quando eu entro nesta história?

    Foi por este casal que fui adotada em 1971, com 23 dias de vida.

    Em um domingo foram visitar seus amigos e compadres. Souberam que uma família estava querendo dar uma criança por não ter condições de criá-la. Minha mãe, que não conseguia mais engravidar, foi me conhecer e voltou correndo dizendo para meu pai que eu era linda (beleza é algo que o amor não consegue explicar). No início meu pai ficou um pouco reticente, mas acabou concordando e segundo minha mãe, quando ele me viu foi amor à primeira vista.

    E assim começou a nossa história…

    Esta pequena parte de minha vida escrevi pensando nas pessoas que querem adotar seus filhos e por algum motivo estejam receosos. Adoção é um ato de amor, isto não significa que não há dificuldades ou problemas. Na verdade há problemas como em qualquer outra família. Ah, quanto trabalho eu dei aos meus pais!

    É necessário que quem vá adotar uma criança se pergunte: por que quero adotar?

    Adoção é para quem quer ter filhos, e está disposto a enfrentar as responsabilidades que uma família traz, não serve para um ato de caridade. Portanto adotar uma criança e depois considerá-la eternamente devedora é completamente descabido. Nesta relação todos ganham, se a criança tem a felicidade de receber os pais, os pais também realizam o seu desejo de ter um filho. E deste encontro é formado uma família.

    Os meus pais se separaram quando eu tinha 11 anos e as coisas não ficaram muito boas, porém nunca deixaram de ser os meus verdadeiros pais.  Hoje não estão mais nesse mundo e apesar de não tê-los em meu sangue estarão para sempre em mim. Isso é ADOÇÃO!

    P.S:

    Duas mães

    Uma deu a vida.
    A outra salvou.
    Uma não enxergava, não ouvia, não falava.
    Para reconhecer sua filha precisava lhe tocar.
    A outra, a quilômetros de distância, bastava olhar.
    As duas já partiram.
    O que deixaram?
    Bom, a mãe que deu a vida entregou sua filha para a mãe que a salvou. E esta a ensinou a pescar. Literalmente!
    E quem aprendeu a pescar sabe que paciência e persistência são elementos fundamentais para garantir uma boa pescaria, mas você também precisa saber o que está querendo pescar. Assim, sempre que voltar para casa vai ter uma boa história pra contar.

    por Solange Moll Passos

  • Escrita Espelhada. Que bicho é esse?

    Escrita Espelhada. Que bicho é esse?

     

    É comum nos primeiros registros escritos observarmos as crianças escrevendo letras, números e palavras de trás para frente (veja o vídeo no final deste post). Por que isto acontece? Em primeiro lugar, trata-se de um fato comum no processo de aprendizagem da linguagem escrita porque nas primeiras tentativas a criança ainda não sabe todas as regularidades. Por exemplo: em nossa cultura se lê e se escreve da esquerda para a direita, ao contrário de outras culturas como a árabe e a hebraica que escrevem da direita para a esquerda, ou ainda os chineses, que escrevem de cima para baixo.

    Também é necessário compreender que a criança em fase de alfabetização está adquirindo a noção de direita e esquerda e as áreas cerebrais responsáveis por noções visoespaciais estão em processo de maturação. Jogos e brincadeiras que envolvam principalmente o corpo são de grande importância para a alfabetização porque a criança primeiro precisa construir estas noções em seu próprio corpo. 

    De qualquer forma, nesses primeiros passos no caminho da alfabetização, é frequente os pais ficarem angustiados ao observarem estas escritas espelhadas acompanhadas também de falta de letras ou mistura de letras e números. O ideal é deixar seus filhos fazerem suas tentativas, pois as crianças, conforme pesquisas realizadas por Emília Ferreiro e Ana Teberosky (pesquisadoras reconhecidas internacionalmente por seus trabalhos sobre alfabetização), começam a construir a língua escrita muito antes de entrarem no ensino formal.

    De acordo com Zorzi (2000):

    “Por muito tempo e, de modo bastante insistente, temos sido levados a ver, nos erros e enganos que as crianças fazem ao escrever, indícios de distúrbios e patologias. Os espelhamentos de letras são um exemplo típico desta maneira, até mesmo parcial e distorcida, de compreendermos o que é a aprendizagem.”

    As crianças podem, a princípio, além da escrita espelhada, escrever “formiga” com poucas letras e “boi” com muitas. É comum  justificarem que formiga é pequena, logo precisa de poucas letras, exemplo: CFAO. Já o boi é grande, então precisa de muitas letras: JAJNSHSJAKOV. Em outros casos, elas utilizam as letras do próprio nome em ordem diferente para muitas palavras. Mais adiante passam por outra fase e então escrevem uma letra para cada vez que pronunciam um som.

    E assim a criança segue gradualmente em sua investigação, até atingir a escrita convencional.

    Não existe criança que não sabe nada sobre a escrita. O que acontece é que a criança pensa sobre a escrita formulando hipóteses sobre ela, para compreender o que a mesma significa. Isto não quer dizer que ela não precisa de um mediador para aprender a ler e escrever. A ação de um mediador é imprescindível para fazer com que a hipótese da criança entre em conflito e assim proporcione o seu avanço.

    Feuerstein (1980 apud Beyer, 1996, p. 75) diz:

    Por meio do conceito da experiência da aprendizagem mediada (EAM) nós nos referimos à forma como os estímulos emitidos pelo meio são transformados por um agente ‘mediador’, usualmente um pai, um irmão ou outra pessoa do círculo da criança. Este agente mediador, motivado por suas intenções, cultura e envolvimento emocional, seleciona e organiza o mundo dos estímulos para a criança. O mediador seleciona os estímulos que são mais apropriados e então os filtra e organiza; ele determina o surgimento ou desaparecimento de certos estímulos e ignora outros. Através desse processo de mediação, a estrutura cognitiva da criança é afetada.

    Mas, muitas vezes, quando se ouve dizer que uma criança de 5 anos está lendo e escrevendo, logo vem aquela preocupação: será que meu filho de 6 anos tem problemas? Neste caso é melhor agir com bom senso, respeitando o ritmo de cada um. A escola deve ser parceira dos pais, dizendo-lhes quando percebe algo que mereça mais atenção.

    Zorzi (2000) também comenta:

    Estamos, como adultos, fortemente contaminados com noções rígidas de “certo” e “errado”: se a criança está agindo ou pensando da mesma forma que nós, então ela sabe, ela está certa, está aprendendo. Caso contrário, se ela assimila, ou entende uma situação de uma maneira distinta da nossa, que não está de acordo com nossas concepções e crenças, então ela está errada. Não está aprendendo. E, se não está aprendendo, então deve ter dificuldades, problemas, e assim por diante.

    Há uma preocupação exagerada para que se leia cada vez mais cedo. O mais sensato é baixar a ansiedade, acompanhar o desenvolvimento da criança, confiar na escola do seu filho e proporcionar um ambiente rico em leitura e escrita, regado com muita paciência e persistência.

    No mais é curtir e guardar estas primeiras tentativas de escrita com o mesmo valor dado às primeiras palavras e os primeiros passos.

    Olhem que LINDO vídeo eu recebi!!! Ilustra exatamente o tema abordado.  Artur aos 4 anos e 5 meses escreveu seu nome assim: 

    P.S.
     A escrita espelhada é comum até a idade de 7-8 anos. Se, entretanto, mesmo recebendo estímulo e ensino adequados, ainda assim ela estiver apresentando, além da escrita espelhada, dificuldade na aprendizagem da leitura e escrita, considero prudente uma avaliação psicopedagógica.

    REFERÊNCIAS

    BEYER, Hugo Otto. O fazer psicopedagógico: a abordagem de Reuven Feuerstein a partir de Piaget e Vygotsky. Porto Alegre: Mediação, 1996.

    ZORZI, Jaime Luiz. As inversões de letras na escrita o “fantasma” do espelhamento. 2000. Disponível em < http://www.filologia.org.br/soletras/15sup/As%20invers%C3%B5es%20de%20letras%20na%20escrita-%20o%20’fantasma’%20do%20espelhamento.pdf>. Acesso em 11 fevereiro 2011.

     OBRAS CONSULTADAS

    FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

    MACEDO, Lino de; NORIMAR, Ana Lúcia Sícoli Petty, PASSOS, Norimar Christe.  Os jogos e o lúdico na aprendizagem escolar.  Porto Alegre: Artmed, 2005.

    ZORZI, Jaime Luiz. Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: questões clínicas e educacionais. Porto Alegre: Artmed, 2003.

    Clique no link abaixo para ter acesso a uma apostila com sugestões de atividades lúdicas para intervenção da escrita espelhada.